Deslizamento de terra atinge casas em São Paulo

Uma jovem grávida e um menino de 3 anos morreram. 'A dor é imensa', diz pai da criança

Carolina Garcia e Fernanda Simas, iG São Paulo |

Uma jovem de 17 anos, grávida de 5 meses, identificada como Tamires, e um menino de 3 anos morreram após um deslizamento de terra que atingiu dez casas na Avenida Alda, na região de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, divisa com Diadema (Grande São Paulo). De acordo com o Corpo de Bombeiros, outras duas pessoas foram socorridas com ferimentos leves.

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Deslizamento de terra na zona sul de São Paulo

De acordo com o mecânico e morador Fernando de Jesus, de 38 anos, logo após o deslizamento, seu filho Yohan, de 3 anos, foi soterrado e os outros quatro filhos conseguiram escapar. Um deles, Igor, foi levado ao hospital após ser socorrido debaixo de uma laje por moradores. "Os mais velhos contam que estavam brincando e tudo começou a desabar, mas eles saíram correndo a tempo. O menor ficou. Só quero saber o que está acontecendo. Se for preciso vou buscar meu filho sozinho. A dor é imensa. Ajudar a encontrá-lo ameniza essa dor", afirmou antes do corpo ser encontrado sob os escombros da casa.

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Pais de Yohan, 3 anos, exibem a foto do filho, que morreu no deslizamento de terra
Sabrina, de 12 anos, irmã e Yohan, diz que viu o irmão sendo soterrado. "Eu estava no quarto, onde não aconteceu nada, quando ouvi meus irmãos gritando para sair correndo". Angela George Hanna, prima de Yohan, conta que estava trabalhando no momento do acidente e que ao chegar não pode ajudar nas buscas pelo menino. "Eles [bombeiros] não deixaram a gente ajudar porque era perigoso, mas também não procuraram onde meu tio [pai de Yohan] disse que ele estaria."

O corpo de Yohan foi localizado por volta das 16 horas. Três cães farejadores e 60 homens do Corpo de Bombeiros trabalharam no local. "O menino estava dentro de um dos cômodos da casa, mas com a destruição não conseguimos identificar qual", explicou o capitão Valdir Pavão.

As buscas foram encerradas às 16h30 porque não havia nenhuma indicação de outras vítimas. "Vamos permanecer com algumas guarnições, porém os trabalhos de busca, de escavação, foram encerrados. Se tivermos alguma informação de que pode haver outra vítima, retomamos as escavações", afirma o tenente coronel Roberto Rensi, do Corpo de Bombeiros do ABC Paulista.

Ele diz ainda que sete casas foram parcialmente destruídas e três residências destruídas totalmente. "Há muitas dificuldades porque o terreno está instável e há riscos de deslizamentos." Segundo ele, o local estava passando por obras de melhorias. "Uma retroescavadeira deslizou até a parte baixa do terreno, na altura da Rua da Saúde, e foi utilizada nos trabalhos de resgate."

De acordo com o capitão Pavão, a área atingida pelo deslizamento é de 7 mil metros quadrados. "Por isso o volume de terra deve ser muito alto."

A Prefeitura de São Paulo informa, em nota, que no local ocorriam obras de urbanização e contenção de encostas devido ao alto risco de deslizamento. Após o acidente desta quinta-feira, a Defesa Civil interditou outras 50 moradias, sendo que dez famílias terão que sair do local definitivamente.

A Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), responsável pela obra, trabalha na área há cerca de um ano e meio. "Neste período, cerca de 422 famílias foram transferidas por meio do programa de Aluguel Social, que proporciona a locação de um imóvel provisório, até a entrega da moradia definitiva", afirma o secretário Ricardo Pereira Leite. "A preocupação agora é prestar atendimento às vítimas. As famílias serão levadas a abrigos e hotéis da região. A perícia só será feita depois. A avaliação técnica precisa ser feita com calma." As causas do deslizamento ainda serão investigadas.

Propostas para deixar o local

O mecânico Fernando de Jesus afirma que mora no local há um ano e que já recebeu proposta da prefeitura para deixar sua casa. "Só que a indenização que eles ofereceram não dava para comprar barraco fora daqui."

"A gente implorou para não continuar a obra. Eu lutei para isso não acontecer", lamenta o vigilante Alessandro Souza Miranda, 35 anos, outro morador da região que teve a casa atingida pelo deslizamento e só teve tempo de tirar o filho e uma moto antes de ver todo o local coberto por barro. Ele conta que no dia 13 de junho, cerca de 40 pessoas protestaram e paralizaram as obras. "Nesse dia, vieram representantes da Prefeitura e ficou acordado que as obras iriam parar até que as famílias saíssem do local", lembra.

Com indignação Miranda diz que não recebeu proposta alguma para sair de sua casa. "Eles mediram a minha casa, mas não disseram nada de valor. Disseram que a gente iria morar de aluguel antes de ir para um apartamento próprio, mas não disseram quando e quanto isso ia custar."

O comerciante Antônio Martins dos Santos, 50 anos, e sua esposa, Edinalva Cavalcante, 41 anos, só agradeciam por estarem vivos e com as duas filhas, de 14 e 8 anos. "A gente ouviu um barulho e quando saímos pra ver, o barro estava descendo. Só deu tempo de acordar a menina [filha mais velha] e sair", lembra Antônio.

Ele diz indignado que era questão de tempo até alguma coisa acontecer. "A obra está sendo feita de cima para baixo. Falei para o engenheiro da obra e ele garantiu que não haveria problema, disse que não seria perigoso para nós". Quando questionado sobre alguma proposta da Prefeitura para sair do local, o comerciante respondeu que ninguém o procurou. "Nem chegaram a medir minha casa para ver o que ela valia."

Viviane Maria, 21 anos, é outra moradora da região, mas que recebeu uma proposta monetária para deixar o local, há cerca de um ano. "Eles [funcionários da Prefeitura} pagariam R$ 20 mil para irmos para outro local. Achamos uma casa para comprar, mas no valor de R$ 40 mil e eles disseram que esse valor não dava, que o máximo que poderiam dar era R$ 22 mil."

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