¿Cada depoimento de Mizael foi uma versão¿, diz delegado

Delegado que investigou o caso Mércia reafirmou que Mizael sempre mudava sues depoimentos e que o vigia deu detalhes sobre o crime

Lectícia Maggi, iG São Paulo |

Durante quase 3 horas, o delegado do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa, Antonio Olim, prestou depoimento no Fórum de Guarulhos, na Grande São Paulo, sobre o caso Mércia Nakashima e disse que “investigou todas as denúncias que chegaram” e que não ficou concentrado somente em Mizael Bispo de Souza, acusado de ter cometido o crime no dia 23.

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Antonio Olim em frente ao Fórum de Guarulhos
“No começo pensamos em sequestro e fomos até um suposto cativeiro, mas não se confirmou”, disse ele, que afirmou também ter investigado denúncias contra pessoas identificadas como “Nêgo Marcio” e “Vampirinho”.

De acordo com Olim, Mizael, ex-namorado da vítima, entrou em contradição nos diversos depoimentos prestados. “A primeira vez falou de uma garota de programa, mas não lembrava a cor do cabelo. Disse que é loira e depois que é morena. (...) A primeira vez disse que deu R$ 20 para a moça e ela foi embora. Já na última disse que era casada e que poderia se prejudicar se prestasse depoimento”, afirmou. O delegado também falou sobre as contradições na relação de Mizael com o vigia Evandro Bezerra da Silva, acusado de ter participado do crime. “Só o conheceu no terceiro depoimento. Daí virou sócio”.

Olim afirmou que também foram investigadas denúncias de que Mizael estaria ameaçando testemunhas do crime e que muitas pessoas de Nazaré Paulista estão com medo de falar. “Teve gente que se mudou e crianças que saíram da escola. Mizael também arrumou confusão com o pessoal que fazia o rastreamento do carro”.

O depoimento do delegado foi marcado por discussões entre os advogados de defesa com os membros da acusação, a testemunha e o promotor do Ministério Público. A defesa de Mizael concentrou suas perguntas nas possíveis contradições entre as informações das antenas de celular dos acusados e os dados do rastreador do veículo de Mizael. Já o advogado de Evandro, José Carlos da Silva, levantou a hipótese de que o vigia foi torturado quando prestou depoimentos em Sergipe.

Ivon Ribeiro, advogado de Mizael, insistiu que para sair da represa e chegar a Guarulhos seriam necessários 50 minutos. Já Olim defendeu que o trajeto é feito em no máximo 30 minutos. Ainda mais para alguém que conhecia o local como Mizael. Diante das diversas perguntas sobre os nomes de ruas de Guarulhos, o promotor Rodrigo Merli Antunes se manifestou. “O advogado está induzindo a testemunha a erro”. Em outro momento também de exaltação, Antunes sugeriu ironicamente: “Vamos dispensar o Olim e colocar o Ivon como testemunha”.

O juiz Leandro Bittencourt Cano precisou intervir diversas vezes e ressaltar que ali não era “palco para debate”. Ele também interrompeu perguntas e numa delas, feita pela defesa de Evandro, elevou o tom de voz: “Para o senhor não está claro, mas para mim está mais do que claro. Se quiser reproduzo”.

O advogado de Evandro questionou por mais de uma vez sobre os depoimentos prestados pelo vigia em Sergipe e disse que o primeiro, em que o réu nega qualquer participação, é o verdadeiro.

Foi no segundo depoimento colhido por Olim que Evandro teria dado detalhes sobre o que fez no dia da morte da advogada e confirmado que foi buscar Mizael na represa. “Para os policiais de Sergipe, que não sabiam de nada, ele negou. Quando cheguei e mostrei o que sabia, ele confirmou”.

De acordo com Olim, o vigia teria tentado convencer Mizael a desistir do crime. “Ele fala para ele ‘deixa pra lá, não precisa fazer isso’. Mas quando entra no carro, Mizael disse ‘Já era, já era. Vamos embora, vamos embora’”, afirmou Olim, que nega qualquer tipo de tortura, física ou psicológica contra Evandro. “Ele ficou na cadeia e veio a mim para ser ouvido. Não reclamou de nada e não vi nenhum machucado. Está tudo filmado. Só depois que falou com o senhor (apontou para o advogado) que disse ter sido torturado”.

Outro ponto que ele destaca para provar que o depoimento foi dado espontaneamente é o fato de, segundo ele, Evandro contar ter visto uma viatura da PM quando deixava a represa de Nazaré. “Eu não sabia dessa viatura. Nem perguntei. Mas depois comprovei que realmente estava lá”.

Outros depoimentos

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Mizael (e) chega ao lado de um dos seus advogados para acompanhar os depoimentos nesta terça-feira
Rapidamente, outras testemunhas de defesa de Mizael e Evandro também foram ouvidas nesta terça-feira. Pela defesa do vigia, foram ouvidos Gentil José de Oliveira, funcionário do posto onde Evandro era segurança, Alfeu Cardoso dos Santos, segurança do posto, e Luiz Araújo Sobrinho, feirante. Os dois primeiros afirmaram que viram o Evandro no dia 23 trabalhando no posto. Quatro testemunhas foram dispensadas: Emerson Silva de Souza, Marcos José dos Santos, Enaldo Bezerra Silva e Maria Izabel Ferreira Aleixo.

Em defesa de Mizael, prestaram depoimento Patricia Santos Damaceno, amiga do casal, Carlos Floriano Filho, advogado e amigo de Mizael, e Pedro Cantuária, funcionário de imobiliária e padrinho do primeiro casamento do acusado. "Nunca ouvi falar nada de mal do Mizael”, afirmou Pedro, que disse que o acusado e a vítima tinham um excelente relacionamento. “Nunca via nada de agressão. Andavam abraçados na rua”.

Todos os depoimentos foram rápidos - duraram entre 5 e 15 minutos - e no sentido de mostrar que o réu é uma pessoa querida, respeitada e popular. Ainda depuseram Marcos Rogério Manteiga, amigo de faculdade de Mizael, e Matheus Ferreira Loureiro dos Santos, também amigo de faculdade de Mizael, que declarou: “Ele foi eleito duas vezes representantes de classe por votação”.

Fim dos depoimentos

Ao término do segundo dia de audiência, o promotor Antunes considerou que, ao contrário do objetivo pelo qual foram trazidas ao fórum, as testemunha de defesa foram desfavoráveis aos acusados. “Diria que ouvimos 11 testemunhas de acusação, principalmente o Olim”.

Sobre o confuso depoimento da ex-mulher de Mizael, Nilza Porto Souza, ele disse que ela foi ao fórum a pedido do ex-marido. “Ela foi desmascarada. Trazida aqui só para se retratar com o ex-marido, com quem tem uma filha e depende financeiramente”, afirmou. Nilza, além de negar o B.O., no qual aparece como testemunha, primeiramente disse ao juiz que o casamento acabou por “falta de amor”. Depois afirmou que procurou a delegacia para reclamar do ex-marido porque não aceitava o término do relacionamento.

Nesta quarta-feira ainda estão previstos os depoimentos de 3 testemunhas: Wilson Aparecido da Silva Ferreira, Leonardo de Franca, o perito Renato Pattoli. Depois de ouvir essas três testemunhas, serão ouvidos os dois acusados, Mizael e Evandro. No fim, o juiz deve pronunciar sua decisão sobre se o julgamento irá ou não à juri popular.

O caso

Para o Ministério Público, Bispo matou Mércia por ciúme e por não se conformar com o término do relacionamento. Ele foi denunciado por homicídio triplamente qualificado - motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

Evandro Silva que teria ajudado Bispo a fugir do local do crime foi denunciado por homicídio duplamente qualificado - motivo cruel e recurso que impossibilitou defesa. "O homicídio foi causado por motivo torpe e repugnante, pelo fato da vítima ter terminado um relacionamento amoroso com o acusado. O meio cruel foi porque foram feitos disparos em partes não letais do corpo de Mércia, o que causou dor e aflição. Já o recurso que dificultou a defesa da vítima foi pela dissimulação que o acusado usou para atrair a vítima para uma encontro quando sua intenção era matá-la", afirmou o promotor Rodrigo Merli Antunes, do MP, a época da denúncia, em agosto.

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