Designer agredido tinha 'sede de cultura' e queria conhecer Paris

Henrique de Carvalho Pereira, jovem que sofreu agressão numa livraria em 2009, foi enterrado em Santo André em cortejo silencioso

Marcela Besson, IG São Paulo |

Nem homenagens, nem discursos. Os pais do jovem Henrique de Carvalho Pereira preferiram o silêncio no enterro do corpo do filho de 22 anos, ocorrido na manhã deste sábado, no Cemitério Cristo Redentor, em Santo André.

Henrique morreu na madrugada de sexta-feira, no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde esteve internado por longos dez meses, depois de ter sido agredido na cabeça com um taco de beisebol, em dezembro do ano passado. Na ocasião, o designer recém-formado folheava livros na seção de arte da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, quando foi surpreendido pelo agressor, Alessandre Fernando Aleixo, de 38 anos – que agora está preso em um manicômio judiciário.

“Vou guardar na lembrança o sorriso dele”, disse o irmão de Henrique, Murilo de Carvalho Pereira, de 17 anos. Emocionado, o adolescente relatou que no sábado anterior ao ato violento que deixou o irmão em coma, os dois foram juntos assistir ao blockbuster "Avatar", no cinema: “Era um dos programas preferidos dele”.

Filho mais velho do supervisor de concretagem Elifas Pereira Filho e da professora Silvania de Carvalho Pereira, Henrique também era apaixonado por desenho. Na infância vivida em São Paulo, já arriscava trabalhos de gente grande. “Enquanto eu fazia biscuits, ele sentava ao meu lado e criava ímãs de geladeira, montava os próprios brinquedos e desenhava as histórias que a gente contava para ele”, recordou a avó materna, Maria Rosa de Carvalho.

Pois o hobby acabou virando profissão. Nos últimos meses de 2009, Henrique quase não tinha tempo para se divertir. Estava dedicado demais aos estudos e passava horas no computador a fim de terminar os últimos trabalhos do curso de design que fazia na Uniban, na região de Santo André, onde morava com a família há quatro anos em um condomínio de classe média.

Ao longo dos estudos, Henrique trabalhou em agências, emplacou ilustrações em revistas e ainda teve a sua obra “Vaca de Sampa” selecionada para a Cow Parade 2010. Foi com o dinheiro desses projetos, que Henrique pagou a própria faculdade.

A inspiração para seus traços vinha quase sempre da literatura fantástica, da qual era leitor assíduo. Tinha fixação pelos contos da série Harry Potter, a ponto de encomendar os livros antes mesmo de cada nova edição chegar às bancas. “Brincávamos que as iniciais do nome dele, HP, não eram de Henrique Pereira, mas de Harry Potter”, contou o primo Diego Lourenço, 23 anos.

Henrique apresentou o trabalho de conclusão de curso no dia 12 de dezembro. Ao final, foi elogiado pelos professores por seu bom desempenho. Ele e a família foram comemorar o feito em uma pizzaria. Mas a alegria durou pouco. Henrique foi agredido e internado na UTI do Hospital das Clínicas dias depois e não pode participar da colação de grau da turma.

Ele queria conhecer Paris

Henrique era um jovem reservado. Preferia ficar em casa, com a família, a ir para a balada com os amigos. Gostava mesmo era de ir ao cinema, ao museu ou à livraria. “Tinha sede de cultura. Queria conhecer Paris, cidade que era uma referência de arte para ele”, conta o primo Diego.

No dia anterior à agressão, 20 de dezembro, a família reunida para o tradicional almoço de domingo combinava os preparativos para a festa de Natal. “O Henrique estava alegre, filmando os tios e primos, confabulando algumas brincadeiras. Tínhamos combinado de ir à Livraria Cultura no domingo, mas desistimos. Insistente, ele acabou indo no dia seguinte, quando foi atacado”, disse o primo Diego.

Os dois estudaram juntos durante anos no mesmo colégio. Segundo Diego, Henrique atraía amigos naturalmente e com muita facilidade porque sempre ajudava o pessoal com os trabalhos da escola. Não à toa, seu apelido entre os colegas era mestre. “Todos confiavam nas ideias e nas habilidades dele”.

Se ele tinha sonhos? Muitos. Para não se esquecer deles, Henrique pregava atrás da porta do quarto inúmeros papéis coloridos, fotos e desenhos. As “metas”, como ele costumava chamá-las, reuniam desde nomes de empresas em que gostaria de trabalhar e cidades que pretendia visitar até desejos mais corriqueiros, típicos da idade. Um deles, o de aparecer na televisão, aconteceu. Pena que tenha sido pela tragédia que o tirou a vida.

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