Até o último momento vou acreditar

Incerteza e fé para a família Nakashima, que desde o dia 23 de maio procura entender o sumiço de Mércia

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

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Mércia (à direita) com a irmã Cláudia - as duas sempre foram muito unidas
No domingo, dia 23 de maio, Janete Nakashima, de 52 anos, ligou assim que acordou para a filha, a advogada Mércia, de 28 anos, para saber o que ela estava fazendo. “Estou aqui na preguiça, fazendo a unha”, respondeu ela, e as duas combinaram de se encontrar mais tarde na casa da avó, no bairro Bela Vista, em Guarulhos, para o tradicional almoço em família. 

O domingo foi de risadas e planos. A também advogada Cláudia Nakashima, de 30 anos, conta que a irmã não desgrudou da prima de 3 meses. “Só ela queria segurar no colo”, diz e sorri. Não faltaram mimos também para o sobrinho de 9 anos. “Ela preparou lanche para ele, que é ruim de comer; depois, brincaram e correram pela casa”, conta a mãe. 

Com o irmão Márcio, Mércia fez planos de viajarem juntos aos Estados Unidos próximo ao dia 6 de outubro, dia em que comemoram aniversário. Vaidosa, saiu da casa da avó pouco depois das 18h30, pois ainda queria hidratar o cabelo. “Ela estava feliz, a acompanhei até o carro e falamos sobre o que faríamos durante a semana”, diz Janete, que depois disso não viu mais a filha. Mércia desapareceu. 

Telefonemas não atendidos

Durante toda a segunda-feira, Mércia não atendeu telefonemas dos pais e da irmã. "O telefone fica sempre ligado e ela já corre para atender". Janete teve certeza de que algo estava errado quando a filha faltou a um compromisso marcado para as 17h. “Ela é muito responsável, sempre foi. Jamais deixaria de atender um cliente”, diz. Até mesmo aos finais de semana, a advogada mantinha sempre o celular ligado e não se importava em resolver problemas do trabalho. 

No apartamento em que mora com o pai, a família não encontrou nenhum sinal dela. A queixa de desaparecimento foi feita na manhã de terça-feira, 25, e o caso está nas mãos do delegado Antonio Olim, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo. Desde então, a família já distribuiu milhares de panfletos com a foto de Mércia pela cidade de Guarulhos, colocou imagens dela na página da Ordem dos Advogados (OAB) do município, mobilizou amigos pela internet e disponibilizou telefones para contato. Pedem qualquer ajuda, mesmo que na forma de oração. “A pessoa que está com ela deve ter mãe, que pense na nossa dor. Só quero ela viva”, pede Janete, com voz firme, mas olhos cheios d´água. 

Caçula de três irmãos

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Mércia não foi mais vista desde quando deixou a casa da avó, no dia 23 de maio
Quando fala de Mércia, Cláudia mantém os olhos baixos e evita encarar as pessoas de frente. A voz também é baixa e, por diversas vezes, ela fica em dúvida se fala da irmã no passado ou no presente. “Ela era uma princesinha. Era não, é. Não briga com ninguém, é super tranquila”, diz. Caçula de três irmãos, Mércia é tida como o “xodó” da família. Quando vai descrevê-la, vaidosa é o adjetivo que mais usa. “Ela está sempre impecável, aonde vai carrega uma chapinha na bolsa. Até dentro de casa usa salto. Ela até reclamava que eu não era tão vaidosa quanto ela”, diz, novamente misturando os tempos verbais. 

Frágil e medrosa também são palavras bastante usadas por Cláudia para falar da irmã. “Quando era criança, só ela andava de bicicleta com rodinha”, ri. Mesmo depois de adulta, diz que era só ouvir trovões, que Mércia a procurava e dormiam no mesmo quarto. 

Nem mesmo o casamento de Cláudia – em novembro de 2009 – foi motivo para se distanciarem. As duas dividem um escritório de advocacia em Guarulhos e, apesar de se verem todos os dias, ainda se falam à noite. “Quando pegamos a fatura do cartão dela, meu marido até brincou: ‘nossa, ela liga mais para você do que eu’”, afirma. Caseira, Mércia não é de frequentar bares e baladas e nem de ficar muito tempo longe da família. “Ela sempre deu satisfação”, diz.  

Ex-namorado é principal suspeito

A postura de Mércia - de sempre informar onde está - traz à família ainda mais perguntas sobre o desaparecimento dela. Questionamentos feitos também sobre o relacionamento dela com o ex-policial e advogado Mizael Bispo de Souza , de 40 anos, que foi colega de classe de Cláudia na Universidade de Guarulhos (UnG). A instituição é a mesma em que Mércia se formou, um ano depois, em 2003. 

Anos depois da conclusão do curso, Souza convidou Mércia para dividirem um escritório de advocacia e, após dois meses, estavam namorando. “Nos espantamos. A diferença entre eles é berrante, eu orientei que a fama dele não era boa”, afirma Cláudia e é completada pela mãe. “Mas ela quis e nós aceitamos. Abrimos as portas para ele”. 

Segundo as duas, quando estava com ele “Mércia era outra pessoa”. “Ela não podia falar com ninguém, vizinhos do prédio até falam que quando ela estava sozinha no elevador cumprimentava; quando estava com ele, abaixava a cabeça”, diz Cláudia. Elas contam que o namoro dos dois foi marcado por idas e vindas e muitas brigas. Quando decidiu terminar definitivamente, em novembro de 2009, Mércia excluiu sua conta do site de relacionamento Orkut, trocou de e-mail, número de celular e até de escritório. Ainda assim, a família diz que ele sempre a procurava. Ameaças, porém, a mãe diz que nunca soube da filha ter sofrido. “Eu seria a primeira a ter feito um Boletim de Ocorrência”, afirma. 

nullPara a polícia e a família, Souza é suspeito de participação no desaparecimento da advogada. Ele já prestou depoimento duas vezes e negou qualquer relação com o caso. À polícia, alegou que, apesar de não namorarem mais, os dois mantinham um bom relacionamento e saíam juntos eventualmente, sendo que na sexta-feira foram jantar em um shopping de Guarulhos e, no sábado, a uma sessão de cinema. “Para gente é uma novidade isso”, diz Cláudia, ironicamente. 

No dia do sumiço de Mércia, o advogado diz que foi visitar a filha e um irmão, com quem almoçou e, depois, saiu com uma garota de programa. Um fato que complica a situação de Souza o é que o rastreador do carro dele mostrou que das 18h40 às 22h38 ele ficou estacionado em frente ao estacionamento do Hospital Geral de Guarulhos, em uma rua a menos de cinco minutos da casa da avó de Mércia. 

Visivelmente abalada e alternando momentos de choro, Cláudia diz que ainda tem esperança de reaver a irmã com vida. “Mas é difícil, nem sei mais que dia é hoje. Muito tempo na incerteza”, diz ela. Janete, a mãe, afirma que manterá a fé. “Até o último momento, vou acreditar. Algo me diz que ela está viva”.

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