'Ele dizia que faria com meus filhos o que fazia comigo´

Aluna de mestrado da Unesp acusa professor de estupro e alega que não o denunciou por medo

Lecticia Maggi, enviada a Ilha Solteira |

Lecticia Maggi
Com autorização do carcereiro, Rosângela deixa a cela para uma foto. Ela prefere não mostrar o rosto
Com blusa marrom, calça jeans e cara lavada, a dentista Rosângela Conceição Mioti de Souza, de 33 anos, recebe o iG por trás das grades da cadeia pública de Ilha Solteira (a 669 km da capital paulista). Ela é acusada de sequestro, cárcere privado e porte ilegal de arma, após invadir a casa do professor de Odontologia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Elerson Jardim Jr., no último dia 14, determinada a matá-lo, e fazer refém a empregada da família. Ela o acusa de ameaças e estupros dentro da universidade.

À reportagem, diz que pegar a arma do marido – policial militar reformado e com porte - escondida foi um “ato de desespero e impensado”. “Acordei e pensei ‘por tudo o que ele fez comigo, sabe de uma coisa? Vou resolver isso agora’. Vim de ônibus, peguei táxi e parei na porta da casa. Perguntei se era a casa da esposa dele e entrei”, conta.

Rosângela nega que tenha ameaçado a doméstica Maria de Lourdes, de 52 anos, durante as mais de 3 horas em que a manteve refém dentro da casa. “Falei: ‘vim aqui fazer algo com o seu patrão’. Ela ficou com medo, mas começou a se sensibilizar com história que eu estava contado. Em momento algum, ameacei que iria matá-la. Pelo contrário, eu pedi ajuda a ela. E, quando ele chegasse, iria matá-lo. Era meu objetivo.”

Mais do que ter ido à casa do professor - que hoje lhe rende dias em uma pequena cela com outras sete presas - a dentista diz que se arrepende de não ter denunciado o que supostamente sofria a tempo. “Não falei por medo, medo. Fico pior de pensar que tive a oportunidade em minhas mãos de mudar o caminhar dessa historia e não fiz no momento que deveria. Simplesmente por medo, medo, medo...”

Leia trechos da entrevista com Rosângela:

O início

“Em fevereiro de 2010, como ele era meu orientador, pediu um pen drive para copiar o projeto que eu iria desenvolver. Entrei na sala dele, ele abriu meu pen drive, mas, ao invés de só copiar o trabalho, selecionou e pegou parte de fotos que meu marido tinha tirado de mim em 2009, de lingerie. Eu falei: ‘professor, deleta essas fotos, por favor’. E ele ria e não fazia nada. Eu insisti, insisti e ele ria. Implorei: ‘professor, deleta isso do seu computador, por favor. E ele ria e dizia: ‘qualquer coisa você estará na minha mão. Posso pegar essas fotos e falar para o seu marido que você me passou as fotos e estava aqui na minha sala se insinuando para mim’.”

Ameaças e supostos estupros

“Passaram-se dias e achei que ele não iria fazer nada com as fotos. Não falei para o meu marido, mas ele começou a fazer piadinhas que queria ficar comigo. Um dia entrei na sala e ele trancou a porta. Falei ‘sou casada, o senhor conhece minha família, meus filhos, para com isso’. E ele: ‘agora, é o momento de te ver sofrer, tira a roupa’. Ele passou a fazer o que ele queria comigo. Na hora de ir embora dizia que eu precisava ficar mais. Terminava a aula e eu tinha que ficar lá, até tarde da noite. Eu não podia falar o que estava acontecendo realmente. Ele começou a ameaçar, disse que faria pior com os meus filhos e eu tenho uma menina de só 6 anos. Deixava bem claro, dava detalhes do que faria.”

Omissão

“Se alguém fosse do lado da janela iria escutar, mas eu ficava quieta, meu medo era justamente das pessoas descobrirem e meu marido descobrir. Por isso, nunca gritei. Tinha medo de magoar meu marido, de ele saber tudo o que eu estava passando... Alguém que sempre fez tudo pela família. E virou uma bola de neve.”

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