A busca por uma vaga em um albergue

Morador de rua, que já viu jovem morrer em briga por crack, sonha com uma cama em um albergue

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Eduardo Bandelli
Mario Marques de Almeida, na Praça da Sé
O jovem carregava com zelo o pedaço da pedra na palma da mão. Minúscula. Abordado por alguns rapazes, negou-se a entregar o que restava da droga, que pretendia queimar ali mesmo. Logo a discussão teve início, e outros rapazes se juntaram ao seu redor. Mal teve tempo de erguer a mão: a socos, pontapés e pauladas, foi morto tentando segurar o crack, que o levaria para a última viagem. Tudo a poucos metros do funcionário público Mário Marques de Almeida, mineiro de 44 anos, que fingia dormir em um canto da rua onde aconteceu o crime, no Brás. "Tudo por causa de uma droga", relembra.

A agressão, ocorrida já há algum tempo, ficou muito tempo impregnada na memória do sujeito que deixou mulher e dois filhos, de seis e sete anos, após uma áspera discussão com o cunhado, dono da casa.
Sem ter para onde ir, passou a dormir na rua.

Por causa da situação, perdeu o emprego de 15 anos como agente de escola municipal. Foi exonerado por causa das faltas e atrasos. Três anos depois, Almeida tenta agora retomar os trabalhos e os documentos. Diz, porém, nem saber por onde começar. "A gente acorda com vontade. Mas ao longo do dia vai desanimando. Não tem mais confiança", diz ele, que na véspera conseguira uma vaga em um albergue do centro de São Paulo apenas depois da meia-noite.

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Em geral, passa os dias na expectativa de conseguir uma cama em um dos quartos. Mas se queixa da falta de lugares próximos onde possa ser recolhido muitos ocupados por viciados em droga, que diz temer. "O lugar deles é numa clínica de reabilitção. Não em albergue. Tem uns que marcam a vaga até com pedaço de pau", diz.

Sentado num banco da Praça da Sé, um dos locais com maior concentração de moradores de rua da cidade, ele afirma que não bebe, mas não dispensa um cigarro. Com um terno velho, fala sobre o medo da violência nas ruas, e relata ter sido assaltado inúmeras vezes pelos próprios companheiros de rua.

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