Artigo: Artista plástica fala sobre a possível e utópica São Paulo

"Asfalto permeável, Tietê navegável, Marginal em dias de Carnaval". A paulistana quer tudo isso. E mais um pouco.

Christiana Moraes, artista plástica* |

Marginal em dias de Carnaval. Minhocão durante jogos do Brasil na Copa. Chuva que não alaga ponto algum. Ruas refletindo, molhadas, as luzes da noite. Amarelas. Com fiação subterrânea da Z.O. à Z.L. Asfalto permeável. Ibirapuera sem cercas de metal. USP realmente aberta à comunidade. Com estágio obrigatório de seus egressos em equipamentos públicos. Mais praças. E parques.

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Arquivo pessoal
Artista plástica observa a Parada Gay da janela de um prédio da avenida Paulista
25 de Março com mochila nas costas, sussa. Cinemas de bairro. Metrô vazio às 18h. Linha rosa. Linha cinza. Linha bege. Linha branca. Até Parelheiros. Árvores. Muitas delas. Também frutíferas.

Tietê navegável. Pinheiros limpo. Billings idem. Todo esgoto tratado. Reciclagem funcionando. Ônibus 24 horas. Mesmo. Em maior quantidade. Adaptados para transportar bicicletas. Ciclovias por toda parte.

Museus em horários viáveis para quem labuta. Todos os dias. Menos câmeras invadindo as privacidades. Bancos sem rotatórias. Imóveis com preços fora da bolha. Moradia decente pra todos. Professores bem remunerados. Tribunais sem crucifixo. Vasinhos de cannabis liberados para usuários.

Acessibilidade universal. Veículos que não sejam armas. Armamento de uso restrito nas mãos certas. Polícia que não faça ‘justiça’ com as próprias mãos. Alguns bares em que seja permitido fumar. Que possam fazer jus a uma cidade que não para e não fechem a 1h ou 2h. Árvore de natal que não foda com o trânsito. E que tenha um mínimo de bom gosto. Telefonia móvel com tarifas justas. Casais gays andando pelas ruas sem medo de ser feliz. Torcedores com suas camisas dividindo espaços pacificamente. Bandeiras, aquelas com mastro, das antigas, nos estádios. São tantos os clichês e os ectetaras.

Temos um ataque ostensivo e uma retranca de responsa, falta um meio-de-campo eficiente e podemos jogar melhor nesta posição. São Paulo está longe de ser uma cidade ideal, mas se conseguíssemos nos fitar nos olhos, por alguns poucos segundos, nos encontros fortuitos no meio da multidão, estaríamos bem mais perto dela. Está ao nosso alcance.

* Christiana Moraes é artista plástica, formada pela USP com especialização em Performance Art pela School of the Art Institute of Chicago, arte-educadora, paulistana, que como tal ama e odeia São Paulo, mas que detesta ouvir pessoas falando mal da 'cidade que me habita - e a qual habito!- há quase 40 anos'.

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