Médico e herdeiro do Itaú: Kalil simboliza falta de credibilidade na Santa Casa

Por Anderson Passos - iG São Paulo |

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Pediatra José Luiz Egydio Setúbal, que comanda o Hospital Infantil Sabará, pede o afastamento do provedor atual

O pediatra José Luiz Egydio Setúbal é herdeiro do Itaú e presidente da fundação que administra o Hospital Infantil Sabará, que é referência em São Paulo. Homem de múltiplos afazeres, nada o aborrece mais do que a situação atual da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, da qual é integrante, que se vê atolada em uma dívida de quase R$ 800 milhões.

O pediatra admitiu que pode ajudar a salvar a Santa Casa, mas que vai impor condições
Divulgação
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Setúbal foi o candidato de oposição a Kalil Rocha Abdalla e acabou derrotado na eleição de abril do ano passado. Desde a campanha, alertava para a gravidade de problemas financeiros e de gestão da entidade.

“Tudo o que falei que aconteceria, aconteceu. Não porque eu tenha um dom de vidência, mas porque era claro que iria acontecer. O doutor Kalil simboliza tudo isso, porque ele está como provedor há sete anos. Ele vem tomando conta de várias coisas que têm se mostrado pontos de corrupção e de má gestão”, diz José Luiz Setúbal.

Nesta quinta-feira (8), a Santa Casa pagou parte dos salários de dezembro. Ainda não há previsão de quando a Caixa Econômica Federal irá liberar os R$ 44 milhões pedidos pela entidade tendo como garantia um imóvel na Avenida Paulista, o maior centro financeiro da América Latina.

Mesmo que esse dinheiro seja liberado, a reação não é de entusiasmo pelo pediatra, já que só conseguiria manter os salários em dia na instuição por dois meses. Só a folha de pagamento mensal da Santa Casa tem um custo mensal de R$ 24 milhões. 

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A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é formada por 500 voluntários, das quais 50 formam o conselho de administração liderado pelo provedor.  

Leia abaixo a entrevista:

iG - O senhor, no ano passado, escreveu um artigo logo após o fechamento da emergência da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo no qual convocava o conjunto da sociedade a atuar para solucionar os problemas da instituição. De lá para cá, o senhor assistiu a algum progresso?

José Luiz Egydio Setúbal – Muita gente se mobilizou. O corpo clínico, os médicos, os funcionários se mobilizaram. Mas isso não é consequência do que escrevi. Até porque o que escrevi é que essa mobilização precisava ser feita em três níveis. Um era o nível que acho que não se mobilizou,que era o da Irmandade. Os membros da Irmandade se mobilizaram pouco. Os membros do corpo clínico e os funcionários se mobilizaram principalmente depois que apertou o bolso. Agora, os outros segmentos que acho imprescindíveis para a recuperação da Santa Casa, que são o governo e a sociedade, não se mobilizaram. Posso falar isso tranquilamente porque falei para ele pessoalmente. Não se mobilizaram por causa da presença do doutor Kalil ainda na provedoria. O problema da Santa Casa para o início de uma recuperação é a falta de credibilidade das pessoas que lá estão. A sociedade não se movimentará enquanto não tiver segurança de que há gente séria tomando conta.

iG - O que personaliza essa falta de credibilidade que a Santa Casa atravessa hoje?

José Luiz Egydio Setúbal – Converso sobre a Santa Casa e sobre o Brasil e as pessoas, em geral, estão muito desanimadas. No caso específico da Santa Casa, infelizmente falo com o coração doendo e triste, tudo o que falei que aconteceria, aconteceu. Não porque tenha um dom de vidência, mas porque era claro que iria acontecer. Há má gestão, há sinais de corrupção. O doutor Kalil simboliza tudo isso porque ele está como provedor há sete anos, ele vem na instituição tomando conta de várias coisas que têm se mostrado pontos de corrupção e de má gestão. Ele simboliza isso: a falta de credibilidade. Ele pode até não estar pessoalmente envolvido, tomava conta. É difícil você separar.

iG - O senhor ainda integra a Irmandade? A primeira impressão é de que o provedor centraliza as decisões.  

José Luiz Egydio Setúbal – Fiz parte do Conselho de Administração da Mesa Administrativa durante seis anos. E realmente as informações solicitadas por muitos desses conselheiros não foram dadas. Durante minha campanha, sempre falei que a Santa Casa era uma caixa preta. O provedor não tem uma função administrativa profissional. Quem cuida da parte profissional é a superintendência. A parte profissional é formada pelos diretores e superintendentes, por toda a parte que toma conta da operação da Irmandade seja na parte do hospital, das escolas, do patrimônio imobiliário, etc. O problema todo está na parte administrativa e no que a gente chama de provedoria. O provedor e os mordomos, os diretores de algumas áreas. 

iG - O senhor teve contato com documentos referentes à contabilidade da Santa Casa? Eles já mostravam esse quadro de grave crise financeira?  

José Luiz Egydio Setúbal – As contas da Santa Casa são auditadas por uma grande auditoria externa, das quatro grandes do Brasil, do mundo até. Agora, a auditoria audita os números que são entregues. E a Irmandade, a comunidade da Santa Casa, aprova as contas baseada no que foi auditado, porque não existe uma prestação de contas maior.

iG – A Santa Casa pediu empréstimo de R$ 44 milhões à Caixa Econômica Federal para saldar dívidas com funcionários e fornecedores. Na medida em que esses empréstimos são feitos, a saúde financeira da Santa Casa não fica mais debilitada? Outra alternativa seria possível?

José Luiz Egydio Setúbal – Minha preocupação como membro da Irmandade é pela preservação e sobrevivência da instituição. No plano que nós tínhamos, a recuperação da Santa Casa era baseada em três pontos. Um era a adoção de um modelo de governança mais moderno. O segundo seria a rediscussão de todos os contratos que eram mantidos com a Santa Casa. Entregar as OSs [Organizações Sociais] que não eram rentáveis [em novembro passado, a Santa Casa deixou de administrar o Pronto Socorro do Juquery, em Franco da Rocha, por exemplo]. Muitas das OSs, a Santa Casa pagava para funcionar. Então tinha alguma coisa errada. A terceira coisa era o envolvimento da sociedade civil. A Santa Casa capta pouco dinheiro da sociedade. O Graac [Grupo de Apoio ao Adolescente à Criança com Câncer] aqui em São Paulo capta por ano quase R$ 40 milhões. O Pequeno Príncipe, de Curitiba (PR), arrecada entre R$ 25 milhões e 30 milhões. O Einstein arrecada R$ 100 milhões. Quer dizer, uma instituição como a Santa Casa, com o passado que ela tem, com os benefícios que ela traz à sociedade, poderia usar um pouco de sua importância para arrecadar. Isso é fruto da falta de credibilidade que existe na instituição.

iG – Esse projeto seria viável hoje?

José Luiz Egydio Setúbal – De abril pra cá, a situação se deteriorou muito. Hoje em dia  não sei como seria a viabilidade, porque me parece que a dívida aumentou e a receita diminuiu.

iG – Quantos imóveis a Santa Casa tem e quem são os inquilinos?

José Luiz Egydio Setúbal – Tem mais de 700 imóveis, 730. Sendo que uns cento e vinte e poucos não estão alugados. Entre esses imóveis tem de imóveis bons a imóveis péssimos. Na análise que a gente fez, nos últimos dez anos, a entrada de dinheiro vinda dos imóveis era abaixo da inflação, sendo que o preço de aluguel dos imóveis nesse período aumentou muito na cidade de São Paulo. Me parece que aí tinha algum problema de gestão imobiliária, que era feita pelo doutor Kalil. Ele pessoalmente cuidava disso.

iG – Não seria o caso de se desfazer de alguns deles para pagar as dívidas da Irmandade? Ou o ajuste nos contratos de aluguel seria suficiente para render recursos?

José Luiz Egydio Setúbal – Boa parte é ocupada pela própria Santa Casa, como escritórios administrativos e o próprio hospital. O grande imóvel da Santa Casa é o hospital ali no Largo do Arouche. Não dá para se desfazer dele. Até acho temerário alguém aceitar o patrimônio imobiliário da Santa Casa como garantia. Para entender essa questão dos imóveis, você tem de entender a origem da Santa Casa, que é uma instituição de mais ou menos 450 anos. É uma instituição filantrópica não necessariamente voltada para a saúde. No início, não fazia saúde. A Santa Casa tem um hospital em São Paulo desde 1750 mais ou menos. E ela fazia atendimento das pessoas mais carentes gratuitamente até 1988. Atendia de graça e recebia muito pouco do governo. As pessoas doavam imóveis, doavam dinheiro para que ela fizesse esse atendimento gratuito. A partir de 1988, a Santa Casa passou a oferecer o serviço ao SUS [Sistema Único de Saúde]. O SUS subfinancia isso. E esses imóveis seriam para cobrir o buraco. O que eu acho? A Santa Casa pode vender os imóveis para pagar a dívida. Não sei se é a melhor solução. Você vende um imóvel para pagar a folha de dezembro, o 13º salário, talvez janeiro, alguma coisa com R$ 40 milhões. E fevereiro? Você vai vender outro imóvel para pagar a conta? O governo fez, em parte, a parte dele. A sociedade não fez a parte dela porque não acredita em quem está lá. A crise de credibilidade faz com que a falta de dinheiro piore.

iG – Recentemente, um fornecedor de medicamentos e a empresa terceirizada responsável pela limpeza descontinuaram seus contratos com a Santa Casa. Qual sua avaliação a respeito?

José Luiz Egydio Setúbal – São os dois maiores fornecedores da Santa Casa. As pessoas criticam muito. Não estou aqui para defender ninguém. Na minha análise, era bem administrada. A empresa que está lá vendendo medicamentos entrou antes de eu fazer parte da mesa administrativa. Conheço duas pessoas que, há dez anos, saíram de uma instituição aqui de São Paulo – aposentadas – e foram fazer um trabalho de recuperação da Santa Casa. Levantaram [dados] e fizeram algumas propostas de mudanças. Dentre elas estavam as terceirizações. E uma delas me falou o seguinte: “Quando a gente estava lá fazendo a análise, a Santa Casa, por um remédio que eu comprava por R$ 20, pagava R$ 25. Não porque tinha falcatrua, mas porque ela era conhecida no mercado por não pagar".

iG – Se a terceirização não é o problema, quais seriam?

José Luiz Egydio Setúbal – O problema não está em terceirizar. É em você não controlar o terceirizado. Você compra o medicamento, eles põem a Novalgina de R$ 2 a R$ 50 [fato realmente ocorrido e investigado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo].

iG – Nossa reportagem acompanhou um turno na Santa Casa e os banheiros estavam impraticáveis. Encontramos apenas dois servidores da limpeza, que fugiram da reportagem. Eles cumpriam aviso prévio. A maioria não foi trabalhar.

José Luiz Egydio Setúbal – Pega um funcionário de limpeza. Não sei qual o salário dele. Deve ser um pouco mais que um salário mínimo.  Ele não recebeu, ou recebeu porque a empresa demitiu. A empresa não está recebendo e tem uma dívida enorme. O cara tem de ser muito idealista. Não culpo. É vítima. Os médicos também são penalizados, mas eles estão na Santa Casa muito por idealismo, porque em qualquer outro lugar eles mais. Estão lá porque gostam da instituição, porque têm vínculo acadêmico. Esse médico pode até sofrer, mas tem outros empregos.

iG – O senhor percebe uma movimentação política para afastar em definitivo o doutor Kalil Rocha Abdalla da provedoria da Santa Casa?

José Luiz Egydio Setúbal – No dia 20 [de dezembro de 2014], o doutor Kalil esteve em meu escritório. Falei que, se ele tivesse amor à instituição, precisava se afastar. Essas pessoas que foram eleitas em abril não têm o direito de alegar que não sabiam. Foi avisado, foi mostrado claramente para eles que ia acontecer. A situação está tão deteriorada, os problemas são tão grandes, que dificilmente alguém, se não tiver garantias, vai assumir. Se não houver uma mobilização da sociedade, das esferas políticas, para uma solução que garanta a sobrevivência da instituição, ela vai fechar. Fecha a Irmandade, fecha a Santa Casa. 

iG – Que soluções o governo pode oferecer à Santa Casa?

José Luiz Egydio Setúbal – Uma solução de consenso. Como se fosse um pacto. Conversando com um advogado, ele me disse que a ideia seria como a administração de uma massa falida. Cinco ou seis pessoas com grande credibilidade na sociedade e no governo, nas esferas políticas e dentro da Irmandade. Você tem de ter uma liderança capaz de motivar a continuar se mexendo para sobreviver. Por que não ajudar uma instituição em um plano de recuperação? Se as pessoas ajudam o Albert Einstein, o Sírio-Libanês, a Beneficência Portuguesa e outras, por que não ajudar também a Santa Casa?  

iG – O senhor toparia esse desafio?

José Luiz Egydio Setúbal – Tenho vontade. Mas, às vezes, é preciso separar um pouco a paixão da razão. Falei para o secretário da Saúde: não irei lá para apagar a luz, trancar a porta e por uma placa 'vende-se'.

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