De fila de cadáveres a dois anos sem chacina

Jardim Ângela, distrito no extremo sul da cidade de São Paulo, mudou a sua história com polícia eficiente e trabalho da comunidade

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Mensalmente, pelo menos três pessoas são assassinadas no Jardim Ângela, distrito da zona sul de São Paulo que concentra cerca de 360 mil habitantes. Este índice, exorbitante para alguns bairros de São Paulo, ali é resultado de mais de uma década de trabalho da polícia e da comunidade no combate à violência. “Nos Jardins quando tem homicídio é destaque. Aqui, três está razoável”, afirma o delegado titular do 100º DP, Ulisses Augusto Pascolatti. 

Há quem duvide, mas a situação já foi bem pior: em 1996, o bairro foi considerado o mais violento do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU), com uma média de 22 homicídios por mês. Se somadas as mortes no Ângela, como o local é conhecido pelos moradores, com as cometidas no Jardim São Luiz e no Capão Redondo, na zona sul da capital paulista, chegava-se a mais de dois assassinatos por dia. “Era terrível. A região era considerada o triângulo das bermudas”, afirma. 

Fila de cadáveres 

Nas madrugadas dos finais de semana, no ano de 2000, o delegado lembra que, ao chegar ao Distrito Policial do Capão Redondo, precisava “pular uma fila de cadáveres”. À noite, poucos se arriscavam a andar pelas ruas.

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Crianças brincam no Jardim Ângela. Área não tem muita opção para lazer
Nem mesmo viaturas policiais podiam ficar sozinhas em locais de crime. “Precisávamos de pelo menos três para tomar conta da área até a chegada da perícia, porque tivemos casos de viaturas depenadas ou roubadas”, conta Pascolatti. 

Hoje, de acordo com dados do Infocrim, sistema da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP- SP), divulgados pelo jornal O Estado de S.Paulo, a zona sul pode ser considerada mais segura que o centro da capital paulista. Pelo menos no que diz respeito a assassinatos. Em 2009, registrou 86 homicídios, contra 108 do centro. 

Dois anos sem chacina

Segundo o delegado, a região ficou dois anos sem ter chacinas, até o ciclo ser quebrado pelo assassinato de quatro rapazes no início de 2010. “Foi um caso isolado. O número de homicídios múltiplos caiu muito aqui”. A polícia acredita que as mortes estejam envolvidas ao tráfico de drogas.

A queda dos homicídios na zona sul reflete, de forma acentuada, o verificado em toda a capital paulista. Em 1999, conforme a SSP, 5.418 pessoas foram mortas. Em 2009, foram 1.235, uma queda de 77,2%. 

De acordo com o delegado responsável pelo Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), Marco Antônio Desgualdo, um dos motivos que contribuíram para essa redução foi o índice de esclarecimentos dos crimes. “Chegamos a 97%. Mas não basta só esclarecer, tem que prender”, afirma. Desde 2001, quando foi colocado em prática o plano de combate a homicídios, foi criada uma equipe específica para investigar os crimes. Uma das metas estabelecidas como prioridade é a prisão de autores reincidentes de assassinatos. “O bandido já não olha com aquele olhar arrogante e sorriso irônico, como se dissesse para a testemunha: ‘ah, você sabe que fui eu? Vai falar para ver o que te acontece’. Ele sabe que vai acabar preso”.

No Jardim Ângela, a queda, segundo as pessoas ouvidas pelo iG, se deu também em razão da instalação, em 1999, do 37º Batalhão da Polícia Militar no local e de bases de policiamento comunitário. “Temos 10 viaturas rondando a área, antes, eram 3 ou 4. Os policiais participam também do dia-a-dia da população e vão a fóruns de discussões”, afirma Pascolatti.

Especialistas destacam ainda o Estatuto do Desarmamento, criado em dezembro de 2003. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, divulgado em março deste ano, indica que, entre 2001 e 2007, foram apreendidas 228.813 armas no Estado de São Paulo e, com isso, 13 mil pessoas teriam deixado de serem mortas. O trabalho defende que, a cada 18 armas apreendidas, uma vida foi poupada. “Quanto menos armas, menos mortos. São Paulo teve uma política forte de retirada de armas de circulação que se traduziu nos números”, considera Melina Risso, diretora do Instituto Sou da Paz. 

"Miséria assustadora"

Se em todos os locais a presença do poder público é importante para combater a violência, no Jardim Ângela, especificamente, ela se faz ainda mais necessária. “A miséria aqui é assustadora. O Jardim Ângela foi esquecido pelo mundo”, afirma Pascolatti. “A renda média das famílias no ano passado era de R$ 510, este ano baixou para R$ 480”. 

Ali, não há teatro, nem clube. A única biblioteca pública da região foi inaugurada em 2008 pela Polícia Militar. Quadras esportivas são raras. “O que temos são só algumas escolas que deixam suas quadras abertas aos finais de semana para a população”, afirma Sérgio Bosco, diretor da Sociedade Santos Mártires, que presta serviços sociais ao bairro. 

Na ausência de grandes investimentos públicos, ONGs, igrejas e moradores tiveram papel fundamental para a queda dos assassinatos registrada na região. Em 1996, foi criado o Fórum em Defesa da Vida e, no mesmo ano, aconteceu a 1ª Caminhada pela Vida e pela Paz, que reuniu cerca de 5 mil pessoas, e até hoje é realizada todos os anos no Dia de Finados. 

O idealizador do projeto foi o padre irlandês Jaimes Crowe, da paróquia Santos Mártires, que deu origem à sociedade de mesmo nome, em 1988. O primeiro serviço oferecido pela entidade foi uma creche para que as mães pudessem deixar os filhos enquanto fossem trabalhar. Hoje, a sociedade possui 320 funcionários, além de 60 voluntários, e presta 14 serviços à comunidade. Todos por meio de convênios com a Prefeitura e com secretarias. 

Um dos grandes problemas da região, conforme o delegado Pascolatti, é a violência contra a mulher. “É um terror, a mulher apanha, apanha, mas não tem para onde ir. Você vai tomar providência e ela não quer. Já cheguei a autuar marido em flagrante por agressão e estipulei mil reais de fiança. No dia seguinte, a própria mulher veio pagar para ele sair”, lamenta. Outra história que lembra é recente, quando uma mulher foi procurá-lo para denunciar que o marido havia estuprado a filha. “Falei: vou atuar e ele está preso. E ela, apreensiva: ‘o senhor vai deixar preso?’. ‘Vou’. ‘E amanhã, quem vai pôr arroz na mesa pra gente comer?’. A realidade aqui é essa”, diz. 

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Maioria dos moradores do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, mora em casa humildes

Neste campo, o trabalho da Santos Mártires é fundamental. Entre os projetos de destaque da entidade, está a Casa de Sofia, que atende mulheres em situação de violência doméstica e sexual, e o CAMP, com capacidade para abrigar até 20 mulheres – e os filhos – com risco de morte. 

Segundo Sérgio Bosco, apesar de ainda fazer parte do cotidiano das pessoas, a violência no Jardim Ângela não se compara à de uma década. Há locais, onde o tráfico é mais forte, em que as pessoas são “proibidas” de entrar após determinado horário, mas ainda assim, hoje, os moradores voltaram a fazer coisas simples, que seriam impensáveis. “Não podia ter uma festa junina na rua porque havia o temor de que gangues rivais se encontrassem e começassem um tiroteio. Hoje, a festa da igreja vai até altas horas sem nenhum problema. Às vezes, saio daqui 23h e saio tranquilo”.

Sinal de alerta

Ele, porém, ressalta que a ação deve ser constante e incansável. “Enquanto estiver morrendo uma pessoa por violência temos que trabalhar”. E o atual momento é de atenção. Após dez anos de queda ininterrupta dos índices, o 1º trimestre de 2010 registrou aumento de 12% nos assassinatos em comparação com o mesmo período de 2009. Nos três primeiros meses deste ano, ocorreram 352 homicídios, contra 315 em 2009.

O delegado Desgualdo afirma que a “oscilação da estatística já era previsível”. “Mas quando se pensa que saímos de 3 mil homicídios por ano e hoje estamos com uma taxa de 8,2 por 100 mil habitantes foi um grande progresso”.

Para a diretora do Instituto Sou da Paz, o sinal é de alerta. “É preciso ver quais políticas estavam funcionando e se alguma delas deixou de ser feita”, afirma, acrescentando que “a partir de um patamar em que a taxa está pequena é preciso um esforço muito maior para continuar reduzindo nas mesmas proporções”.

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