Túmulos de famosos recebem 'biografia tecnológica' no Cemitério da Consolação

Por David Shalom | - Atualizada às

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Parceria com start-up leva à instalação de QR Codes e etiquetas NFC em lápides de personalidades paulistanas

Cemitério da Consolação abriga túmulos de personalidades como o ator Paulo Goulart
Divulgação/Secretaria Municipal de Serviços
Cemitério da Consolação abriga túmulos de personalidades como o ator Paulo Goulart

"Meu sonho é que este museu a céu aberto passe a ser visto realmente desta forma. É um lugar que guarda boa parte da história de São Paulo". Mais conhecido como Popó, Francivaldo Gomes, 47 anos, se orgulha do local que administra, o Cemitério da Consolação, na região central de São Paulo. Mais do que isso, tem gosto de ver como neste início de ano obteve conquistas importantes, como o aumento da segurança na área e a instalação de novidades que fortalecem a necrópole como ponto turístico da capital paulista.

É o que propõe uma parceria entre a start-up Memoriall e o Serviço Funeral do município. Desde o início do ano, tags de aço de QR Codes (código de barras que, escaneado por um aparelho celular, leva o usuário a um endereço de internet específico) têm sido instaladas em túmulos de importantes nomes como o ator Paulo Goulart, o jornalista Cásper Líbero e o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o patriarca da República brasileira. O objetivo é reforçar a experiência de visitação oferecida pelo também guia turístico Popó, que duas vezes por semana oferece passeios gratuitos pelo local.

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"Quando o Popó faz a visitação, ele consegue passar por no máximo uns dez túmulos. Mas o número de personalidades com as quais o público pode ter contato no Consolação é mais de dez vezes maior. Com as tags, o visitante tem a oportunidade de adquirir conhecimento sobre todas elas", explica Ricardo Marques, co-fundador da Memoriall, pequena empresa responsável pela doação dos códigos ao cemitério. "A ideia é trazer as pessoas ao Consolação. Colocamos localização nas ruas, fizemos um mapa, fotografamos os túmulos. Se o visitante vai lá hoje ele se guia sozinho."

Veja fotos do Cemitério da Consolação, que viveu recente onda de furtos:

Cão de guarda rottweiller em ponto estratégico do Consolação: são seis, no total. Foto: David Shalom/iG São PauloCão no Consolação. Foto: David Shalom/iG São PauloO administrador e guia turístico do Cemitério da Consolação, Popó: alívio com fim de furtos. Foto: David Shalom/iG São PauloLiderando a lista do número de furtos em cemitérios paulistanos, o Consolação teve centenas de peças de bronze levadas em 2014; em 2015; crimes cessaram. Foto: David Shalom/iG São PauloPorta de bronze furtada de túmulo foi substituída por uma de granito. Foto: David Shalom/iG São PauloCapela que teve as janelas e os portões furtados no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São PauloOrnamentos de bronze foram substituídos por vidro temperado neste jazigo. Foto: David Shalom/iG São Paulo Funcionário caminha por entre os túmulos da área mais afetada por furtos no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São Paulo Marcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloAlguns jazigos foram tapados por funcionários de forma improvisada, com tijolos. Foto: David Shalom/iG São PauloMarcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloProvidenciado pelas famílias dos enterrados, vasos de granito têm substuído os originais de bronze, furtados nos últimos meses. Foto: David Shalom/iG São PauloBuraco sobre túmulo revela que antes havia ornamentos de bronze sobre ele. Foto: David Shalom/iG São PauloMarcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloAssim como tantos outros, jazigo que teve a porta furtada ficou aberto, com caixões à mostra. Foto: David Shalom/iG São PauloCimento tampa túmulo que teve portão de bronze furtado no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São PauloUm dos portões do cemitério, sob o qual ladrões passavam alguns dos objetos de furto. Foto: David Shalom/iG São PauloReforma improvisada de capela feita após furto de portão de centenas de quilos. Foto: David Shalom/iG São PauloComo nem todas as famílias pagaram a substituição, alguns jazigos e capelas permanecem do jeito que ficaram quando furtados. Foto: David Shalom/iG São PauloCapela que teve as janelas e os portões furtados . Foto: David Shalom/iG São PauloAssim como tantos outros, jazigo que teve a porta furtada ficou aberto, com gavetas à mostra. Foto: David Shalom/iG São PauloUma medida que se tornou comum no cemitério foi, após os furtos de portas bronze, as famílias as substituírem por outras mais simples, de granito. Foto: David Shalom/iG São Paulo Ornamentos de bronze foram substituídos por vidro temperado neste jazigo. Foto: David Shalom/iG São Paulo

Inicialmente estão previstas as instalações de tags em 110 túmulos do Consolação. E impressiona como os nomes dos enterrados no local se confundem com a própria história paulistana. Presidente do São Paulo Futebol Clube no período em que a agremiação construía o Estádio do Morumbi – posteriormente batizado com seu nome –, Cícero Pompeu de Toledo se encontra no terreno T35 da rua R04; o Conde Francisco Matarazzo, morto em 1937 na condição de homem mais rico do Brasil, no T12 da Q82; o sanitarista Emílio Ribas, criador do Instituto Butantan, no T8 da Q1A.

Popó faz brincadeira com a popularidade dos ilustres que descansam no terreno administrado por ele. "Fale o nome de alguma rua de São Paulo. Qualquer uma", desafia. "José Maria Lisboa [nome de via no bairro Jardim Paulista]? Está logo ali, terreno T10 da rua Q29. Foi eminente jornalista, fundador do 'Diário de São Paulo'. Ricardo Jaffet [nome de importante avenida no bairro do Ipiranga]? Está aqui, no terreno T12, rua R37. Foi presidente do Banco do Brasil durante o governo de Getúlio Vargas, de janeiro de 1951 a janeiro de 1953."

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Até o momento, 63 túmulos do Consolação receberam QR Codes – outros 47 devem ser instalados nos locais previstos até o mês de abril. Além das tags em aço, também serão colocadas nas lápides etiquetas NFC (Near Field Communication), que permitem abrir a biografia apenas aproximando o celular. Com a leitura, o usuário pode acessar a história do morto, ver fotos, árvore genealógica, vídeos, entre outras curiosidades.

"O perfil de cada homenageado é baseado na história existente por algumas fontes e também por informações fornecidas por familiares. Como exemplo, Olivia Guedes Penteado [criadora do Salão de Arte Moderna de São Paulo], que teve seus dados fornecidos por um sobrinho", explica o Serviço Funerário paulista. "As famílias também têm o acesso para editar o perfil e contar a história de seu ente querido."

Cão de guarda rottweiler ao lado de um dos muros do Consolação: segurança, enfim, reforçada
David Shalom/iG São Paulo
Cão de guarda rottweiler ao lado de um dos muros do Consolação: segurança, enfim, reforçada

Apesar de ser o primeiro cemitério da capital paulista a contar com a tecnologia, as tags já foram instaladas em outras necrópoles do Estado – Embu das Artes e Guarulhos – e no Rio de Janeiro. Pessoas interessadas em homenagear familiares e amigos com tags em seus túmulos ou mesmo de contar sua própria história para ser colocada na própria lápide após sua morte podem fazê-lo a partir de R$ 250.

A inspiração para a ideia foram cemitérios no Japão e na China, que já contam com a tecnologia. "Com algumas diferenças, pois também oferecemos livros sobre o falecido, além de guardarmos vídeos ou segredos para serem mostrados aos entes queridos depois do falecimento", diz Marques, da Memoriall. A ideia, agora, é transformar o projeto-piloto em ação em outros cemitérios de personalidades, como o São Paulo e o Araçá, na zona oeste paulistana.

"Nem o Père-Lachaise [uma das mais famosas necrópoles do mundo, localizada em Paris] tem essas tags ainda", se gaba Popó. "O cemitério da Consolação e a cidade de São Paulo merecem conservar e espalhar sua história."

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