A vitória delas foi a nossa

Mães de SP que tiveram bebês juntas esperam conseguir na Justiça, assim como as mães gaúchas, o direito à dupla maternidade

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

A última terça-feira foi de comemoração na casa de Munira Khalil El Ourra, de 28 anos, e Adriana Tito Maciel, 27. As duas assistiam à televisão quando ouviram uma noticia que, agora, torcem, para que mudem as suas vidas.

ARQUIVO PESSOAL
Adriana (à esquerda)segura Eduardo e, Munira, Ana Luísa

Na TV, o repórter falava sobre a decisão inédita do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em conceder a duas mulheres do Rio Grande do Sul o direito a registrar no nome de ambas os filhos adotados em 2002 e 2003. Foi a primeira vez que o STJ se posicionou sobre a adoção de crianças por um casal homossexual.

“Como foi emocionante, paramos tudo aqui para ouvir o ministro falando”, conta Munira. A mãe de Adriana, que mora na casa de baixo, gritava, eufórica: “agora vocês vão conseguir”.

Desde 2008, as duas lutam na Justiça para conseguir o que as mães gaúchas obtiveram: a dupla maternidade. No caso delas, com um detalhe importante: elas não adotaram ninguém. As duas são mães de gêmeos.

Por nove meses, Adriana carregou na barriga Eduardo e Ana Luísa. Engordou, ganhou estrias, sentiu enjoos, vez ou outra desmaiava e ficou de repouso boa parte da gravidez. No ventre dela estavam os óvulos de Munira, que foram fecundados com o sêmen de um doador desconhecido.

Antes do procedimento de fertilização artificial ser realizado, foi Munira quem passou por um doloroso processo, que incluía injeções quase diárias de hormônio. “Foi complicado, inchei muito, ficava com a barriga toda roxa e duas vezes por semana ia para a clínica medir os óvulos. Era aquela ansiedade”, conta.

O tratamento durou três meses e, em agosto de 2008, Adriana estava grávida. Quando os bebês nasceram, porém, Munira não pôde registrar os filhos que teve com a mulher. Para a ciência, ela é a mãe dos bebês e qualquer exame de DNA pode comprovar isso. Para a lei, apenas Adriana.

ARQUIVO PESSOAL
Munira brinca com o filho Eduardo, que não pôde registrar

“São meus filhos e não tenho poder sobre eles. Qualquer papel da escolinha ou de médico é tudo a Dri quem tem que assinar”, desabafa Munira. A dupla maternidade garantiria ainda aos gêmeos direitos como herança, inclusão no plano de saúde de empresa. Por isso, elas se animaram tanto com a decisão do STJ, que esperam abrir precedentes para outras do tipo no País.

“A vitória delas foi a nossa. A gente ficou muito feliz. Sabemos que a luta é grande e imaginamos a emoção que elas sentiram, porque estamos esperando por isso. No dia em que pegarmos esse registro vamos fazer uma festa”, afirma Adriana..

O desejo

Munira e Adriana namoram há cerca de quatro anos e moram juntas há pouco mais de três. O desejo de engravidar, segundo Adriana, sempre foi um sonho antigo, mas que precisou ser antecipado por motivos de saúde. Por causa de uma endometriose, ela já havia perdido um ovário e o médico a alertou que se ela quisesse ter um filho precisava ser naquele momento. “Eu poderia perder o útero e não daria mais”, explica.

A sugestão para que Munira cedesse os óvulos já que Adriana era infértil foi do próprio especialista, do Hospital Santa Joana, em São Paulo. “Eu achei muito legal porque realmente teria a participação das duas”, afirma Munira, que não hesitou em aceitar a proposta. O tratamento, que custou cerca de R$ 13 mil, foi pago com o dinheiro que as duas juntavam para comprar um apartamento. “Falar que tínhamos o dinheiro, não tínhamos. Mas a vontade era tanta. Corremos atrás”, diz Adriana.

Bebês

ARQUIVO PESSOAL
Eduardo e Ana Luísa

Quando Ana Luísa e Eduardo nasceram, a empresa em que Munira trabalhava, apesar de legalmente não ser obrigada a isso, concedeu à funcionária quatro meses de licença maternidade remunerada. “Eles foram muito legais, sou muito grata, porque sem o registro de dupla maternidade eu não tenho direito a nada”, diz.

Pouco tempo depois, porém, ela preferiu abrir mão do emprego para se dedicar à família. Ana Luísa é saudável e “terrível”, brincam as mães. Já Eduardo nasceu com defeito congênito da glicolização, uma raríssima doença genética, em que a glicose e o carboidrato presentes nos alimentos não se ligam como deveriam. Por isso, ele precisa de cuidados especiais, acompanhamento médico constante, além de fisioterapia. Munira, que trabalhava como analista financeira, hoje brinca que sua profissão é ainda mais difícil: ser mãe.

Direito a ter família

Discretas, Munira e Adriana trocam olhares cúmplices enquanto falam com a reportagem. Vez por outra se chamam por apelidos carinhosos e explicam que aceitam dar entrevistas e aparecer em programas de TV porque no Brasil os homossexuais são omissos. “No mundo inteiro os homossexuais são firmes, aqui, quem luta pela gente? Era o Clodovil?”, questiona, ironicamente Munira.

As duas afirmam que não levantam bandeiras a favor dos gays, mas da “família”. E não apenas da convencional, formada por pai, mãe e filhos. “Mãe solteira não é família? Pai solteiro não é família? Avó que cria os netos?", questiona Munira.

As mães afirmam que, quando as crianças crescerem e questionarem porque possuem duas mães, elas apenas vão ser francas. “Saiu da barriga dessa mamãe e depois entrou aqui”, diz Adriana, enquanto aponta para a companheira. “Guardamos todos os recortes de revistas e vamos mostrar tudo a eles. Não temos porque mentir. Nossa família é na base da verdade”, completa.

    Leia tudo sobre: homossexuaisjustiçadupla maternidademães

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG