¿A intenção deles era matar. Implorei para pararem"

Mãe de motoboy acusa policiais de terem agredido e matado o filho em São Paulo. Comandantes da PM são afastados

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

A vendedora Maria Aparecida de Oliveira Menezes, de 43 anos, já havia avisado o filho, o motoboy Alexandre Menezes dos Santos, de 25 anos, que não queria nenhum presente de Dia das Mães, bastava a companhia dele. “Ia fazer uma couve, que ele gosta tanto, para almoçarmos juntos”, diz, com a voz embargada.

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Mãe de motoboy morto em SP mostra fotos do filho
No entanto, seus planos foram drasticamente modificados. Ao invés de almoço com o filho, foi ao enterro dele. Por volta das 3h de sábado, Santos foi assassinado em frente à própria casa, na rua Guiomar Branco da Silva, em Cidade Ademar, zona sul paulista. Os acusados do crime são policiais militares.

Segundo a vendedora, de sexta a domingo Santos trabalhava entregava pizzas em um estabelecimento próximo. Na última sexta não foi diferente, mas, na volta, ele teria sido abordado por policiais militares porque estava em uma moto sem placa. O jovem teria ignorado o alerta e seguido até a residência.

Ali, Maria Aparecida diz ter visto uma sessão de espancamento que durou cerca de 30 minutos. “Acordei com a sirene da polícia e escutei os gritos do meu filho. Estava dormindo e saí correndo, descalça e de pijama e comecei a gritar: ‘ele mora aqui, a moto é dele’”. Tudo em vão, segundo ela, porque as agressões continuaram. “Meu cachorro latia e eles: ‘se ele não parar vou dar um tiro’. Eu me ajoelhei, tentei pegar na mão deles (policiais) e implorava para pararem de bater no meu filho. Eles só diziam: 'fica quieta que você pode ser presa. Eu chorava, gritava, chorava...”, afirma, sem conseguir completar a frase.

Maria Aparecida diz ainda que presenciou o momento em que Santos foi enforcado. “Quando apertaram mais forte, ele parou de falar e gemer. Gritei: ‘vocês mataram meu filho, mataram’. E eles: sai de perto’”, lembra. Neste momento, a vendedora diz que viu o filho ser algemado e colocado na viatura policial. O destino dele, ela não sabia. Por isso, conta que seguiu até o 43º DP, onde diz ter sido informada de que o menino “só estava com uma perna quebrada” e tinha sido levado ao Hospital de Pedreira. Não o encontrou lá e, por conta própria, seguiu até o Hospital Saboya, onde já o viu morto.

Segundo o Boletim Ocorrência, policiais afirmam que, ao colocarem Santos na maca do hospital, encontraram com ele uma pistola calibre 357. Tese que Maria Aparecida não acredita. “Enquanto ele apanhava, caiu celular, carteira, e eles dizem que o meu filho estava armado, mas só encontraram a arma no hospital?", ironiza.

Moto

Quando questionada se o filho estava na contramão de direção, como alegaram os policiais, Maria Aparecida faz questão de ir até a varanda do sobrado onde mora e mostrar carros passando nos dois sentidos da rua. Ela também pega uma pasta e mostra carnês da moto recém-comprada e até um comprovante de que ela seria emplacada na terça-feira. A vendedora espera que, ao menos depois de morto, o filho não seja considerado bandido.

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Mãe de motoboy mostra comprovante da placa da moto usada pelo filho antes da abordagem policial

Homicídio doloso

Enquanto conversa com a reportagem do iG, o telefone da casa de Maria Aparecida não para de tocar. Uma das ligações é do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), para quem ela pede ajuda. “Quero ser a última mãe a passar por isso. Ser motoboy não é ser bandido”, afirma.

Maria Aparecida diz que a intenção agora é que os policiais sejam julgados por homicídio doloso (quando há a intenção de matar) e não culposo, como foram autuados. “A intenção deles era só de matar, senão não iam enforcar e ainda jogar a cabeça dele contra a guia. Se estivessem só se defendendo, meu filho estaria vivo”, lamenta.

Comandantes da PM afastados

Na tarde desta segunda-feira, o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, determinou o afastamento de dois comandantes do batalhão envolvido no caso sob o argumento de que eles não tiveram o controle da tropa. Foram afastados o tenente-coronel Gerson Lima de Miranda, do 22º Batalhão, e o capitão Alexander Gomes Bento, da terceira companhia do 22º BPM. A secretaria determinou abertura de processo administrativo para averiguar o crime de omissão.

Em depoimento, os PMs envolvidos no caso alegaram que Alexandre, ao ser abordado, entrou em luta corporal com os soldados, que pediram o reforço de mais dois homens.

Segundo informações do Boletim de Ocorrência (BO), um dos policials aplicou uma gravata no motoboy na tentativa de imobilizá-lo, mas ele teria conseguido se desvencilhar. Então, outro golpe foi dado. Alexandre perdeu os sentidos e desmaiou, morrendo pouco tempo depois. Os policiais disseram ainda que, além da moto Honda/CG não ter placa, o jovem transitava em alta velocidade e pela contra mão.

Por meio de nota, a Polícia Militar disse que, diante do uso excessivo de força física dos policiais militares, os autuou em flagrante delito por homicídio culposo. A ocorrência acontece um mês após a morte de outro motoboy, de 30 anos, também em São Paulo.

Polícia violenta

Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo na semana passada revelam que a Polícia Militar do Estado matou 40% mais pessoas em ocorrências registradas como confrontos no primeiro trimestre deste ano do que em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e março de 2010 foram 146 mortes, contra 104 mortes no mesmo período de 2009.

Mesmo com o maior número de mortes de civis em confronto com a Polícia Militar, os números de homicídios não caíram no Estado. Na comparação entre o início de 2009 e 2010, o número de homicídios no Estado registrou uma leve alta. No relatório estatístico divulgado pelo SSP, foram registrados 1.224 homicídios no primeiro trimestre deste ano. Em 2009, foram 1.143, pouco a mais que em 2008, quando foram registradas 1.135 mortes de janeiro a março.

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