De R$ 1,69 para R$ 2,49: 'a ordem veio de cima', diz gerente de posto em São Paulo

Com greve, a falta de combustíveis motivou reajustes abusivos na capital. Prática é ilegal e multa pode variar entre R$ 400 a R$ 6 milhões, diz Procon

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Encher o tanque com etanol ou gasolina passou a ser um desafio financeiro para muitos motoristas paulistanos após a paralisação dos transportadores de combustíveis. A reportagem do iG percorreu alguns bairros de São Paulo e encontrou um posto que desde a manhã de hoje reajustou o preço do etanol de R$ 1,69 para R$ 2,49, um aumento de R$ 0,80. "A ordem veio de cima", explicou o gerente após trocar os números do painel de preços.

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Carolina Garcia / iG
Preço do etanol teve reajuste nesta tarde. No período da manhã custava R$ 1,69, no centro de SP

Localizado no cruzamento das ruas Rui Barbosa com Manoel Dutra, na Bela Vista, centro da capital, o posto da BR já apresentava falta de combustíveis. O gerente ainda informou que, por volta das 14h, o posto contava com 3 mil litros de gasolina comum, 7 mil de gasolina aditivada e 4 mil de etanol - quantias consideradas muito baixas. "Talvez seja por isso que ele [o dono do posto] tenha decidido subir tanto o preço. Se já que é para acabar que lucre o mais possível", disse o gerente deixando claro que não concordava com a situação.

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Após tentativas frustradas de encontrar combustível, o preço passou a ser um problema secundário para muitos motoristas. Foi o caso do empresário Fábio dos Santos, de 31 anos, que confessou não ter notado o aumento do preço do etanol. "Apenas vi que outros carros estavam abastecendo e logo encostei. Não notei a diferença do preço. Só sei que preciso chegar ao aeroporto e eles estão se aproveitando desse nosso desespero", disse.

Em outras regiões da capital, como as zonas sul e oeste, há filas em postos e muito trabalho para os frentistas. No ramo há 7 anos, a frentista Soraia Rodrigues, de 37 anos, contou que o movimento em seu posto na avenida Santo Amaro, zona sul, cresceu pelo menos três vezes.

Carolina Garcia / iG
Frentista Soraia Rodrigues disse que fluxo no posto é intenso desde o início desta terça

"O pessoal está assustado e antes do bom dia, escuto: 'Tem gasolina'? Algumas famílias vieram em carros diferentes para garantir que todos os veículos tenham gasolina".

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Na Marginal Pinheiros, todos os postos apresentavam fluxo intenso e ainda tinham combustíveis, mesmo que em quantidades mais baixas. Todos os ouvidos pelo iG informaram que até hoje o abastecimento estaria garantido. "Não vejo o dia de amanhã com tanta tranquilidade. Se o fluxo de vendas continuar, não terei gasolina", disse o gerente Fabiano Castanho, de 27 anos.

Alguns motoristas afirmaram que tem sido mais difícil encontrar postos abertos na região do Morumbi e dos Jardins, ambos na zona sul. O empresário Edson Marques, de 50 anos, tentava há 1 hora abastecer o seu carro. "Fui em três postos e encontrei correntes ou frentistas sinalizando a falta de gasolina. Como encontrei aqui, decidi logo encher o tanque e garantir os meus próximos dias", explicou.

Direitos do consumidor

A Fundação Procon-SP esclarece que de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, artigo 39, inciso X, é considerada como prática abusiva “elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços”. Segundo ao órgão, a definição cabe aos postos que aumentaram o valor dos combustíveis cobrado do consumidor no segundo dia da greve dos transportadores do produto.

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O Procon informa ainda que é o consumidor deve guardar a nota fiscal e denunciar através do telefone 151. Se confirmada a conduta, o posto será multado e o caso encaminhado ao Ministério Público, para análise da questão criminal. O valor da multa varia entre R$ 400 a R$ 6 milhões. 

Helvio Romero/AE
Centro de Distribuição de Combustiveis da Petrobrás, em Guarulhos(SP), tem escolta da PM

O Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), entidade que representa todos os postos de gasolina na capital, afirmou em nota ter conhecimento dos aumentos e que eles estariam "muito acima do que seria normal e razoável". Consta no texto que a prática é considerada crime contra a ordem econômica e as relações de consumo. "O momento exige cautela e bom senso de todos", diz nota.

A entidade representa todos os cerca de 2.000 postos de gasolina situados na cidade de São Paulo. Em balanço inical, pelo menos 121 postos relataram que não possuem mais álcool, gasolina ou diesel. Duzentos e treze postos relataram que estão com pouco volume de um dos três combustíveis.

Violência

Na manhã desta terça-feira, alguns motoristas de caminhões-tanques tentaram deixar a base uma distribuidora de combustíveis em São Caetano, no ABC, e teriam sido impedidos por manifestantes. Os veículos estavam carregados com etanol e tentavam realizar abastecimentos quando foram interceptados.

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Segundo o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), além de vidros quebrados e chaves dos veículos roubadas, um motorista chegou a ser agredido na zona sul da capital paulista quando tentava descarregar nesta madrugada. O sindicato chegou a pedir escolta da Polícia Militar após o fato.

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