“Só segurei minha bebê quando ela já estava morta”, diz jovem baleada por PM

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo | - Atualizada às

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Jovem foi atingida na barriga e bebê morreu quatro dias após nascer; cabo ainda matou avó da criança durante discussão

Gabriela mostra cicatriz na barriga após cesárea de emergência a que foi submetida após ser baleada por PM
Ana Flavia Oliveira/iG (09.04.15)
Gabriela mostra cicatriz na barriga após cesárea de emergência a que foi submetida após ser baleada por PM

Uma das maiores dores da vida de Gabriela Rocha Leite, de 18 anos, foi não ter tido a oportunidade de segurar no colo a recém-nascida Cristiane Sofia enquanto ela estava viva. A bebê morreu quatro dias após o nascimento prematuro, com apenas seis meses de gestação.

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“Só segurei minha bebê quando ela já estava morta. Só a vi através da incubadora, só cheguei a segurar a mão dela rapidamente. Ela tinha muita dificuldade para respirar e eu não pude nem amamentar”, conta Gabriela sobre o breve contato com a filha.

A oportunidade foi tirada de Gabriela pelo cabo da Polícia Militar Gilson de Souza Teixeira, de 31 anos que, após uma discussão entre vizinhos, atirou duas vezes na jovem, que estava grávida de seis meses, e matou a sogra da moça, Jurema Cristiane Bezerra da Silva, de 39 anos, bacharel em direito e farmacêutica.  

O crime aconteceu no dia 22 de março deste ano, por volta das 18h, quando a família estava reunida na casa de Gercina Maria da Silva, de 65 anos, mãe de Jurema, no bairro Jova Rural, na zona norte de São Paulo.

Após uma discussão, o PM, que estava de folga, sacou o revólver e atirou ao menos seis vezes contra a família. Um dos tiros acertou a barriga e o outro, o rosto de Gabriela. Jurema foi ferida três vezes no peito e morreu a caminho do hospital. Outro projétil atingiu de raspão um dos cinco filhos da farmacêutica.

A pequena Cristiane Sofia nasceu depois de os médicos do hospital São Luiz Gonzaga, no Jaçanã, realizarem uma cesárea de emergência. A mãe estava desacordada durante a cirurgia e disse que só conheceu a filha horas após o parto. A menina nasceu por volta das 19h30 pesando 1.045 kg e com 37 cm.

“Ela era muito pequenininha. Eu só a via pelo vidro da incubadora. Eu tinha esperança de que ela sobrevivesse. Rezava por ela, conversava com ela. Os médicos falavam que o estado dela era muito grave”, diz Gabriela, que incluiu o Cristiane no nome da filha em homenagem à sogra.

Gabriela mostra a cicatriz no rosto . Foto: Ana Flavia Oliveira/iG (09.04.15)Gabriela mostra cicatriz na barriga após cesárea de emergência a que foi submetida após ser baleada por PM. Foto: Ana Flavia Oliveira/iG (09.04.15)Gercina Maria da Silva, de 65 anos, perdeu a filha Jurema Cristiane . Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo (09.04.15)Gercina e Gabriela querem que policial seja punido. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo (09.04.15)Jurema ao lado do filho Danilo. Ela foi atingida por três disparos no peito e morreu a caminho do hospital. Foto: Arquivo pessoalGabriela estava grávida de 6 meses. Ela passou por cesária e bebê foi salva. Foto: ReproduçãoGabriela Rocha Leite, 18 anos, antes de ser baleada no rosto. Foto: Arquivo pessoal

Quatro dias após o nascimento, a bebê teve três paradas cardíacas. Nas duas primeiras, os médicos conseguiram reanimá-la, mas a terceira foi fatal. “Eu tinha ido à Santa Casa fazer exames. Quando cheguei, não fui vê-la porque estava suja e fui dormir. Às 4h, um médico me disse que a pediatra queria conversar comigo”. Foi quando soube da morte da filha caçula – Gabriela também é mãe de um menino de 1 ano e dois meses.

Quase três semanas depois do crime, Gabriela ainda não se conforma com a perda da filha. A vontade de ser mãe novamente, no entanto, vai ter de esperar ao menos três anos, até que o ferimento na barriga cicatrize por completo. Ao todo, a jovem tomou 45 anos pontos na barriga e sete no rosto. O próximo passo do tratamento é operar o maxilar, quebrado por causa do tiro, nesta sexta-feira (10). 

Tragédia anunciada

No dia do crime, Jurema, que morava em um apartamento na Vila Clementino, na zona sul de São Paulo, estava na casa da mãe, Gercina, e preparava ovo de Páscoa para a nora, que estava com desejo de comer o doce. As mulheres ouviram o PM discutir com o marido de Gabriela, o entregador Danilo da Silva Agostinho, de 20 anos. O motivo da briga, segundo Gercina, era o mesmo desde 2013: a disputa por uma casa do CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano).

“Tenho uma neta que tem um filho com paralisia cerebral. Ela foi contemplada pela casa da CDHU. Só que a casa foi invadida pela irmã desse policial. Ela já foi intimada várias vezes e nunca compareceu, foram várias ações de despejo. Teve até reintegração de posse no final de 2013, mas ela não saiu. A partir desse dia, começou nosso calvário”, explica Gercina.

O cabo, segundo Gercina, passou a provocar todos os integrantes da família Silva, principalmente Danilo, que teria sido agredido pelo PM “duas vezes”. “Minha filha Jurema passou no batalhão onde ele trabalhava, procurou a corregedoria, que mandou ela filmar para ter prova da conduta dele”, relata Gercina.

No dia do crime, após ser alertada por Gabriela de que o filho estaria discutindo novamente com o policial, Jurema saiu com o celular em punho, seguindo a recomendação da Corregedoria da PM. 

“Ele disse que ela poderia filmar e a chamou de biscate. Depois entrou no carro e a atropelou. Então, saiu e atirou. Foram três tiros no peito dela”, relata Gercina

Apesar de Gabriela estar com o filho de um ano e dois meses no colo quando a sogra foi atingida, ela disse que nem pensou em entrar em casa. Foi quando também foi atingida.

“Um tiro entrou atrás da orelha e saiu no rosto. Não senti dor. Só senti o sangue escorrer na minha roupa. Coloquei a mão e senti o buraco no meu rosto, fiquei tonta e caí com o bebê no colo. A Gercina pegou o bebê e eu entrei no carro. Só então fui perceber que tinha sido baleada na barriga também. Comecei a gritar porque achei que meu filho também tivesse ficado ferido”, diz Gabriela. Ela diz ainda que a tragédia poderia ter sido maior se não estivesse com um celular no bolso do moletom. “Ele amorteceu a bala, senão eu também teria morrido”.

Famílias eram amigas

Moradora da mesma casa há 24 anos, Gercina diz que as duas famílias tinham boas relações. “Quando, ele entrou na PM, a mãe dele, Leide, pediu para eu dar informações sobre o filho e eu falei bem dele”. Ela ainda afirma que os filhos dela e “Gilsinho”, como ainda se refere ao PM, iam para baladas e festas juntos, e que e as famílias chegaram a alugar casas no litoral juntas para passar feriados de final de ano.

As relações mudaram, afirma, depois que ele se tornou policial, há cerca de nove anos, e pioram em 2013, com a disputa pelo imóvel. “Depois que ele pôs a farda, deu uma síndrome de poder. Ele humilhava meu neto. Mandava ele olhar para o chão, que nem faz com bandido”. Gersina relata ainda que as provocações eram constantes até mesmo com ela.

“Ele é um bandido de farda e um ladrão de vidas. Tem policial que faz curso para trazer criança ao mundo, ele impediu que um bebê viesse ao mundo de nove meses. Não desejo o que estou passando para a mãe dele”, diz Gercina.

Mãe de outros quatro filhos, Gercina diz que Jurema só dava orgulho. “Eu agradeço a Deus por ter sido mãe dela. Ela era nossa sábia, sempre foi muito estudiosa e era muito inteligente”. Formada em Direito, Jurema nunca exerceu a profissão de advogada. Ela também fez faculdade de Farmácia e tinha acabado de se formar em Odontologia. “Ela queria montar uma ONG para ajudar as pessoas carentes”, diz a mãe. Além de Danilo, Jurema era mãe Gabriel, 18 anos, Gabriele, 17 anos, Mateus, 12 anos, e Júlia, 8 anos.

Da tragédia restaram muitas lembranças, um enxoval que estava sendo preparado para receber a menina, duas cicatrizes e a gana por Justiça.

“Espero que tenha Justiça e que a PM ouça mais a população. A corregedoria tem que averiguar mais para que outras famílias não passem pelo que estamos passando”, diz Gercina

O cabo Gilson se entregou na delegacia no dia do crime e está detido no presídio Romão Gomes. O advogado dele não foi encontrado pela reportagem.

 

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