Ladrões de tumba trocam de alvo após aumento de segurança em cemitério em SP

Por David Shalom , iG São Paulo |

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Após Consolação instalar câmeras e usar cachorros para evitar furtos à noite, número de casos explodiu no vizinho Araçá

O ano de 2014 viu uma onda de crimes sem precedentes nos cemitérios públicos paulistanos. Ao longo de 12 meses, 540 furtos ocorreram nos 22 sepulcrários da cidade. Ponto turístico por abrigar alguns dos mais proeminentes nomes da história de São Paulo, o Consolação sempre foi o principal alvo, repleto de adornos de bronze. Entretanto, medidas de segurança aplicadas nos primeiros dias de 2015 mudaram completamente essa realidade. Subitamente, os casos zeraram. Mas os casos não acabaram, só mudaram de local.

Uma das arborizadas alamedas do Araçá: ornamentos de tumbas estão desaparecendo do local
David Shalom/iG São Paulo
Uma das arborizadas alamedas do Araçá: ornamentos de tumbas estão desaparecendo do local

Dados do Serviço Funerário da cidade, órgão da Prefeitura responsável pela administração dos cemitérios municipais, mostram que a resolução dos furtos no Consolação somente transferiu o problema para outro sepulcrário da cidade. Se nenhum caso foi registrado no mais famoso cemitério paulistano em 2015, cerca de uma centena deles ocorreram no Araçá, a necrópole mais próxima a ele, a cerca de 2 km de distância.

"Hoje [quinta-feira, 18 de fevereiro] cheguei aqui e tinha uma estátua de bronze caída no chão e outras duas jogada ao lado do muro", conta ao iG Carlos Davi, auxiliar-administrativo do cemitério, localizado na Avenida Doutor Arnaldo, ao lado da movimentada estação de metrô Clínicas, que dá acesso ao hospital de mesmo nome. "É muito fácil entrar aqui, os muros são baixos, qualquer um pula. Desde o começo do ano não passa um fim de semana em que não tenhamos peças furtadas."

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Em pouco mais de um mês, entre os dias 1º de janeiro e 12 de fevereiro – levantamento mais recente disponibilizado pela secretaria –, 97 casos foram registrados no local (uma média de mais de 2,2 furtos por dia). A efeito de comparação, em todo o ano passado foram 64 casos no Araçá (menos de 0,1 por dia). Os novos dados superam inclusive os registrados no Consolação em sua fase mais crítica, em 2014, quando 410 peças foram furtadas – uma média de 1,1 por dia.

Assim como na necrópole vizinha, os objetos levados são dos mais variados, sempre feitos em bronze, metal que acaba vendido para ser derretido por receptadores: vasos, portões, colunas, jardineiras, portinholas, estátuas. "É lamentável, porque antes as pessoas vinham ao cemitério e tinham medo dos mortos. Hoje, o nosso temor é em relação aos vivos", lamenta Davi.

O Cemitério do Araçá, na região central paulistana, se tornou alvo preferencial de ladrões de tumbas neste ano  . Foto: David Shalom/iG São PauloAntes pouco atacado, o cemitério viu o número de furtos explodir desde janeiro. Foto: David Shalom/iG São PauloSão roubados portões, vasos, portas, placas, entre outros adornos, todos em bronze. Foto: David Shalom/iG São PauloNa imagem, concreto precisou substituir porta furtada original, feita em bronze. Foto: David Shalom/iG São PauloLocalizado em um enorme terreno de 222 mil m², o Araçá é um dos mais conhecidos cemitérios de São Paulo. Foto: David Shalom/iG São PauloEm seu terreno estão enterrados nomes como Assis Chateaubriand e a atriz Cacilda Becker. Foto: David Shalom/iG São PauloMais do que pelos nomes locais, o cemitério é conhecido pela arte em toda a sua extensão. Foto: David Shalom/iG São PauloConcreto e bronze se unem para transformar tumbas em grandes obras de arte. Foto: David Shalom/iG São PauloNa imagem, tumbas que tiveram suas portas de bronze furtadas. Foto: David Shalom/iG São PauloSegundo a própria Prefeitura, o motivo foi a migração de ladrões do Consolação para o Araçá. Foto: David Shalom/iG São PauloHouve grande reforço na segurança do cemitério vizinho, mas não no Araçá. Foto: David Shalom/iG São PauloLadrões se escondem facilmente em sua ampla área arborizada. Foto: David Shalom/iG São PauloAs grades dos muros, como pode ser vistas na imagem, são baixas, podendo ser facilmente puladas . Foto: David Shalom/iG São PauloPorta de tumba foi furtada ao lado da grade que dá acesso à Av. Doutor Arnaldo. Foto: David Shalom/iG São PauloUma única viatura da Guarda Civil Metropolitana faz sua segurança à noite. Foto: David Shalom/iG São PauloAdministradores do cemitério dizem que as rondas da GCM são insuficientes. Foto: David Shalom/iG São PauloCasos têm aumentado muito em 2015. Foto: David Shalom/iG São PauloForam 97 ocorrências em pouco mais de um mês no Araçá. Foto: David Shalom/iG São PauloNa imagem, tumbas que foram alvo de ladrões. Foto: David Shalom/iG São PauloO Cemitério do Araçá: um dos mais imponentes de São Paulo. Foto: David Shalom/iG São PauloTumbas furtadas no Araçá. Foto: David Shalom/iG São PauloMotivo para aumento de furtos foi melhora na segurança do Consolação (foto), cemitério quase vizinho ao Araçá. Foto: David Shalom/iG São PauloSeis cães, como o rottweiler da foto, têm feito a guarda do Consolação à noite. Foto: David Shalom/iG São PauloCães da raça rottweiler podem chegar a 60 kg e têm intimidado novas invasões. Foto: David Shalom/iG São PauloCão rottweiler pouco depois do fechamento do cemitério, quando inicia sua guarda. Foto: David Shalom/iG São PauloEspalhadas pelo Cemitério da Consolação, placas têm impedido novas invasões. Foto: David Shalom/iG São PauloEspalhadas pelo Cemitério da Consolação, placas têm impedido novas invasões. Foto: David Shalom/iG São PauloO administrador e guia local Popó: "se não cuidarem das tumbas, que histórias poderei contar?". Foto: David Shalom/iG São PauloTela exibe imagens de quatro das seis câmeras instaladas no Consolação em janeiro. Foto: David Shalom/iG São Paulo

Cachorrada 
A solução adotada pelo Serviço Funerário para acabar com os furtos no Consolação foi aquela que já é usada há tempos por cemitérios particulares da cidade: câmeras de vigilância interna e cães de guarda.

No último dia 5 de janeiro, seis cachorros de grande porte – das raças fila, pastor alemão e rottweiler, estes últimos com peso médio entre 50 e 60 kg – chegaram ao cemitério. Ao longo do dia, os animais permanecem em barracos cobertos com 1x4 metros, na parte sul da necrópole. A partir das 18h, são colocados em áreas estratégicas por onde invasores costumavam entrar no local para realizar furtos, ao lado de muros baixos e outros acessos. Ao mesmo tempo, foram instaladas seis câmeras de segurança espalhadas pelos 76.340 m² do terreno.

"Se não tivessem colocado os cachorros aqui, continuaríamos tendo furtos todos os dias. E eu acabaria ficando sem histórias para contar aos curiosos que vêm para cá para conhecer um pouco melhor sobre a cidade de São Paulo", afirma Francivaldo Gomes, o Popó, 47 anos, administrador do Cemitério da Consolação, onde duas vezes por semana também atua como guia turístico, falando sobre as vidas dos personagens enterrados no local. Enquanto ele conversava com a reportagem, um senhor de cerca de 70 anos instalava na tumba de sua família um novo tampão, dois anos após o furto do original, de bronze.

"O pessoal que entrava aqui é tudo da cracolândia, vinha aqui de dia me fazer ameaça. Mas esses ladrões são ligeiros. Tanto que, depois de termos instalado placas avisando sobre a presença de cães de guarda aqui, ninguém mais pulou o muro. Ficou uma maravilha."

Um dos cães da raça rottweiler do Consolação: depois que eles chegaram não houve mais furtos
David Shalom/iG São Paulo
Um dos cães da raça rottweiler do Consolação: depois que eles chegaram não houve mais furtos

Segundo a Guarda Civil Metropolitana, desde o ano passado agentes já faziam rondas ao longo da noite no local. Entretanto, em um cemitério grande, mal iluminado, com diversos pontos vulneráveis para invasão, tal método nunca impediu os furtos, que só foram crescendo nos últimos meses de 2014. "Se o cara estiver levando uma peça do outro lado do terreno, não dá para vê-lo ou ouvi-lo. É um espaço muito amplo para ser guardado por uma dupla de agentes", comenta uma guarda civil, que não se identificou à reportagem.

Complicações
A presença da GCM também é uma realidade no Cemitério do Araçá, mas lá a situação é ainda mais complicada do que a de seu "vizinho". A começar pelo tamanho do terreno: com 222 mil m², o sepulcrário é quase o triplo do Consolação. Assim, mesmo com uma viatura rondando o local ao longo da noite, é praticamente impossível flagrar alguém em seu interior no escuro. Além disso, acessar as tumbas após o fechamento do cemitério é tarefa das mais simples – em alguns pontos, como ao lado do Metrô Clínicas, as grades de proteção não passam de 1,5 metro de altura – e até hoje não existem câmeras internas por ali.

"Trabalho há 40 anos aqui e nunca vi tanta ousadia dos criminosos. Em 1993, 1994 levavam de vez em quando alguma plaquinha. Agora eles furtam portões enormes, que não sei nem como conseguem arrastar para o lado de fora", diz o auxiliar-administrativo do Araçá, Carlos Davi, 62 anos. "Não há sequer uma câmera interna, um sensor de movimento. É chato para todo mundo, para a família e para os funcionários, porque queira ou não somos nós que comunicamos aos parentes quando algo acontece."

O Serviço Funerário do Município de São Paulo afirma que tem estudado a melhor forma de aumentar a segurança nos cemitérios da cidade. "A princípio, pediu-se um aumento das rondas da GCM e iluminou-se o cemitério da Consolação nos pontos onde existiam postes que há anos tinham as lâmpadas queimadas ou cujos fios haviam sido furtados. Como tais medidas foram insuficientes para inibir os furtos, pensou-se na instalação de lâmpadas com sensores de presença", disse em nota.

Viatura da Guarda Civil Metropolitana no Araçá: uma é pouco para o terreno de 222 mil m²
David Shalom/iG São Paulo
Viatura da Guarda Civil Metropolitana no Araçá: uma é pouco para o terreno de 222 mil m²

"No entanto, por possuírem extensas áreas arborizadas, o próprio movimento dos ramos de vegetação, pela ação do vento, poderia disparar as lâmpadas com sensores de presença. Conclui-se, assim, que o caminho mais viável seria a colocação de cães de guarda nas necrópoles, associada a algumas câmeras de segurança instaladas em locais estratégicos, que poderão ser monitoradas na tela do computador."

O órgão municipal ainda afirma que a inserção de cães para vigiar o Consolação é um projeto-piloto, mas que, por ter se mostrado eficiente, deve vir a ser aplicado em outros cemitérios da cidade, como o próprio Araçá e o São Paulo, conhecidos pelo grande número de adornos em suas tumbas. É o que dá esperança aos funcionários do sepulcrário, onde estão enterradas personalidades do porte do empresário Assis Chateaubriand, da atriz Cacilda Becker e do cardiologista Adib Jatene.

"Sinceramente, achei que não fossem fazer nada. Mas agora que colocaram os cachorros aqui no nosso vizinho, passei a acreditar um pouco mais. Vamos aguardar", sorri Carlos Davi.

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