Desde os 5 anos, a realidade da violência nas ruas

Flanelinha, michê, batedor de carteiras, ladrão de carro, jovem - morador de rua - nunca trabalhou e nem estudou

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Pedro Paulo Soares tem 17 anos e vive nas ruas desde os cinco. Na época a mãe “alugou” Pedro Paulo e a irmã um ano mais nova para uma mulher que os levava todos os dias para o centro, onde pediam esmolas nos semáforos. Embora tenha uma cama na casa da mãe, prefere ficar nas ruas fumando crack.

Certo dia, quando mendigava na esquina da rua da Consolação com a avenida São Luís, Pedro Paulo foi convencido a entrar no carro de um homem em troca de R$ 20. Foi levado para uma rua escura e abusado sexualmente. Tinha 11 anos. O homem, um advogado, virou seu amante. A relação durou três anos até que Pedro Paulo assaltou o advogado. “O cara vacilou e eu fiz a limpa mesmo. Levei até o anel de formatura dele”, gosta de lembrar.

Foi flanelinha, michê no Parque Trianon, lavou pára-brisas, bateu carteiras, furtou lojas e carros, nunca trabalhou nem estudou. A irmã, ex-companheira de semáforo, virou prostituta depois de ser violentada aos 12 anos por um namorado da mãe. Ela está contaminada pelo HIV. Pedro Paulo é analfabeto e nunca fez o exame da Aids. De vez em quando vai para a casa da mãe, no Cingapura da Marginal Tietê, mas não consegue ficar muito tempo. “A mãe virou crente e fica querendo me levar para a Igreja dela. Só fala de Deus, diabo essas coisas”, reclama.

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Até três anos atrás Pedro Paulo era quase invisível. Ele vivia na região chamada Cracolândia, perto da Estação da Luz, o bairro dos consumidores de crack. Quando a polícia decidiu “limpar” a região para viabilizar o projeto da prefeitura de recuperação da área, migrou para a região de Santa Cecília, um bairro residencial e comercial de classe média. “A polícia chegou e disse que era pra todo mundo sair porque o prefeito queria limpar a área. Quem ficasse ia morrer. Então a gente veio para cá”, disse.

Em Santa Cecília a perseguição policial diminuiu, mas a convivência com os comerciantes e moradores é turbulenta. “Vira e mexe aparecem uns caras para dar porrada na gente. Eles falam que são seguranças da área”.

Questionado sobre seus planos e ambições, Pedro Paulo respondeu: “se continuar do jeito que tá não tem problema. Só não quero ir para a Igreja nem para a cadeia. Sou bicho solto”.

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