"Aqui na minha rua 80% das pessoas tiveram dengue", diz moradora de São Paulo

Por David Shalom - iG São Paulo |

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Moradores da Brasilândia, bairro mais afetado pelo vírus na capital paulista em 2015, afirmam que em algumas áreas da região não ser contaminado pela dengue se tornou exceção

Quando Lilian Cristina dos Santos foi diagnosticada com dengue, em fevereiro passado, o vírus ainda era uma novidade a ela e seus vizinhos. Passados três meses, não contraí-lo se tornou exceção na Rua Fátima do Sul, na Brasilândia, bairro na zona norte de São Paulo. De acordo com moradores, quase todos os residentes da via já foram diagnosticados com a doença, alguns deles com a forma mais grave, a hemorrágica. Na casa de Lilian apenas o sobrinho de 19 anos não foi infectado.

Imagem do bairro Brasilândia, na zona norte de São Paulo: maior incidência de dengue da capital
Roberto de Castro/Arquivo Pessoal
Imagem do bairro Brasilândia, na zona norte de São Paulo: maior incidência de dengue da capital

"A primeira a pegar fui eu. Foram seis dias com 39ºC de febre, enjoos, dores nas pernas, nos braços, nas costas, tomando soro, sempre com um gosto horrível na boca. A dor de cabeça, então, era tremenda. Até hoje sinto ela", conta Lilian, dona de casa de 34 anos. "Depois de mim, foi um atrás do outro: meu irmão, meu filho, minha mãe, minha sobrinha, minha irmã. No total, seis pessoas tiveram dengue nos últimos meses só na minha casa. Aqui na rua, 80% dos moradores pegaram a doença."

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A situação não se limita à rua onde vive Lilian. De acordo com outros moradores ouvidos pelo iG, ao menos três vias na Brasilândia registraram casos da doença em todas as suas casas. As ruas Encruzilhada do Sul e Porto Nacional, ambas próximas à Fátima do Sul, são dois exemplos dessa realidade no bairro recordista em registros da doença na capital paulista em 2015. Dos 57.794 casos confirmados na cidade até 9 de maio, 6.495 ocorreram no distrito, segundo a Secretaria Municipal da Saúde.

"É a maior preocupação que tenho atualmente"
Prima e vizinha de Lilian, Daiane Arsênio Venâncio da Silva é, ao lado de seu filho de 2 anos, uma das poucas moradoras de sua rua que ainda não tiveram a doença. "É a maior preocupação que tenho atualmente. Vivo em pânico, passo repelente em mim e no meu filho 24 horas por dia", diz a assistente administrativa de 32 anos, que precisou cuidar do marido de cama ao longo de quase duas semanas após ele ser diagnosticado com a doença. "Nunca tivemos tantos focos aqui. Desta vez, foi realmente cruel."

A situação pode até não ser tão grave em São Miguel Paulista, no outro extremo de São Paulo, na zona leste da cidade, onde 539 casos foram confirmados pela prefeitura no mesmo período. No entanto, para Olivetti Santana de Melo, moradora da Rua Marcion, no Jardim Lajeado, a impressão é de que a doença se espalhou entre quase todos os seus conhecidos.

O mosquito transmissor da dengue, com suas chamativas pintas brancas: 13 mortes só na capital
Arquivo Wikipédia
O mosquito transmissor da dengue, com suas chamativas pintas brancas: 13 mortes só na capital

"Só na minha família foram seis casos", conta a diarista de 57 anos, diagnosticada com a dengue há cerca de um mês. Em comum com os moradores de Brasilândia, ela tem a insatisfação com a falta de estrutura e de funcionários nos ambulatórios e prontos-socorros municipais, além de reclamar da ausência de visitas de equipes da prefeitura para combater possíveis focos da doença. "Se há suspeita de dengue, eles já deveriam vir automaticamente. Mas isso nunca aconteceu."

Daiane confirma o descaso e conta que a situação chegou a tal ponto que vizinhos precisaram se juntar para invadir terrenos abandonados com focos de dengue após terem tido seus apelos seguidamente ignorados pela prefeitura. "Os próprios moradores entraram e queimaram os pneus e o mato alto desses terrenos, há mais ou menos um mês. Depois disso, parece que a situação melhorou um pouco", afirma ela.

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De todos os bairros da capital paulista, apenas um, Marsilac, no extremo sul, não teve registros de casos da doença. Mesmo em áreas nobres, onde historicamente a dengue tem menor incidência, centenas de diagnósticos foram confirmados. Itaim Bibi e Jardim Paulista, por exemplo, tiveram 194 e 96 infectados, respectivamente. Dados do Hospital Albert Einstein, um dos mais caros da capital paulista, mostram um total de 2.331 casos confirmados somente em seus quatro pronto-socorros em território paulistano entre janeiro e 16 de maio.

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo afirma que "o trabalho de orientação e combate à dengue é realizado durante todo o ano pelos 2.500 agentes da Coordenação de Vigilância em Saúde (COVISA), que contam com o apoio de mais de 7.200 agentes comunitários de saúde".

"Vale lembrar que o combate ao Aedes aegypti deve ser um compromisso de toda sociedade, uma vez que 85% dos criadouros encontram-se dentro das residências. As visitas dos agentes são feitas com base em critérios técnicos nos territórios com casos confirmados e/ou notificados."

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