Ela tinha medo do Mizael, diz irmã de Mércia Nakashima

Primeira audiência de instrução sobre a morte da advogada começou com testemunhos da acusação

Lectícia Maggi, iG São Paulo |

Claudia Eliane Mayume Nakashima, irmã de Mércia Nakashima, foi a primeira testemunha de acusação a ser ouvida pelo juiz Leandro Bittencourt Cano, da Vara do Júri de Guarulhos, na Grande São Paulo. O magistrado começou a ouvir, nesta segunda-feira, as testemunhas que podem ajudar a esclarecer o assassinato da advogada, de 28 anos. Ela desapareceu no dia 23 de maio após deixar a casa da avó, em Guarulhos, e seu corpo foi encontrado na represa de Nazaré Paulista, no interior do Estado, no dia 11 de junho.

Alberto Augusto
Mizael Bispo (terno marrom) e Evandro Bezerra (camisa azul) em audiência no Fórum de Guarulhos
Hoje foi o primeiro dia da audiência de instrução do caso. Ao todo, durante esta semana, estão previstas para serem ouvidas 25 pessoas - sendo oito testemunhas de acusação, 15 de defesa e dois do juízo, além do ex-namorado da vítima Mizael Bispo de Souza, policial militar reformado e advogado; e o vigia Evandro Bezerra da Silva, acusados de ter assassinado a advogada.

Em depoimento que durou cerca de 1 hora e meia e sem a presença dos acusados, Claudia afirmou que presenciou várias brigas entre Mércia e Mizael, principalmente depois de 2008. “De lá para cá, ela passou a ter ódio do Mizael. Ela tinha muito medo dele. Muito mesmo”. Segundo ela, o que mais incomodava a irmã, no comportamento do ex-namorado, era o ciúmes excessivo. “Ele não a deixava falar com ninguém. Nem comigo". 

Além do ciúme, Claudia afirmou que o ex-policial não tomava cuidado com a arma que sempre carregava. "Uma das brigas da Mércia com ele era porque ele chegava armado e largava a arma em qualquer lugar. Deixou uma vez na mesa numa altura que meu sobrinho podia pegar. Ele chegava com duas armas e jogava. Tinha um 38 raspado que disse que se precisasse atirar seria com ele.”

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Márcia Nakashima se emociona ao chegar ao Fórum de Guarulhos para audiência sobre a morte de sua irmã, Mércia (Foto Antony Myamoto)
Questionada pelo promotor Rodrigo Merli Antunes, do Ministério Público, Claudia contou que a irmã afirmava que era ameaçada por Mizael. Mércia era muito reservada nos assuntos de relacionamento, mas, segundo Claudia, fazia confidências a uma amiga e ex-cliente Nanci, de 70 anos.

“Mércia contava a Nanci que Mizael ligava e dizia que se ela não fosse encontrá-lo ‘ia ver o que ia acontecer’. Segundo a Nanci, os encontros dos dois aconteciam sob coação.”

Claudia disse ainda que duas vezes chegou em casa e viu utensílios de cozinha quebrados pelo chão. “Num desses dias, Mércia estava com hematomas no braço, mas ela se trancou no quarto e ficou a noite inteira chorando. Eu liguei para o Mizael e ele desconversou. Fui fazer boletim de ocorrência no 6º DP, mas eles não queriam colocar nada do que eu falava. O escrivão dizia para tomar cuidado que podia tomar um processo. Ele mandou ir pra casa e ficar 15 dias ao lado do telefone (..). Aí uma pessoa da delegacia me disse vai para São Paulo que aqui em Guarulhos tá 'mó esquemão’”.

Depoimentos de acusação

Após Cláudia, foi a vez da testemunha Alexandre Simone Silva ser ouvida. Ele é policial e trabalha há 13 anos na divisão antisequestro. Foi ele quem fez a análise das ligações feitas por Mizael no dia em que Mércia morreu. Segundo Alexandre, a versão do acusado de que teria ficado na região de um hospital no dia do crime não é compatível com a movimentação registrada pelas ligações feitas por Mizael por um segundo celular, que não teria sido apresentado num primeiro momento, mas que a polícia diz ter sido utilizado por ele.

"No dia 23 (dia do crime), se ele estivesse parado no hospital, como afirmou, as ligações teriam atingido uma antena só e não várias. Isso indica que ele estava em movimento”, afirmou o policial. Segundo Silva, no dia 23, foram feitas 19 ligações do telefone não declarado por Mizael. Dessas, 16 foram para  Evandro, acusado de ter participado do crime. No mês, foram 41 ligações entre os dois.


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Márcio Nakashima foi ouvido pelo juiz Leandro Cano em Guarulhos (Foto: Antony Myamoto)
Irmão de Mércia, Márcio Nakashima foi o terceiro a ser ouvido nesta quarta-feira. Em depoimento que durou cerca de uma hora, ele enfatizou a "estranheza" que a atitude de Mizael causou depois do desaparecimento da irmã. "Ele não ajudou nas buscas. Fizemos panfletos. Mandei tirar mais de 30 mil xerox. Fomos entregar no farol e no centro de Guarulhos. Depois recebemos uma ligação de que o Mizael estava retirando os panfletos desses comércios.”

Márcio afirmou que, após o desasaparecimento de Mércia, aconteceram fatos que chamou de “excesso de coincidências”. “Bateram no meu carro. Uma Ecosport ficou me seguindo e a minha irmã. Tentaram atropelar o meu pai e um grupo revirou a barraca de feira (na Vila Galvão) e agrediu o meu tio sem levar nada."

O irmão da advogada chorou a falar sobre o encontro do carro da irmã na represa. “Achei que o corpo estava ali. Quando não acharam, reacendeu a esperança.”

Ao ser questionado por um dos advogados de Mizal Samir Haddad se havia ficado sem sem falar com Mércia por causa de Mizael, Márcio ironizou. “Sim, desde o dia 23 (data em que ela desapareceu)." o advogado ficou irritado e Márcio teve de responder novamente a pergunta. “Sim, quando ela estava com ele não falava com ninguém. Era outra pessoa.”

O guardador de carros Bruno Oliveira Silva, de 25 anos, prestou depoimento por cerca de 30 minutos. Ele trabalha na região do Hospital de Guarulhos, onde na noite do dia 23 de maio o veículode Mizael ficou parado por cerca de 3 horas. Silva afirmou que viu o acusado chegando em um Kia Sportage por volta das 18h30 e entrando em um Honda Fit (Mércia tinha um Honda Fit prata). Muito nervoso e tremendo, Silva não entrou em detalhes e disse apenas que viu o Kia deixando o local na mesma noite, sem precisar quem era o motorista.

Em seguida, um funcionário do posto de Nazaré Paulista, onde o vigia Evandro Bezerra da Silva trabalhava, Jurandir Ferreira da Silva, foi ouvido por 15 minutos. Ele afirmou que Mizael ia frequentemente ao posto para falar com Evandro e este chegava a ficar de uma a duas horas dentro do carro do policial militar aposentado. “Antes ele (Mizael) ia quase todo dia. Depois do assassinato, parou de ir”, afirmou acrescentando que Evandro parou de ir trabalhar “lá pelo dia 30” do mesmo mês.

A também testemunha de acusação Maria Cleonice Ferreira falou brevemente sobre a ajuda que deu à família de Mércia para colar cartazes pela cidade de Guarulhos. Ela confirmou que recebeu uma ligação pedindo para ir repor alguns cartazes - que haviam sido retirados do centro de Guarulhos - mas a pessoa não soube dizer quem os havia retirado.

Airton Lima, que seria testemunha de acusação, foi dispensado. O juiz Leandro Bittencourt Cano ouviu sob sigilo o pescador que disse ter visto o carro da advogada se aproximando da represa de Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, no dia do seu desaparecimento. Foi nesta represa que o carro e o corpo de Mércia foram encontrados.

Após o depoimento do pescador, Cano pediu para ouvir o jornalista Robinson Cerântula, da Rede Globo, mas como ele não estava presente no Fórum, acusação e defesa o dispensaram para não atrasar os trabalhos. O repórter estava com a família de Mércia dias depois de seu desaparecimento na represa, quando o carro de Mizael foi visto por eles no local.

Na saída do tribunal, a mãe de Mércia falou rapidamente com os repórteres e manteve disse que mentém a certeza sobre o autor do crime. "Ninguém tem dúvida que foi o Mizael. O Brasil está sabendo", afirmou ela que disse acreditar que no final ele será preso.

AE
Mizael Bispo (e), no visto em corredor do Fórum Central de Guarulhos, na Grande São Paulo, ao lado de um dos seus advogados

Crime

Para o Ministério Público, Bispo matou Mércia por ciúme e por não se conformar com o término do relacionamento. Ele foi denunciado por homicídio triplamente qualificado - motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

Silva que teria ajudado Bispo a fugir do local do crime foi denunciado por homicídio duplamente qualificado - motivo cruel e recurso que impossibilitou defesa. "O homicídio foi causado por motivo torpe e repugnante, pelo fato da vítima ter terminado um relacionamento amoroso com o acusado. O meio cruel foi porque foram feitos disparos em partes não letais do corpo de Mércia, o que causou dor e aflição. Já o recurso que dificultou a defesa da vítima foi pela dissimulação que o acusado usou para atrair a vítima para uma encontro quando sua intenção era matá-la", afirmou o promotor Rodrigo Merli Antunes, do MP, a época da denúncia, em agosto.

Reconstituição

No último dia 17 de setembro, a polícia e o Ministério Público realizaram a reconstituição do crime com base no depoimento de um pescador que afirmou ter visto um carro se aproximando da represando na noite de 23 de maio e, depois, afundando na água. A reconstituição durou cerca de 3h e foi acompanhada pelos advogados de Bispo e Silva

Ao término, o promotor afirmou que o saldo havia sido positivo. "Tudo se encaixa. A avaliação foi positiva e já temos respostas para as perguntas", disse Rodrigo Merli Antunes.

Relembre, em imagens, a cronologia do caso Mércia

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