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Prefeitura tenta recuperar programa e encontra pancadões e conflitos em ruas de lazer; de 1.058 vias cadastradas, moradores de apenas oito ruas pediram continuidade da ação

Crianças e jovens jogam futebol na rua dos Guaianases, na região central de SP
Nicolas Iory/iG São Paulo - 25.10.15
Crianças e jovens jogam futebol na rua dos Guaianases, na região central de SP

O habitual vai e vem de carros e motos na rua dos Guaianases, na região central de São Paulo, dá lugar ao corre-corre de crianças aos domingos e feriados. As regras da disputadíssima partida de futebol são claras: vence a equipe que fizer três gols primeiro, ou aquela que estiver à frente no placar quando o cronômetro marcar dez minutos de partida.

A segurança dos "jogadores" fica por conta dos cavaletes colocados por uma equipe da Polícia Militar nos cruzamentos com as ruas Vitória e Aurora, impedindo o trânsito de veículos naquele trecho da rua dos Guaianases.

O local é um dos 1.058 endereços cadastrados no programa Ruas de Lazer, mantido desde 1996 pela Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Recreação (Seme). O número é inchado por centenas de vias que já não fazem parte do programa, mas foram mantidas nos registros da pasta devido à falta de interesse de seguidas administrações na capital paulista.

Já em 2013, no primeiro ano da gestão Fernando Haddad (PT), foi iniciada uma tentativa de recuperar o programa, processo que entra na reta final neste mês.

A ideia do projeto, conforme novas regras publicadas no fim do ano passado, é incentivar a ocupação do espaço público por meio do fechamento de ruas com baixo trânsito de carros e que não possuam igrejas, hospitais ou lojas. O fechamento deve ser feito pelos próprios moradores, sempre aos domingos e feriados, das 10h da manhã às 16h da tarde.

Para uma via ser incluída na ação, é necessário que ao menos 80% dos moradores sejam favoráveis à proposta. A participação da Seme nesse processo se resume a conferir junto à CET se as ruas atendem às exigências do programa e providenciar sinalização (placas) e os cavaletes para o fechamento da via.

Pancadões e conflitos

A tarefa de recuperar o programa recaiu sobre o colo de Corine Sampaio, supervisora técnica da Coordenadoria de Gestão das Políticas e Programas de Esporte e Lazer da Seme.

Ela lista uma série de problemas surgidos ao longo dos anos em que o programa ficou às traças. "Havia muitos conflitos e descaracterização do projeto, que nunca passou por uma revisão. A maioria dos problemas aconteciam na periferia, como o tráfico de drogas, pancadões, comércio ilícito e conflitos entre os moradores."

Para saber quais vias de fato ainda funcionavam como ruas de lazer, foi contratada uma empresa para visitar cada endereço na lista de cadastro da prefeitura. As visitas foram realizadas ao longo de três meses entre o fim de 2013 e o início de 2014.

Havia muitos problemas como tráfico de drogas, pancadões, comércio ilícito e conflitos entre os moradores"

A relação inicial indicava a existência de 1.078 ruas de lazer, mas as equipes da prefeitura descobriram que 18 desses endereços nem sequer existiam mais. Em duas outras ruas não foi possível fazer entrevistas e não havia indícios de que estivessem funcionando.

Assim, o número foi reduzido a 1.058. No dia em que os pesquisadores estiveram nessas vias, apenas 138 estavam operando como ruas de lazer. Os moradores de 331 vias informaram que o fechamento ocorre frequentemente (confira endereços no mapa acima).

No relatório entregue à secretaria, os pesquisadores apontaram situações que exemplificam bem a situação de abandono do programa: um pancadão em uma via de lazer no bairro de Guaianazes (zona leste); uma rua fechada com tábuas de madeira no Ipiranga (zona sul) e outra bloqueada por sacos de lixo no Jaçanã (zona norte). No centro da cidade, uma das ruas do projeto acabou engolida pela Cracolândia.

Em outra anotação, os pesquisadores relataram que um morador do Itaim Paulista (zona leste) fechou um "trecho da rua não incluído no roteiro e colocou brinquedos", se identificando como "assessor de parlamentar".

Recadastramento

A Seme enviou uma carta aos moradores de todas as 1.058 ruas avisando que seria necessário realizar o recadastramento da via até o dia 30 de novembro para que ela continue no programa. Até o momento, os moradores de apenas oito ruas efetivaram o novo cadastro.

Os principais motivos identificados na pesquisa para que as ruas de lazer deixassem de funcionar ao longo dos anos foram a falta de interesse dos moradores, o intenso trânsito de carros na rua e a falta de segurança. "Acredito que, até o fim do prazo, teremos em torno de 20 ruas de lazer", prevê Corine.

Entre as oito vias já recadastradas está a rua dos Guaianases, localizada próximo à avenida São João. O estudante Alisson Yanes, de 15 anos de idade, é morador de um dos prédios na rua e joga bola com os amigos a cada vez que ela é fechada.

"Acho que é uma boa ideia. Às vezes a gente até faz festa aqui. Antes de a rua começar a fechar, eu ficava só em casa jogando videogame", afirma.

Quem também participa das peladas na rua dos Guaianases é o jovem Denner França, de 12 anos, que sonha em ser jogador de futebol. Ele treinava na escolinha da Portuguesa, mas parou de frequentar os treinos devido à distância entre a sua casa e o centro de treinamento, que fica na zona norte da cidade.

"Os moradores daqui respeitam o jogo, nunca deu problema. Os filhos dos nigerianos do bairro também se envolvem, é bom para conhecer os outros", conta Denner, referindo-se à população de imigrantes africanos que moram na região (também povoada por muitos peruanos).

O soldado Francis, da Polícia Militar, trabalha na mesma rua em uma base comunitária que assumiu a tarefa de colocar e retirar os cavaletes da rua. Ele também vê o projeto como positivo. "A gente acaba se envolvendo com os moradores, que passam a ter outra imagem do nosso trabalho. Acho que seria interessante ter em outros pontos da cidade."

Avenida Paulista

A coordenadora do Ruas de Lazer, Corine Sampaio, explica que o fechamento da avenida Paulista aos domingos, uma das bandeiras hasteadas pela gestão Haddad, não possui relação com o programa da Seme, apesar das semelhanças.

"O programa tem objetivos, valores e regras bem diferentes do projeto 'Ruas Abertas', que a Secretaria de Governo pretende implantar. Ele é voltado para práticas esportivas em ruas menores. A avenida Paulista não tem essa característica."

A secretaria de Esportes chegou a ser convocada para integrar o novo projeto na avenida Paulista, mas as conversas não avançaram.