Após um mês de operação, Cracolândia muda de endereço

O que se vê 30 dias depois do início da operação policial é que os usuários apenas se transferiram da rua Helvétia para a Apa

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Quem caminha pela rua Helvétia, no centro de São Paulo, um mês depois de iniciada a Operação Integrada Centro Legal acredita que a Cracolândia acabou, já que uma base da Polícia Militar está instalada nas proximidades e não há mais usuários de crack caminhando pelo local.

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Mas basta andar alguns quarteirões para ver que a Cracolândia apenas mudou de endereço. Os dependentes que antes se concentravam nas ruas Helvétia e Dino Bueno passaram a ocupar a Rua Apa, próximo à Rua General Júlio Marcondes Salgado e trechos da Avenida São João, abrigados embaixo do Elevado Costa e Silva, conhecido como “Minhocão”.

Frâncio de Holanda
Usuários na esquina das ruas Apa e General Júlio Marcondes Salgado em janeiro

No dia 3 de janeiro, o governo do Estado iniciou uma operação para acabar com o tráfico e o uso de drogas na região. Segundo o governo, a primeira de três etapas consiste na ação policial com o intuito de desarticular o tráfico.

Em um mês de operação, 216 pessoas foram presas (196 pela PM e 20 pela Guarda Civil Metropolitana), quase quatro quilos de crack foram apreendidos e 186 pessoas foram internadas, segundo balanço divulgado no dia 1º.

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Às 17h30 de quinta-feira (2), cerca de 60 usuários estavam sentados na calçada da Rua Apa, alguns sob pequenas tendas montadas, outros do lado de carrinhos de supermercado com roupas e comida. A luz do dia não intimida na hora de fumar o crack e quem passa por ali desvia da calçada e apressa o passo.

“Depois da operação, a região melhorou muito, mas acho que falta passar mais polícia aqui de noite porque eles (usuários) vieram para cá e ficam tudo ali na rua de baixo, a gente fica com medo”, conta o zelador de um prédio na Rua General Júlio Marcondes Salgado. Ele explica que o comércio local ainda não foi impactado pela migração dos usuários.

AE
Polícia e usuários em confronto na rua Helvétia
Diferente do observado pela reportagem do iG nos primeiros 10 dias da operação , a presença da PM está mais discreta. Na Avenida Duque de Caxias, quatro policiais montados em cavalos passavam olhando atentamente as calçadas.

Além disso, é possível ver viaturas rondando algumas ruas, mas não a ação mais ofensiva, com averiguações constantes e dispersão dos usuários, por vezes até com o uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Subindo a rua e chegando à Avenida São João, é possível ver diversos grupos, com cerca de cinco pessoas cada, acampados embaixo do Minhocão. Muitos dormem, apesar do barulho e fumaça dos ônibus e carros e outros conversam. Um deles acende o cachimbo, olhando para os lados de forma desconfiada.

Procura triplicada

Outra via que passou a ser usada como abrigo pelos usuários foi a Avenida Barão de Piracicaba, principalmente em frente à Cristolândia, espaço de uma missão religiosa onde os dependentes químicos podem ficar abrigados, tomar banho, cortar o cabelo e comer. De acordo com a missionária Elaine, com a operação da Polícia Militar, a procura pelo local triplicou.

“Alguns vem aqui para passar o dia, cortam o cabelo, comem e depois vão embora, mas outros pedem ajuda para achar um tratamento. Mas o que a gente percebeu foi que aumentou muito a quantidade de gente aqui na porta. Eles ficam acampados aqui até a gente abrir”, afirma Elaine.

Logo na frente do portão pintado em tom de amarelo, cerca de 20 pessoas estão na calçada, algumas entram e saem da Cristolândia, outras ficam apenas ali conversando. Do outro lado da rua, atrás de um caminhão, outro grupo, de 10 usuários, fica escondido. Algumas pessoas estão bebendo, comendo ou fumando. Uma viatura da PM passa, devagar, mas logo vai embora.


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