"Coloquem-se no papel das ví­timas", diz promotora aos jurados

Daniela Hashimoto reformou em sua tese a intenção de Lindemberg em matar Eloá. A mãe da vítima chorou na plateia

Carolina Garcia, iG São Paulo |

A promotora do Ministério Público de São Paulo Daniela Hashimoto, responsável pela acusação de Lindemberg Alves, acusado de matar a ex-namorada Eloá Pimentel, pediu para que os jurados se coloquem no lugar dos jovens que foram feitos reféns em Santo André, em outudro de 2008. "Coloquem-se no papel das vítimas", disse Daniela Hashimoto aos jurados. 

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Em sua tese, a promotora focou seu discurso em três pontos. O primeiro é que Lindemberg teve tempo suficiente para se entregar após a explosão, mas decidiu atirar contra Eloá e Nayara e refugiar-se. No segundo ponto ela reforçou o depoimento de Nayara , contestado pela defesa, de que era possível que Lindemberg poderia mudar móveis e amarrar as vítimas com a arma em mãos. No terceiro ponto, ela reforçou a intenção de Lindemberg de matar.

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Daniela Hashimoto durante sessão do julgamento de Lindemberg
Para mostrar que Lindemberg teria tempo para se entregar, a promotora mostrou um vídeo e fez uma dramatização da cena após a explosão. Ela demonstrou que o primeiro disparo ocorreu 3,5 segundos depois da explosão da porta. O segundo demorou mais 0,4 segundo, o terceiro mais 2 segundos e o quarto mais 2 segundos, que teria “picoteado”. “Com a explosão ele teria tempo de se entregar, mas ao contrário disso, ele decidiu se refugiar e atirar contra as meninas”, afirmou.

Daniela Hashimoto rebateu o depoimento de Lindemberg que disse que atirou em Eloá "sem pensar", quando ela teria levantado de repente após a explosão . Para a promotora, Eloá não teve tempo de tentar se levantar e foi encontrada deitada, encostada na almofada que já estava apoiada. Segundo ela, nessa almofada foram encontrados sangue e vestígios de massa encefálica. “Ela até poderia ter se assustado, mas não teria levantado”, disse.

Ao fazer essa reconstituição da cena, a promotora provocou choro da mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel, que acompanha o julgamento da plateia. Lindemberg acompanhou de cabeça baixa.

Daniela Hashimoto reforçou a tese de intenção de Lindemberg de matar a ex-namorada. “Ele tinha sim a intenção de matá-la. É muito conveniente ele falar que ama Eloá agora. Mas naquele dia, a Eloá nada mais era que um objeto”.

Segundo a promotora, o acusado se mostrou orgulhoso com a atenção que tinha conseguido com o sequestro. Para ela, ele teve várias oportunidades de se entregar, mas não fez isso. ”É óbvio que ele não iria se entregar. Ele teve todas as garantias para isso. O Estado sempre tentou garantir a integridade e a defesa dele”, afirmou.

Daniela rebateu também o depoimento de Lindemberg de que os dois estavam namoravam escondido . “Todos os depoimentos dizem isso (que não namoravam mais). E isso confirma o susto de que Eloá sentiu ao vê-lo. A versão que ele disse que foi para namorar escondidinho é mentirosa. Você realmente puxa uma arma para acalmar uma pessoa? Será que esse rapaz é um coitadinho sincero e bonzinho?”, concluiu.

Fila do público

Carolina Garcia
Sandra Domingues e Lucilene Isabel na fila para acompanhar o julgamento
Alguns populares e de movimentos de combate a violência chegaram a dormir na porta do fórum de Santo André para garantir lugar no plenário. Esse foi o caso de Sandra Domingues, de 44 anos, e Lucilene Isabel, de 49. Elas acompanharam os três dias de julgamento e consideraram que, por estar próximo do fim, aumenta a curiosidade e a movimentação de populares.

"Queria garantir meu lugar e acompanhar o desfecho dessa história. Me surpreendi com a atuação de Lindemberg ontem. Ele foi um ator", julgou Simone, integrante da União em Defesa das Vítimas de Violência (UDVV). Ana Cristina, mãe de Eloá, faz parte da organização.

Por volta das 7h15, a fila para o público tinha 60 pessoas - número maior se comparado aos outros dias no mesmo horário. Cartazes foram colocados pelos manifestantes nas grades do fórum. Frases de ataque a Lindemberg e como "Ana Cristina, estamos com você" e "Eloá, descanse em paz", estão nos cartazes.

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Cartazes colocados na grade em frente ao fórum de Santo André, nesta quinta-feira

Outros dias

O júri popular do crime contra a jovem de 15 anos, ocorrido em outubro de 2008, começou nesta segunda-feira. No primeiro dia, testemunhas que participaram do cárcere de mais de cem horas foram interrogados . O segundo dia foi marcado pelos depoimentos dos irmãos de Eloá e por discussões e ameaças da defesa do réu . O dia mais esperado do júri foi esta quarta-feira, quando o réu falou pela primeira vez sobre o caso . Em outras oportunidades que teve de dar a sua versão, em depoimento para delegados e na fase de instrução do processo, ele tinha ficado calado.

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