Anjos do remo: esporte radical salva vidas

Profissionais do rafting usaram habilidades do esporte para salvar moradores em São Luiz do Paraitinga após chuvas em 2010

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Fernanda Simas, iG São Paulo
Eduardo de Oliveria Coelho exibe camiseta dos anjos do remo
Quem chega a São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba (170 quilômetros de São Paulo), um ano e meio depois da enchente que cobriu boa parte do município e afetou 82 construções, ouve muitas histórias de superação. Mas a que mais chama a atenção diz respeito a 50 profissionais do rafting – esporte radical de descida em rios – que com 15 botes e um imenso sentimento de solidariedade se tornaram o " anjos do remo ".

Aqueles que antes eram vistos por alguns moradores da cidade como pessoas que optaram por se divertir ao invés de ter um “trabalho sério”, se tornaram heróis depois de enfrentar a enchente de janeiro de 2010 e ajudar, ou melhor, viabilizar o salvamento de cerca de 800 moradores que viram casarões históricos e igrejas ruírem em horas. Acostumados a enfrentar obstáculos naturais, como pedras e quedas d’água perigosas, eles usaram o conhecimento técnico para navegar por cima de casas e ruas e resgatar quem se abrigava nos telhados ou em topos de árvores.

Eduardo de Oliveira Coelho, diretor de turismo da cidade, foi um desses anjos. Ele lembra de ter usado um bote modelo duck (caiaque inflável) na operação, que só foi bem-sucedida devido ao conhecimento geográfico do local. “Nós conhecíamos bem a região, sabíamos o que estava embaixo daquela água toda. Chegamos a salvar até os bombeiros. Três vezes”. Com a chegada das equipes de bombeiros à cidade, o trabalho continuou em conjunto. Cada bote de bombeiros era tripulado por um dos profissionais do rafting e eram eles quem indicavam onde poderia haver pessoas ilhadas por saberem em que casa morava cada família.

João Eduardo do Espírito Santo, 42 anos, dono da Cia de Rafting, uma das três que atuam na cidade, também participou dos resgates. Ele conta que ao ver o começo da enchente pediu para que todos os botes infláveis da companhia fossem colocados a disposição. “Essa era a forma de eu ajudar. A gente não tinha rádios, cada um seguia por um caminho procurando as pessoas”, explica João Eduardo sobre a maneira como a operação foi conduzida.

Fernanda Simas, iG São Paulo
Asas desenhadas nas costas da camiseta em homenagem aos anjos do remo
Santo ressalta que os profissionais do esporte radical participaram do salvamento contaram com ajuda de moradores. “Até o padeiro quis ajudar. Então nós ensinamos os comandos básicos [do rafting] e continuamos as buscas”. Os comandos básicos a que João se refere são as remadas e a maneira de seguir as orientações, por exemplo: se a pessoa que comanda a navegação grita “esquerda ré” quem está no lado esquerdo do bote deve remar para trás e quem está no lado direito deve remar para frente.

No dia 3 de janeiro de 2010, a Defesa Civil liberou uma das entradas de São Luiz do Paraitinga, a do Beco da Muchacha (prolongamento da Rua Benfica), localizada atrás da Igreja do Rosário e o trabalho dos anjos do remo mudou, mas não terminou. Eles passaram a ajudar na evacuação das pessoas. 

Homenagem

Na virada do ano de 2010 para 2011, uma camiseta em homenagem aos anjos do remo foi confeccionada em São Luiz do Paraitinga. “Todo mundo na cidade usava uma no ano novo. Foi emocionante”, afirma Oliveira, nitidamente orgulhoso do trabalho feito, com o olhar voltado para cima como se estivesse recordando cada momento daqueles resgates.

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