¿Clamor público faz priorizarmos a busca aos foragidos famosos¿

Novo delegado da Divisão de Capturas da Polícia Civil de São Paulo afirma que prender Mizael Bispo e Roger Abdelmassih é dar resposta à sociedade

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Milanesi assume Divisão de Capturas com desafio de reorganizar equipe e melhorar produtividade
A polícia de São Paulo tem hoje cerca de 152 mil mandados de prisão para cumprir. Destes, aproximadamente 134 mil foram expedidos no próprio Estado e, o restante enviado de outras partes do País por investigadores considerarem que o foragido possa estar na região.

Neste montante de milhares de procurados – alguns há mais de 20 anos – cinco nomes se destacam e devem receber atenção especial do novo delegado da Divisão de Capturas da Polícia Civil, Waldomiro Milanesi, que assumiu no último dia 20. São eles: Roger Abdelmassih (acusado de crimes sexuais contra ex-pacientes), Mizael Bispo de Souza e Evandro Bezerra Silva (acusados pela morte da advogada Mércia Nakashima), Jonathan Lauton (acusado de agredir homossexuais na avenida Paulista) e o pagodeiro Evandro Correia (acusado de matar a ex-mulher e tentar matar o filho, por eles caírem do 3º andar de um prédio em Guarulhos). Os advogados do acusados ouvidos pela reportagem afirmam que seus clientes não têm qualquer intenção de se entregar . A maioria considera a prisão arbitrária e aguarda o julgamento de recursos.

“Tem importância prender esses cinco indivíduos justamente para mostrar à população que o poder público não participa da conduta dessas pessoas. O clamor público faz priorizarmos esses casos”, afirma Milanesi, em entrevista ao iG , da sala em que hoje ocupa no 7º andar do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), no centro da capital.

Segundo ele, é preciso acabar com a ideia de impunidade. “Acho válido priorizar cinco, dez ou 15 casos para dar resposta à população: não cometa crime que você vai preso”. Para isso, porém, destaca que é preciso “informatizar, desburocratizar e agilizar” o processo. 

130 mil por ano

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Em pastas organizadas por ordem alfabética estão todos os cerca de 152 mil mandados de prisão em aberto. Por ano, chegam cerca de 130 mil

Atualmente, a Divisão de Capturas tem, além dos funcionários administrativos, apenas 12 policiais para direcionar e cumprir de 300 a 500 mandados novos por dia. Por ano, a média é de cerca de 130 mil ordens, sendo que, segundo o delegado, entre 70 e 90 mil são cumpridas. Dados de uma planilha a que o iG teve acesso mostram, por exemplo, que em março de 2010 foram cumpridos 120 mandados no Estado; em abril, 75. “Acho até que pela equipe que se tem, se faz muito”, considera.

Ainda assim, o trabalho é insuficiente e as ordens se acumulam em caixas de papelão, organizadas por ordem alfabética. Em uma mesa, uma jovem checa papel por papel para saber se não há uma contra ordem (que revogue a prisão) ou se, eventualmente, o acusado já foi preso em outra cidade.

Em uma prateleira afastada das demais estão ordens anteriores a 2010. Algumas são da década de 80, como a de um homem acusado de matar um travesti em 1986 e com mandado de prisão para ser cumprido desde 1988. Daqui a 4 anos, o crime prescreverá.

“Temos processos de fóruns que já nem existem mais, foram unificados. Há mandado para pessoa com nome falso ou até prenome, como ‘Marquinhos’. Temos de ver se a pessoa não morreu, se o mandado teve alteração... É um limbo que precisamos identificar e consertar”, diz.

Além dos entraves da Justiça, Milanesi aponta também que, com o passar do tempo, o procurado sofre mudanças físicas e isso também pesa contra a captura. “É importante a rapidez para fechar o cerco, divulgar para os policiais de divisa e evitar que a pessoa vá embora do País.”

Plano de ação

Entre as primeiras ações de Milanesi à frente da Divisão de Capturas está uma solicitação à Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo, a Prodesp, de um levantamento para saber pelo que são acusadas as pessoas procuradas. Hoje, sabe-se somente que há na capital paulista 23 mil mandados criminais e sete mil civis, referentes à pensão alimentícia.

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Mandado de prisão contra homem acusado de matar travesti data de 1988
Contudo, não é possível determinar quantos ali são acusados de assassinato, tráfico de drogas ou estupro, por exemplo. “Todas as ordens são importantes, mas, com o estudo, poderemos identificar e priorizar as pessoas com grau de periculosidade maior. Queira ou não queira, são aqueles que estão reiterando no crime: assaltantes, homicidas”, afirma.

Outra mudança prevista é a informatização de todos os mandados de prisão. Milanesi explica que quando um policial aborda um suspeito e acessa sua ficha aparece apenas que ele é procurado e por qual motivo. Mas, para saber se o mandado ainda é válido, é preciso ligar no plantão 24h que funciona na Divisão de Capturas para que um funcionário procure nas pastas e cheque a informação no papel. “O policial só vai olhar no sistema e ver tudo ali, não precisará ligar aqui para mandarmos por fax a cópia do mandado”, ressalta ele sobre a economia de tempo que se teria com a digitalização.

Ele explica que as mudanças estão dentro do previsto e não deve haver recurso extraordinário para isso. Além das melhorias de sistema e compra de novos equipamentos, Milanesi afirma que policiais já estão sendo transferidos de outras seções para a de Capturas. Ainda em fevereiro, espera que terá, ao invés de 12, pelo menos 30 pessoas.

Assim, acredita, será possível dividir melhor a equipe e dinamizar os trabalhos. “Policiais com perfis operacionais, até mais jovens, com aprimoramento de academia da policia, estão vindo para cá, para ações de perigo”. Segundo ele, é preciso saber lidar com os diferentes tipos de prisão. “O marginal quer fugir e confrontar. Já o cidadão comum (caso de pensão alimentícia) pode se sentir psicologicamente ofendido e, em um descuido, pular de um carro, do apartamento. Para eles, ser preso é muito constrangedor.”

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Policial Francisco Morais mostra pilha de mandados
Ajuda da população

O delegado ressalta que, apesar das ordens estarem concentradas em uma divisão, é “obrigação de todos os policiais investigarem”. “Não cabe só a essa divisão a captura. Uma comarca do interior expede ordem de prisão e manda para cá, para a gente inserir no sistema, mas vai para toda a polícia”, diz. “Todo cidadão que tenha conhecimento de onde está uma pessoa foragida também deve ligar para o 190, comunicar um guarda, um policial para que se faça o cumprimento”, enfatiza.

Milanesi já atuou em delegacias do interior do Estado, comandou a Divisão de Investigações de Crimes contra o Patrimônio, do Deic (em 2009), e trabalhou na assessoria da Secretaria de Segurança Pública. Aos 47 anos, sendo 22 deles como delegado, confessa ter se surpreendido com o alto número de foragidos no Estado. “Se falassem que era 10 mil eu já achava muito”, diz ele, que acrescenta também que isso é sinal de que houve trabalho da polícia. “Denúncia, Boletim de Ocorrência, inquérito, processo e decretação da prisão”.

Até março, afirma que já deve conseguir reorganizar o trabalho, “com policiais designados e cruzamento de dados”. “Podemos ter falhas no processo de trabalho e capturas, mas não impunidade”.

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