Mudança repentina no Bilhete Único causa revolta e prejuízo a estudantes em SP

Por David Shalom - iG São Paulo |

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SPTrans divulgou migração de Bilhete Único para carteira da UNE/UMES na véspera de medida entrar em vigor; Procon diz que alunos lesados podem tentar ressarcimento de prejuízos

Uma mudança repentina no Bilhete Único Estudantil tem causado prejuízo e muita dor de cabeça a estudantes da capital paulista. De um dia para o outro, a São Paulo Transportes (SPTrans), da prefeitura paulistana, definiu que, a partir de maio, todas as cotas de créditos de ônibus/metrô/CPTM de alunos da cidade passarão a ser depositadas somente em uma nova carteirinha, unificada à UNE/UMES, que precisa ser retirada nas instituições de ensino. As cotas são as parcelas mensais, inseridas no bilhete, pagas para obter a passagem pela metade do preço, que também podem ser subsidiadas pelo governo municipal para transporte público sem custos àqueles de baixa renda.

Fila formada por alunos da USP para retirada de cartões da UNE e UMES, no início da semana
Luís Viviani/Arquivo Pessoal
Fila formada por alunos da USP para retirada de cartões da UNE e UMES, no início da semana

O problema é que a decisão foi divulgada somente na quinta-feira (30 de abril), véspera de feriado e do primeiro dia útil do mês (data em que são depositadas as cotas), e já em 1º de maio entrou em vigor. A falta de prazo forçou milhares de estudantes, por falta de acesso às novas cotas, a pagar o valor cheio da passagem neste início de mês e a enfrentar grandes filas, com guichês com horário limitado de funcionamento, em seus colégios ou faculdades para conseguir o novo cartão. 

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Na página da SPTrans no Facebook, proliferam as mensagens de estudantes descontentes. Em alguns posts, alunos afirmam que, apesar do bloqueio do cartão, suas escolas alegam que o novo documento ainda está indisponível para eles. Em outros, que, mesmo com o cartão novo, falhas no sistema estão impedindo-os de carregá-los nos postos credenciados.

Além da falta de prazo para que os estudantes se adaptassem, a mudança foi comunicada apenas por e-mail, fazendo com que muitas pessoas sequer tomassem conhecimento dela devido a falhas de cadastro no site da SPTrans. Foi o caso da estudante de Jornalismo Jéssika Gonzalez, de 23 anos, que, impossibilitada de ir à sua faculdade em horário comercial devido ao trabalho, desde segunda-feira (4) somou novos gastos à sua planilha mensal de despesas.

"Quando fui recarregar o bilhete, na semana passada, a moça do guichê disse que meu cartão estava bloqueado para esse tipo de recarga, sem me dar mais explicações. Pensei que o problema era apenas comigo, mas aí vi um post no grupo da ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP] no Facebook e percebi que aquilo estava acontecendo com muita gente", conta a estudante ao iG. "Pior que eu tinha acabado de colocar créditos no cartão, e agora ele está bloqueado. Paguei por algo que não poderei usar, pois estou em semestre de conclusão de curso, trabalho o dia inteiro e não vou mais à USP, justamente pela falta de tempo."

Veja fotos dos atos de 2015 contra o aumento da tarifa de ônibus em SP:

Catraca sendo queimada pelo MPL em frente ao Terminal Parque Dom Pedro, nesta sexta-feira, 6 de fevereiro, em São Paulo. Foto: Fernando Zamora/Futura PressPoliciais fazem cordão de isolamento em frente à Prefeitura paulistana, no processo do MPL desta sexta-feira, 6 de fevereiro. Foto: Fernando Zamora/Futura PressManifestantes do Movimento Passe Livre em frente à sede da Prefeitura, nesta sexta-feira, 6 de fevereiro; foi o sétimo do grupo em 2015. Foto: Facebook/ReproduçãoOrelhão depredado no segundo protesto do MPL de 2014, nesta sexta-feira (16), na região central de São Paulo . Foto: PM-SP/TwitterPM ao lado de viatura depredada, segundo a corporação, por militantes com fogos de artifício. Foto: PM-SP/TwitterMovimentação de militantes no protesto desta sexta-feira. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloManifestantes fazem graça enquanto protesto seguia pacífico, no início da noite. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloProjeção pela tarifa zero na Prefeitura: foi lá que a confusão realmente estourou. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloProtesto MPL. Foto: Bárbara Libório/iG São PauloTropa de Choque se posiciona para impedir passagem de manifestantes. Foto: PM-SP/TwitterAgência da Caixa Econômica Federal depredada. Foto: PM-SP/TwitterAgência do Banco do Brasil depredada. Foto: PM-SP/TwitterMulher coloca pano no rosto para evitar bomba de gás de pimenta, nesta sexta-feira (16). Foto: Futura PressManifestantes se preparam para possível repressão policial. Foto: Futura PressFuncionários colocam tapumes nos vidros de agência da Caixa, na região central de São Paulo para prevenir possíveis danos com a passagem dos manifestantes do Movimento Pa. Foto: Futura PressProtestos artísticos nesta sexta-feira (16). Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloGrupo faz performance com bexigas de água aos gritos de "olha a água suja do Alckmin" e "olha o volume vivo". Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloCordão que antecede faixa da manifestação tem mascarados. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloManifestantes se preparam contro o spray de pimenta. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloPolícia Militar tenta evitar que manifestantes entrem na Avenida Paulista. Foto: Futura PressO trajeto planejado para essa manifestação é começar na Consolação, seguir para a Prefeitura e depois para a secretaria de transportes. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloA esquina da Av. Paulista com a Consolação é um ponto tradicional de protestos em São Paulo, como nesta sexta-feira (16). Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloO aumento das tarifas foi o estopim para as manifestações de junho de 2013 que aconteceram em todo o país. Foto: Futura PressO MPL, organizador do movimento, declarou que pretende ampliar as manifestações para a periferia da cidade (16). Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloPolícia se prepara para os protestos (16). Semana passada, sexta-feira (9), a repressão foi intensa quando os manifestantes tentaram entrar na Av. Paulista. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloAto reúne estudantes, sindicato dos metroviários e de organizações de outros setores, como professores e bancários, e os organizadores do MPL. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloMovimento se concentra antes de começar a manifestação. Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloManifestantes começam a se reunir nesta sexta-feira (16). Foto: Bárbara Libório/ iG São PauloManifestantes no segundo ato do MPL contra o aumento da tarifa do transporte público. Foto: Barbara Liborio/iG

Dificuldade semelhante tem tido o estudante de Relações Públicas Raroun D´Onófrio de Oliveira, de 22 anos, que optou por ignorar o email recebido na quinta-feira (30) por não ter interesse na carteirinha da UNE – a da faculdade já dá direito à meia-entrada em cinemas, teatros e shows. "Isso até descobrir que eles cancelaram as cotas do meu cartão atual, que eu consegui usar só por um mês e meio", diz ele. "Vou ter de me virar para conseguir ir até a faculdade para resolver isso. As filas estão gigantescas."

De acordo com Fátima Lemos, assessora técnica do Procon-SP, não cabe questionamento sobre o horário de funcionamento dos guichês para receber o novo cartão, "já que inúmeras instituições ficam abertas em horário comercial". "É preciso dar um jeito, pedir uma licença no trabalho, no estágio, conseguir uma justificativa", explica ela. Entretanto, Lemos afirma que a SPTrans agiu da "pior forma possível" ao estabelecer a mudança repentinamente, sem dar chance aos consumidores de se prepararem para a mudança.

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"Pode até ser positiva a medida [de unificar o Bilhete Único ao cartão da UNE ou UMES] pelos benefícios aos estudantes. Mas, claramente, a forma como ela foi feita criou um conflito, pois afetou diretamente no bolso das pessoas", explica. "Era importante avisá-los com 7, de preferência até 30, dias de antecedência. É preciso um prazo para fazer a mudança, divulgação na mídia, nas paredes do transporte público. Avisar da medida 24 horas antes de ela entrar em vigor não é um prazo razoável, com certeza. O consumidor tem de ter uma previsibilidade."

Em nota, a SPTrans afirma que o envio dos novos cartões, conveniados à UNE ou UMES, foi feito antecipadamente às instituições de ensino em abril para evitar que alunos ficassem sem o benefício no início do mês. "Desta forma, os alunos que ainda não receberam seus cartões e não têm cotas disponíveis no seu bilhete anterior devem procurar suas escolas ou universidades, que já estão em posse das carteiras", diz a estatal.

Sobre o convênio com a UNE e a UMES, a SPTrans afirma que ele existe desde 1994 e que, a partir de janeiro de 2015, "todos os estudantes que solicitam o Bilhete Único Escolar recebem o cartão conveniado, que também pode ser utilizado como carteira de identificação estudantil, com desconto em cinemas, teatros, espetáculos e shows, por exemplo, além das cotas de ônibus, metrô e trens".

O Procon-SP aconselha estudantes que se sentirem lesados a procurar a ouvidoria da SPTrans ou da Prefeitura para fazer suas reclamações. A fundação ainda afirma que pode haver ressarcimento, em crédito nos cartões ou em espécie, caso fique comprovado o prejuízo causado pela medida.

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