Ecoterroristas que agem nos EUA podem ter atuado em São Paulo

Polícia investiga se Frente de Libertação da Terra foi responsável por incêndio que danificou oito Land Rovers em São Paulo

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Às 5h do dia 26 de setembro de 2009, sete carros foram destruídos por um incêndio criminoso provocado por coquetéis molotov em uma concessionária de Guadalajara, no México. Entre os veículos queimados estão modelos Chevrolet Tornado, Trail Blazer e Hummer H3.

Oito meses e 23 dias depois, na madrugada de 18 de junho de 2010, cena similar aconteceu em uma concessionária de carros da marca Land Rover, localizada na Marginal Pinheiros, zona oeste da capital paulista. O i ncêndio danificou oito veículos , causando um prejuízo de cerca de R$ 1,5 milhão à loja. O vigia da concessionária disse a policiais ter visto três jovens jogarem um artefato por cima do muro da concessionária e fugido minutos depois, em um carro branco.

AE
Carros destruídos na manhã desta sexta-feira. Ao todo, oito veículos foram atingidos pelas chamas
Os dois episódios podem ter em comum o fato de terem sido provocados por grupos de ecoextremistas ou ecoterroristas – como são chamados em alguns países. No México, uma carta supostamente assinada pela Frente de Libertação da Terra (FLT) diz que a ação foi feita com o objetivo de “destruir a tecnologia destinada a devastar o meio ambiente”. “É preciso deixar claro que nossos ataques não são para ferir as pessoas, mas destinados a atacar a economia de um sistema que destrói o meio ambiente e explora os animais. E não pararemos com esses atos (...)”, diz.

No Brasil, o mesmo grupo também assume, por meio de declaração divulgada na internet, o ataque à loja da Land Rover. No início da semana, espalhou-se por blogs a carta escrita por supostos integrantes da FLT dizendo que o incêndio foi feito para marcar a “Semana Internacional de Libertação Animal e da Terra”. “O alvo foi escolhido pelo simples fato da Land Rover ser uma das marcas líderes na construção, venda e incentivo à compra e utilização de SUV's: automóveis altamente poluentes e danosos ao meio ambiente”, diz o texto.

Conforme a carta, os coquetéis molotov usados para colocar fogo nos veículos custaram apenas R$ 10, o que chamam de “maneira simples, barata e eficiente de destruição”. A carta termina com novas ameaças do grupo, que afirma que não ficará parado “assistindo a destruição do planeta e suas espécies de braços cruzados”. “Da mesma maneira que esses carros queimaram, outros carros, casas, caminhões e estabelecimentos de quem danificam e exploram (SIC) a terra e os animais também
queimarão”, finaliza o texto.

O delegado Ricardo Arantes Cestari, do 14ºDP da cidade, que presidia o inquérito, disse que teve acesso ao email do grupo e que a hipótese do incêndio ter sido provocado por ecoterroristas não pode ser rejeitada.

Paul Henry Bozon Verduraz, do Setor de Investigações Gerais (SIG), que agora cuida do caso, também conversou com o iG e afirmou que há “coincidências” na execução do ataque à loja da Land Rover e a do México. Segundo ele, não há registro na cidade de São Paulo de crimes provocados por grupo de ecoextremistas, que se dizem protetores do meio ambiente. Caso a suspeita se confirme, será um novo grupo que passará a ser investigado pela polícia. “Até o momento, só sabemos que o incêndio foi criminoso”.

De acordo com os delegados, não está descartada também a possibilidade de vandalismo comum ou mesmo de golpe de seguro, já que a maioria dos carros atingidos pelo incêndio estava segurada.

Grupo ecoterrorista

A Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, na sigla em inglês) é uma organização internacional composta de células autônomas, destinada a deter a destruição do meio ambiente por meio do que chamam de sabotagem econômica, além de táticas de guerrilha e destruição de propriedades. Entre os seus alvos principais estão empresários da exploração madeireira, construção civil e indústria automotiva.

A organização tenta induzir as pessoas a abandonar uma visão antropocêntrica em favor de uma alternativa “ecocêntrica”, em que o bem-estar do mundo natural, e todas as espécies vegetais e animais que o povoam, teria precedência sobre o bem-estar da humanidade.

A organização ambientalista foi fundada em 1992, no Reino Unido, por membros do grupo radical Earth First!. Desde então, vem assumindo a autoria de dezenas de atentados ao redor do mundo, principalmente na Holanda, Alemanha, Rússia, Nova Zelândia, Itália, Irlanda, Polônia, Espanha, França, Finlândia, México e Estados Unidos, tendo sido declarada uma ameaça mundial pelo FBI. Suas campanhas consistem, em grande parte, do envio de comunicados anônimos à imprensa logo após os atos de sabotagem.

Os ecoterroristas responsabilizam SUV's pelo incêndio na concessionária da marca Land Rover, em São Paulo. Calcula-se que as SUV´s poluam de duas a três vezes mais do que um carro convencional de pequeno porte.

Recentemente, o Ministério do Meio Ambiente divulgou um amplo estudo com a lista dos carros mais poluentes vendidos no Brasil e, nas três primeiras posições, ficaram as SUV’s e pick-ups. O ranking de emissão de poluentes, que contou com mais de 400 carros produzidos em 2009, compara os níveis de emissão de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio, responsáveis por 99% da poluição veicular.

“A resposta para o maior consumo de combustível pelas SUVs é simples e previsível”, diz Arnaldo Alves Cardoso, professor do Departamento de Química Analítica da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para se locomover na mesma distância com um carro popular, proporcionalmente gasta-se muito menos combustível do que o utilizado pelos veículos mais pesados, que contam com ar-condicionado e outras tecnologias que contribuem para o aumento de sua massa bruta. “Esse é o princípio científico básico para explicar a questão, o que faz com que os carros de grande porte realmente sejam considerados os grandes vilões do aquecimento global pelos ambientalistas”, completa.

Segundo ele, menos de 1% do combustível do tanque é gasto para transportar os passageiros de um automóvel. “O restante é utilizado no desempenho energético do próprio veículo e, quanto mais pesado e complexo, mais gases do efeito estufa serão lançados na atmosfera. Trata-se de uma simples questão de consumo, da quantidade de combustível queimado no motor”, acrescenta Cardoso.

* Com reportagem de Thiago André, especial para o iG

    Leia tudo sobre: ecoterrorismosuvland rover

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG