Ação da polícia cria 'subcracolândias' no centro de São Paulo

Assim como as pedras são repartidas entre os usuários, a Cracolândia se quebrou em diversos pequenos pontos de consumo

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Os dez dias de operação policial na Cracolândia provocaram a consolidação de novos pontos de concentração de usuários de crack na região central de São Paulo. O principal deles fica na esquina das ruas Apa e General Marcondes Salgado, próximo à avenida São João, e já é conhecido como Biricolândia, uma espécie de subcracolândia.

Nova postura: Policiais são orientados a observar e usuários retornam à Cracolândia
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Disseminação: Usuários da Cracolândia se espalham pelo centro de São Paulo
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Frâncio de Holanda
Usuários consomem crack no ponto conhecido com Biricolândia
O nome é uma referência aos biricos, gíria usada para designar os pequenos pedacinhos de droga, frutos da divisão das pedras de crack, vendidos pelos próprios usuários a preços ainda mais módicos que chegam a menos de R$ 1.

Segundo moradores e profissionais da área social que trabalham na região, o número de frequentadores da Biricolândia aumentou visivelmente desde o início da ação policial na Cracolândia.

Na ONG Sociedade Amiga e Esportiva do Jardim Copacabana (Saec), que fornece banho, alimentação e encaminhamento social aos moradores de rua, localizada a poucos metros da Biricolândia, o fluxo de pessoas atendidas subiu de 150 para 200 ao dia.

Antes e depois: Veja cenas da Cracolândia

“Já faz uns dois anos que os ‘nóias’ ficam aqui mas desde a semana passada a quantidade de gente aumentou muito. Virou ponto de encontro”, disse um comerciante da região.

Segundo ele, a transformação da região em ponto de consumo e tráfico de crack tem causado prejuízos a comerciantes, espalhado medo entre antigos moradores e desvalorizado em 25% em média o preço dos imóveis.

“Tenho um imóvel que era alugado por R$ 2 mil e agora tive que aceitar R$ 1.450 por causa dos ‘nóias’”, disse um antigo morador.

Na noite de quarta-feira, cerca de 150 usuários estavam no local usando e vendendo a droga livremente. Em pouco mais de duas horas, três carros da polícia passaram por ali sem tomar conhecimento da situação.

Do outro lado da rua, um grupo de senhores que se reúne há mais de duas décadas jogava baralho alheio à movimentação. “Já que não dá para mudar a situação, a gente tem que fingir que não vê”, disse um deles.

A cada dez minutos a partida era interrompida por algum usuário tentando vender qualquer coisa, desde roupas até aparelhos de telefone e produtos automotivos a preços irrisórios. Um aparelho de telefone fixo digital que nas lojas chega a R$ 250 era oferecido por R$ 10. Uma jaqueta jeans também era oferecida por R$ 10. Uma lata de cera para automóveis custava R$ 5, preço de uma pedra de crack.

Na tarde de quinta-feira, apesar da chuva, mais de 50 pessoas estavam na Biricolândia, sentadas na calçada, encostadas em um casarão abandonado, com seus cachimbos e cobertores.

A cada meia hora uma mulher loira, com dentes estragados e aparentando ter 30 anos usava um orelhão, saía e voltava minutos depois carregada de droga. Imediatamente uma aglomeração se formava em torno dela que recolhia o dinheiro e repassava as pedras. Então os usuários voltavam para seus cantos, acendiam seus cachimbos e permaneciam sentados até que a chegada de um novo carregamento. Às 8h de sexta-feira um grupo de 20 pessoas ainda estava ali.

“É sempre assim. Todo mundo sabe como funciona. Basta observar opor algumas horas. A polícia só não pega os traficantes porque não quer”, disse um velho morador.

Mudança de postura 

Depois de críticas, principalmente do Ministério Público , policiais que atuam em operação na Cracolândia receberam orientação para não dispersar as aglomerações de usuários de crack. Nesta quinta-feira, aglomeração em pontos da antiga Cracolândia já eram vistos durante a tarde. Porém, na manhã desta sexta-feira, grupos de usuários jé eram dispersados novamente por grupos de policiais.

Frâncio de Holanda
Usuários voltam a se aglomerar na Cracolândia

Alexandre Carvalho/ Fotoarena
A mesma região, na semana passada, durante a ocupação policial

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