"Pagamos até hoje preço por morte de calouro", diz presidente de atlética na USP

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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CPI que investiga violência em universidades já ouviu relatos de estudantes afirmando terem sido estupradas por colegas

Responsável por presidir a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre as violações de direitos humanos nas faculdades paulistas, o deputado estadual Adriano Diogo (PT) perdeu a paciência mais de uma vez durante os depoimentos realizados na Assembleia Legislativa de São Paulo nesta quarta-feira (28).

Primeiro, pela ausência de quatro dos seis convocados da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC, da Faculdade de Medicina da USP) para depor – o que o deputado chamou de "afronta ao Legislativo", "uma obstrução aos trabalhos da comissão". "Isso cria uma dificuldade enorme, desmoraliza nosso trabalho. Temos até 15 de março para definir esta CPI e vamos continuar convidando depoentes, sem coerção, com democracia. Mas é preciso comparecer e colaborar", lamentou.

Deputado Adriano Diogo questiona Rafael Silva, ex-tesoureiro da atlética da Medicina da USP
David Shalom/iG São Paulo
Deputado Adriano Diogo questiona Rafael Silva, ex-tesoureiro da atlética da Medicina da USP




Pouco depois, a paciência do legislador voltou a ser perdida: desta vez, quando a comissão entrou no assunto da morte do jovem estudante Edison Tsung Chi Hsueh, cujo corpo foi encontrado na piscina da atlética em 1999, o que deu vazão a uma mudança brusca na percepção da sociedade em relação a trotes e festas universitárias. Até hoje o caso não foi esclarecido.

Amigo da familia do estudante morto, o legislador se indignou no momento em que o atual presidente da atlética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Diego Vinicius Santinelli Pestana, e o tesoureiro da instituição em 2011, Rafael Kaerian Silva, lamentaram o fato de a morte ter prejudicado sobremaneira a AAAOC, inclusive no que diz respeito aos lucros de seus representantes.

"Infelizmente estamos pagando o preço pela tragédia de mais de dez anos atrás até hoje", disse Diego, 23 anos. "Depois daquilo, nenhuma empresa quis mais nos apoiar. Os patrocínios, quando vêm, são irrisórios", completou Rafael, 24.

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O deputado, então, subiu o tom de voz. Enumerou e exibiu em vídeo alguns dos gritos de guerra praticados pela atlética, de conteúdo sexual, apologia ao álcool e ao consumo de drogas e até com chacotas em relação à morte de Edison. Chegou a dar como encerradas suas perguntas, alegando ter ficado "enjoado" com o posicionamento dos depoentes.

trote CPI. Foto: Último SegundoDeputado Adriano Diogo, presidente da CPI que investiga quebra de direitos humanos em faculdades paulistas, e o presidente da Atlética da Medicina da USP, Diego Pestana. Foto: David Shalom/iG São PauloAo centro deputado Adriano Diogo, presidente da comissão de direitos humanos da Alesp, ao lado de Diego (à esquerda) e Rafael Silva, tesoureiro AAAOC em 2011. Foto: David Shalom/iG São PauloRafael Silva, presidente da Atlética da Medicina USP, depõe na CPI. Foto: David Shalom/iG São PauloImagem do Facebook sobre o trote. Foto: David Shalom/iG São PauloDeputado Adriano Diogo chegou a perder a paciência durante sessão. Foto: David Shalom/iG São PauloDeputado Adriano Diogo (PT). Foto: David Shalom/iG São PauloDiego, de 23 anos, tesoureiro da faculdade e a deputada Sara Munhoz. Foto: David Shalom/iG São PauloO deputado Adriano Diogo, presidente da CPI, e Diego Pestana, presidente da Atlética da Faculdade de Medicina da USP. Foto: David Shalom/iG São Paulo

"Este caso foi jogado para baixo do tapete, vocês sabem disso, não é? Então respeitem o falecido, que tem uma mãe que sofre com isso até hoje", atacou o parlamentar. "Nunca mais digam que a morte do Edison, um jovem inocente, atrapalhou seus lucros."

A canção em questão chama-se "Pacto 87" e sugere a formação de um acordo entre os estudantes da Medicina para não falarem sobre o que ocorreu na noite em que o calouro morreu, em festa organizada pela atlética. A suspeita é que ele tenha sido afogado na piscina local.

"Mundinho mágico"
O ambiente era negativo desde o início das sessões desta quarta-feira. Após ouvir nas últimas semanas as denúncias de alunos e ex-alunos da universidade, que relataram casos de estupro e de bebida adulterada em festas e de humilhações e agressões físicas em trotes, era a vez dos responsáveis pela atlética esclarecerem o que de fato ocorria na Faculdade de Medicina da USP, localizada na zona oeste de São Paulo. No entanto, pelo segundo dia consecutivo, a sessão foi marcada por ausências.

Na terça-feira (27), nenhum dos convocados compareceu. Nesta quarta, a coisa foi um pouco melhor, mas não exatamente positiva. Dos seis depoentes previstos, apenas dois se fizeram presentes: o atual presidente da AAAOC, Pestana, e o tesoureiro da atlética em 2011, Kaerian. A defesa da instituição alegou que as ausências foram devido ao período de férias escolares e pelo fato de os convites terem sido feitos por email ou Facebook, o que teria levado alguns a não tê-los visto a tempo.

"Todos foram chamados pessoalmente, por meio de documento entregue em suas residências", rebateu o deputado Diogo. "É intencional a CPI ser realizada nesta época do ano pois acendemos a luz exatamente no momento da recepção dos calouros para evitarmos a barbárie comum a esses eventos."

Também foi claro motivo de irritação ao deputado as evasivas dos dois depoentes desta quarta-feira, que fugiram de respostas e minimizaram pontos como as letras de alguns dos gritos de guerra da atlética. Ele exibiu, ao final da sessão, a troca de mensagens que alunos da universidade postaram em bate-papo ao longo dos depoimentos desta quarta, muitos ofensivos em relação ao conteúdo da CPI. 

Apesar de alegar nunca ter presenciado abusos em trotes e festas, o presidente da AAAOC garantiu que não estão previstas celebrações – são ao menos duas ao ano, uma a cada semestre, que chegam a arrecadar R$ 600 mil cada, segundo dados coletados pela CPI – enquanto não houver melhora na segurança da atlética. Entre as denúncias, está aquela em que barracas, chamadas por alunos de "cafofos", tinham acesso facilitado por seguranças para serem usadas para sexo, inclusive com prostitutas e alunas – sem o consentimento das mesmas.

"A maior punição desta CPI é a exposição pública", disse o deputado. "Nas sindicâncias abertas pela universidade os casos são sempre abafados, porque, do contrário, muitos alunos não conseguiriam se formar em medicina. Mas são práticas medievais de tortura e violência que fazem parte do cotidiano acadêmico e têm de ser mudadas. Esses alunos têm de sair deste mundinho mágico em que se pode tudo e se inserirem nas regras da sociedade."

Demissão suspeita

Professora Ana Lucia Pastore Scritzmeyer com deputado Adriano Diogo
David Shalom/iG São Paulo
Professora Ana Lucia Pastore Scritzmeyer com deputado Adriano Diogo

Os depoimentos naturalmente serviram para conhecer o posicionamento de alguns dos integrantes dessas atléticas em relação a práticas abomináveis em trotes e festas. Mas quem aprofundou os motivos para a Faculdade de Medicina ter chegado ao ponto atual foi uma docente da própria USP, contratada para ser a superintendente de segurança da universidade no ano passado.

Professora do Departamento de Antropologia, Lucia Pastore Schritzmeyer assumiu o cargo em abril, a pedido do próprio reitor da USP, Marco Antônio Zago. No entanto, após retornar de um curto período de férias, na semana passada, ela foi demitida pelo chefe de gabinete da reitoria, com justificativas evasivas que a fizeram chegar à conclusão de que o objetivo de Zago e de seus pares era calá-la. 

"Quando começaram as denúncias, por eu ter feito trabalhos falando de estupro e ser mulher, me sensibilizei muito", disse a docente. "Sempre alertei a reitoria para que os casos fossem investigados. Me assustava, como superintendente, saber que muitas faculdades da USP têm segurança própria, que só responde à diretoria."

A referência é ao "quadrilátero" da universidade, que inclui unidades voltadas à Saúde e ao Direito, afastadas da Cidade Universitária, no bairro do Butantã. Schritzmeyer afirma ter inclusive recebido um pedido do diretor da Faculdade de Medicina para falar com a reitoria sobre o tema, uma demonstração da preocupação da própria unidade com o descontrole de sua segurança. Mas a docente acabou quebrando a cara.

"A Medicina é a unidade mais blindada de todas, é impossível trabalhar lá. Falei ao reitor sobre a situação, que precisávamos investigar os casos de violência, mas ele me disse, desta forma: 'O problema é do diretor, ele que resolva'. Me choquei com isso", contou a professora, substituída no cargo por um docente da Faculdade de Veterinária, "escolha estranha", conforme avaliou. "Na época não dei valor àquela conversa com o reitor. Hoje percebo: ela acabou sendo decisiva para a minha exoneração."

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