“Ele fez tudo o que era para ser feito”, diz ator que interpretou Jesus

Polícia irá abrir inquérito para investigar enforcamento acidental na encenação da Paixão de Cristo, em Itararé, no interior de SP

Bruna Carvalho, enviada a Itararé (SP) |

O funcionário da loja Pernambucanas de Itararé, no interior de São Paulo, Gleison Thiago Domingues, 20 anos, interpretou Jesus Cristo na encenação da Paixão de Cristo em que Thiago Klimerck, 26 anos, foi enforcado acidentalmente enquanto interpretava o papel de Judas Iscariotes . Embora tenha traído Jesus na história bíblica, os dois eram amigos há oito anos e realizavam a encenação juntos há três.

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“Fiquei muito abalado, porque sou amigo dele”, disse o rapaz evangélico de 20 anos à reportagem do iG antes de chegar ao trabalho na manhã deste domingo, na Praça da Matriz, onde ainda estavam os tablados usados na encenação na sexta-feira à tarde. Gleison ficou com o amigo até as 3h na Santa Casa de Itararé, para onde Thiago foi levado em estado grave após o acidente. Por volta das 10h de sábado, o ferido foi transferido para o hospital de Itapeva, onde permanece sedado e entubado, mas não corre risco de vida.

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No momento em que ocorreu o enforcamento, Gleison estava no outro tablado e só soube do ocorrido no final do espetáculo, que transcorreu normalmente até o seu término. “O problema é que ele fez o que era para ser feito, por isso ninguém percebeu. Ele tinha que morrer e ficar pendurado. Ele fez exatamente o que era para acontecer”, conta. Segundo Gleison, o amigo ficou cerca de quatro minutos pendurado.

Sandro Azevedo/Virtual Guia
Ator Thiago Klimeck em cena da Paixão de Cristo, encenada em Itararé

A atriz Janaína Carvalho, de 28 anos, foi quem colocou um saco preto na cabeça de Thiago durante a encenação. Como estava previsto, o ator que interpretava Judas foi encostado em uma árvore, onde deveria saltar com uma corda presa em um colete de segurança. Janaína lamenta ter demorado a perceber que ele estava desacordado. “Comecei a falar com o Thiago e pedi para ele ajudar a gente a tirar a corda. Quando percebi que ele não respondia, eu e outros atores chamamos por socorro. O que aconteceu de verdade só o Thiago vai poder falar. Só ele sabe o que deu errado”, disse Janaína, quando estava a caminho de Itapeva para visitar o colega.

Gleison contou que essa era a terceira vez que Thiago interpretava Judas Iscariotes na Paixão de Cristo de Itararé. “No primeiro ano, a cena de enforcamento foi feita no chão mesmo, mas esse era o segundo ano que a gente fazia com o colete”, explica. Segundo Gleison, o colete de segurança que Thiago usava na encenação tinha uma corda, que ficava pendurada em uma árvore e uma cadeira, na qual ele deveria ficar sentado durante o que deveria ser uma simulação de enforcamento.

Segundo Janaína, que também dirigiu o espetáculo, a cadeirinha de segurança foi emprestada pelo Corpo de Bombeiros, que explicou como deveria ser feita a utilização. Ela ainda afirmou que o equipamento foi testado. O Corpo de Bombeiros nega qualquer envolvimento com o espetáculo.

De acordo com testemunhas integrantes do grupo teatral, Thiago vestia um colete com uma cadeira de segurança na qual ele deveria se sentar durante a cena que simulava o enforcamento. No espetáculo, essa cadeira era fixada em uma corda de seis metros, cuja a outra extremidade estava amarrada a uma árvore. Thiago então subiu a escada montada embaixo da árvore e saltou do último degrau. Ainda não se sabe se o ator se enforcou com a corda ou com o colete.

O ator André Luiz da Cunha, que interpretava o carrasco na peça, foi quem amarrou a corda no colete. Ele disse ao iG que todo o procedimento foi feito normalmente. “Fizemos a mesma coisa no ensaio e deu tudo certo”, disse.

O delegado da Polícia Civil José Vitor Bacetti informou que vai ser instaurado um inquérito para apurar as circunstâncias do ocorrido e se houve responsabilidade de algum dos envolvidos. A polícia apreendeu os seis metros de corda utilizados e a cadeira de segurança, que podem seguir para a perícia.



Público

Clodoaldo Cristiano, de 67 anos, estava na Praça Coronel Jordão, durante o espetáculo e disse que o público não percebeu o incidente envolvendo o ator. “Foi muito estranho, Se a pessoa estivesse sendo enforcada, ele deveria se debater, mas ele não fez nada. É um mistério”.

A funcionária pública Valdirene Lopes Francisco, de 39 anos, que estava acompanhada de sua irmã, concordou com Clodoaldo. “Foi uma pena. Toda a cidade quer ver a apresentação, estão dispostos, se preparam, ensaiam e acontece uma coisas dessas”. Ela diz que estava bem perto do ator, mas que não notou que ele havia se machucado. “Ele saltou de lá (escada que parecia uma árvore), colocaram um véu nele e ninguém notou. Eu não percebi nada de diferente.”

* Com AE

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