A voz de quem vive o cotidiano do crack

Na última semana de janeiro a BBC Brasil percorreu o centro de São Paulo ouvindo usuários e ex-dependentes de crack.

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Abaixo, algumas destas histórias: 

José, 14 anos
O garoto José estava sob efeito de crack ao dar a entrevista. Revirava os olhos até se concentrar e focar nas respostas. Natural de Goiás, vive nas ruas da cidade há dois anos.

"Vim com minha mãe conhecer São Paulo, mas nos desencontramos e ela foi embora. Não brigamos nem nada, eu só me perdi dela".

A entrevista aconteceu no Espaço de Convivência Mauá, uma tenda da prefeitura que acolhe durante o dia menores de idade. Assistentes sociais disseram à reportagem que localizaram a família do garoto em Goiás e um reencontro deve acontecer em breve. José diz gostar muito da tenda, onde toma banho, se alimenta e socializa.

No dia seguinte, a reportagem o encontrou à noite em meio a mais de uma centena de pessoas que fumavam crack na rua Gusmões sob chuva constante. O comércio no local abrangia praticamente qualquer item, com dependentes vendendo o que podiam, de cobertores a tênis, por alguns reais para comprar outra pedra.

Apesar do frio raro para janeiro (15ºC), José já estava descalço e apenas de camiseta.

Paula, 34 anos
Encontramos Paula na rua Helvetia, antigo coração da Cracolândia. "Não moro aqui, me escondo", explica. Durante a conversa, ela se contorcia com frequência, com dor aparente. "É a abstinência, né? Não fumo desde ontem."

Ela diz que desistiu de parar com o crack e pensar no futuro quando a Justiça tomou a guarda de seu filho de três meses, no ano passado. "Antes pensava em ter uma vida diferente, com meus filhos, ajudando os outros."

Paula diz que, apesar de ter consumido a droga durantes as gestações, seus filhos nasceram sem sequelas. "Minha filha de 16 anos é linda. Não usa drogas e trabalha."

Ela reclama da imprensa durante a ação recente na cracolândia. "Muita gente entra em depressão por que aparece na TV, as câmeras mostram os rostos."

Ana, 15 anos
Ana, 15 anos, diz que a mãe saiu de Santos quando ela tinha seis anos, para fugir do padrasto violento com ela e os três irmãos. "Fui logo viver na rua porque não me dava bem com ela. No Vale do Anhangabaú não apanhava, tinha liberdade", diz.

Ela diz que, ao contrário da mãe, não fuma crack – "fumei por uma semana, quando tinha uns dez anos, mas não gostei", mas é dependente da cocaína.

Frequentemente ela diz passar dias e noites inteiras cheirando a droga. "Depois de uns três dias eu arrumo um lugar tranquilo para dormir, na rua mesmo. Depois faço tudo de novo".

"A vida na rua pode ser boa para quem sabe viver nela", afirma, explicando que tem-se que saber evitar "estupradores, traficantes e a polícia". Desta ela diz ter apanhado várias vezes. "Uma vez estava dormindo e eles (os policiais) me acordaram com um tapa na cara. Depois me espancaram e fiquei toda roxa. Tinha uns 11 anos."

Como malefício perceptível do uso da cocaína, ela aponta, além de ocasionais overdoses, apenas "perda de memória de vez em quando".

"Uma vez parei de usar e engordei uns 30 quilos", diz. "Estou bem com minha droguinha."

Herbert, 45 anos
Para Herbert, não é possível sair do crack sem Jesus. Mas não só. É necessário seguir à risca um tratamento de nove meses.

Hoje ele não fuma nem cigarro, não bebe ou consome drogas. Mas há 20 anos, "consumia as drogas consideradas normais, mas que de normais não têm nada: cocaína e maconha, além de beber". Foi nessa época que casou, mas a vida desregrada contribuiu para o fim da união. E o crack foi o empurrão à sarjeta.

"Vivi quatro anos na cracolândia, conheci o submundo, dormia e acordava fumando. Cometi pequenos furtos."

Hoje, na ONG Esperança Viva, ele se dedica em tempo integral a tirar das ruas e ajudar dependentes de crack. Sai pelas ruas pregando a palavra de Cristo e oferecendo eventuais vagas que surgem em uma clínica de recuperação. "Calculo que nesses dois anos ajudei umas 50 pessoas."

Herbert espera o perdão dos filhos. "Eles têm 100% de rejeição a mim. Não os vejo há cinco anos. Não fui um bom pai".

Juninho, 28 anos
Ele diz que não é viciado em crack e que fuma a pedra só de uma a duas vezes por mês. O problema é mesmo a bebida.

"Bebo desde os 12 anos direto. Sou da roça do Paraná e lá todo mundo bebe. Acordo, tomo um café, fumo um cigarro e começo a beber."

Juninho diz que vive na rua após ter sido expulso de casa por casa do álcool, aliado ao vício da cocaína. "Mas me orgulho de nunca ter roubado."

Ele diz esperar voltar a arrumar um emprego como mecânico. E rever os filhos que deixou com as ex-esposas. "Mas para isso eu preciso voltar a ter um endereço fixo".

Pouco antes da entrevista, ele disse ter fumado crack. "Você se sente um super-homem".

Marcelo, 32 anos
Marcelo diz que usou diariamente o crack por três ou quatro anos. Morou na Cracolândia. No dia 30 de janeiro, dizia fazer uma semana que não fumava.

"Parei porque me sentia mal, não parei por causa de tratamento ou de religião", diz. Ele ressalta que só se sentirá "curado" da dependência quando receber um primeiro salário e resistir à tentação de comprar pedras.

Nascido e crescido na zona sul de São Paulo, Marcelo diz que fez vários bicos para ganhar a vida. "Gostaria de virar gari da prefeitura". Após um emprego, o passo seguinte seria se reaproximar das filhas que deixou com a ex-esposa. "Me separei por causa da droga. Nenhuma mulher aguenta, né?"

Sobre a ação policial na cracolândia, ele é crítico: "Isso só acontece porque querem mostrar que o Brasil é limpo, porque vai ter jogos (de futebol, com a Copa de 2014). Não é para ajudar os viciados."

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