Paulistano trabalha 4h a mais por mês para pagar nova tarifa de transporte

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Trabalhador que recebe R$ 788 terá de trabalhar 2h08 por dia para pagar tarifa; em dezembro, era 1h59

Protesto de sexta (9) foi o primeiro contra o aumento da tarifa para R$ 3,50
iG/Bárbara Libório
Protesto de sexta (9) foi o primeiro contra o aumento da tarifa para R$ 3,50

Com o novo valor das tarifas de ônibus, metrô e trem a R$ 3,50, o paulistano que recebe salário mínimo terá de trabalhar nove minutos a mais por dia para pagar a passagem do que trabalhava em dezembro do ano passado, quando a condução custava R$ 3.

De acordo com cálculos feitos pelo iG, um trabalhador hipotético que recebe salário mínimo, atualmente em R$ 788, utiliza duas conduções diárias (ida e volta) e trabalha 22 dias por mês, em oito horas diárias, terá de trabalhar 2h08 minutos por dia para pagar o transporte. Com isso, no mês, serão necessárias 64 horas para pagar a tarifa ou oito dias de trabalho.

O cálculo acima considera os trabalhadores que arcam com as próprias despesas de transporte. Os empregados com contrato CLT remunerados com o salário mínimo recebem o vale-transporte da empresa em que trabalham.

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Em dezembro passado, com as mesmas condições de trabalho, mas com a passagem a R$ 3 e o salário mínimo a R$ 678, o peso das tarifas fazia o paulistano trabalhar 1h59 minutos por dia para pagar o transporte, ou seja, 60 horas por mês ou 7 dias e meio.

José Silvestre, coordenador de relações sindicais do Dieese, lembra que as famílias de baixa renda acabam sendo as mais afetadas pelo recente aumento, pois os gastos com transportes, habitação e alimentação são os itens que mais pesam no orçamento.

 “O impacto da condução é alto. Considerando que este trabalhador [que ganha salário mínimo] utilize apenas duas passagens, o transporte a R$ 3,50 compromete 19,54% do salário mínimo bruto. Se ele tivesse um comprometimento menor, poderia ter acesso a mais itens, como lazer, cultura, vestuário e calçados”.

Em dezembro, antes do aumento da passagem e do mínimo, o comprometimento era de 18,23% do salário.

O economista Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), pondera, no entanto, que o gasto a mais com o transporte não é o único problema para o trabalhador.

“Não é só o aumento da condução que impacta o bolso do trabalhador. Tem uma série de custos adicionais subindo. É a taxa de juros mais alta, o aumento na conta de luz, com as novas regras de cobrança, é o IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano] de São Paulo que terá aumento. Isoladamente, o aumento do transporte significaria apenas um aperto de cinto em outras áreas, mas não seria problema porque também teve um aumento salarial que deixa tudo quase empatado, mas se junta todo esse conjunto de gastos, as pessoas ficam mais pobres”.

Tarifa zero para estudantes

Manifestantes são detidos em manifestação do MPL contra o aumento da tarifa em São Paulo
Fernando Zamora/Futura Press
Manifestantes são detidos em manifestação do MPL contra o aumento da tarifa em São Paulo

O aumento foi anunciado em dezembro do ano passado e começou a valer na última terça-feira (6). Para amenizar o impacto do aumento, a Prefeitura de São Paulo anunciou o passe livre para estudantes de baixa renda. A decisão vai beneficiar 505 mil estudantes. Além disso, a prefeitura também informou que os bilhetes nas categorias mensal, semanal e diária não sofrerão alterações no valor. Um projeto parecido do governo do Estado parado na Assembleia Legislativa de São Paulo devido ao recesso dos deputados deverá ser votado após o dia 2 de fevereiro. Assim como a municipal, a proposta prevê gratuidade para estudantes de escolas e universidades públicas e de universidades particulares que tenham bolsa de estudos.

Apesar das medidas, a exemplo do que aconteceu em junho de 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) já realizou os primeiros atos contra o aumento de R$ 0,50 das tarifas na capital paulista. Depois de um hiato de cerca de seis meses, o primeiro ato do MPL foi uma aula pública na última segunda-feira (5), que reuniu 350 pessoas. Na ocasião, o ex-secretário dos Transportes da capital Lucio Gregori, um dos idealizadores do projeto da tarifa zero no governo de Luiza Erundina (1989-1993), afirmou que uma das maneiras para se alcançar a maior bandeira do grupo é diminuir o lucro dos empresários.

A primeira manifestação aconteceu nesta sexta-feira (9) e reuniu duas mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Os manifestantes caminharam do Theatro Municipal, na região central, e tentavam chegar à avenida Paulista quando começou o conflito com a polícia.

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A polícia usou bomba de gás lacrimogênio e balas de borracha. Ao fim do protesto, 51 haviam sido detidas. O MPL divulgou nota afirmando que a PM reprimiu o ato de forma violenta e “que lançou bombas de gás, bombas de estilhaço mutilante e atirou com balas de borracha para impedir que a marcha chegasse à Avenida Paulista”.

Veja fotos do protesto desta sexta-feira:

Pichação feita por manifestantes do MPL no Monumento às Bandeiras, símbolo paulistano, nesta quinta-feira (29). Foto: Leonardo Benassatto/Futura PressAgredido por black blocs, fotógrafo Gustavo Gerchmann teve seu equipamento destruído no final do protesto do MPL de quinta-feira, 29 de janeiro. Foto: Leonardo Benassatto/Futura PressMonumento às Bandeiras com pichações feitas por militantes do MPL ao final do protesto desta quinta-feira (29) em SP. Foto: Twitter/ReproduçãoManifestantes se erguem sobre Monumento às Bandeiras, um dos símbolos paulistanos, nesta quinta. Foto: Leonardo Benassatto/Futura PressSexto ato de 2015 do MPL atraiu cerca de mil pessoas, nesta quinta-feira (29); muitos estavam mascarados. Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasImagem da assembleia que decidiu o trajeto do ato, nesta quinta-feira (29), no vão livre do Masp. Foto: Facebook/ReproduçãoCatraca que manifestantes levaram à residência do prefeito Haddad, pela qual passaram em frente. Foto: Facebook/ReproduçãoMPL exige o passe livre nos transportes públicos paulistas. Foto: Facebook/ReproduçãoTroféu-catraca no início do ato de quinta-feira (29). Foto: Facebook/ReproduçãoPoliciais reforçam segurança na Avenida Paulista, na quinta-feira (29). Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasManifestantes no ato que passou pela Paulista, 23 de Maio e terminou em frente à Assembleia Legislativa paulista. Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasPoliciais fazem cordão de isolamento na Paulista, na quinta-feira (29). Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasIdoso se junta a jovens no protesto de quinta-feira (29) pela tarifa zero. Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasA PM afirma que cerca de 40 manifestantes eram black blocs, com escudos e paus como armas. Foto: Rafael Neddermeyer/fotos públicasManifestantes no início do ato de terça-feira (27), o quinto do MPL em São Paulo em 2015. Foto: Raul Duarte/iG São Pauloato do mpl - 27 de janeiro. Foto: Fernando Zamora/Futura PressPoliciais militares fazem cordão de isolamento no Largo da Batata, nesta terça-feira (27). Foto: Fernando Zamora/Futura PressMais uma vez, protesto do MPL acabou em confronto, nesta sexta-feira, em São Paulo; ao menos três ficaram feridos e quatro foram presos. Foto: Futura PressMais uma vez, protesto do MPL acabou em confronto, nesta sexta-feira, em São Paulo; ao menos três ficaram feridos e quatro foram presos. Foto: Futura PressMais uma vez, protesto do MPL acabou em confronto, nesta sexta-feira, em São Paulo; ao menos três ficaram feridos e quatro foram presos. Foto: Futura PressMais uma vez, protesto do MPL acabou em confronto, nesta sexta-feira, em São Paulo; ao menos três ficaram feridos e quatro foram presos. Foto: Futura PressMais uma vez, protesto do MPL acabou em confronto, nesta sexta-feira, em São Paulo; ao menos três ficaram feridos e quatro foram presos. Foto: Futura PressManifestantes ao início do protesto, quando tudo parecia encaminhar para um ato pacífico, nesta sexta-feira (23). Foto: Facebook/ReproduçãoJornalista Edgar Maciel, de "O Estado de S. Paulo", foi acertado por um tiro de borracha disparado por um PM dirante manifestação do MPL (23/01/2015). Foto: Reprodução/FacebookManifestantes queimam catraca em protesto do Movimento Passe Livre, em São Paulo (23/01/2014). Foto: Facebook/ReproduçãoPoliciais avançam sobre manifestantes no ato desta sexta-feira, que terminou em quebra-quebra e prisões. Foto: Leonardo Benassatto/Futura PressManifestantes são detidos em manifestação do MPL - 9-1-2014. Foto: Fernando Zamora/Futura Presshomem é preso pela polícia em protesto do mpl - 9-1-2014. Foto: Leonardo Benassatto/Futura PressMilitante adepto da tática black bloc no protesto desta sexta-feira. Foto: Fernando Zamora/Futura PressBarricada feita na Rua Peixoto Gomide em frente ao Hospital 9 de Julho. Foto: Luísa Pécora/iGAgência do Banco do Brasil depredada por manifestantes, nesta sexta-feira. Foto: Vitor Sorano/iGAvenida Angélica bloqueada pela polícia nas proximidades da Avenida Paulista. Foto: Vitor Sorano/iGManifestante é atingida na perna por bala de borracha. Foto: Barbara Liborio/iGLixo incendiado no cruzamento da avenida Angélica com a rua Goiás. Foto: Vitor Sorano/iG São PauloLixo incendiado na esquina da avenida Angélica com a rua Goiás. Foto: Vitor Solano/iG São PauloTropa de choque na esquina da rua Haddock Lobo com a Avenida Paulista. Foto: Alex GomesCom faixas e cartazes, manifestantes protestam contra reajuste das tarifas de transporte público (09/01/2015). Foto: iG/Bárbara LibórioEm São Paulo, manifestantes são acompanhados de perto pela polícia e pedem que transporte público seja gratuito (09/01/2014). Foto: iG São PauloProtesto ficou maior quando grupo contra reajuste das tarifas públicas chegou a Rua da Consolação, região central de São Paulo (09/01/2015). Foto: iG/Bárbara LibórioEm São Paulo, grupo de manifestantes definiu trajeto do protesto com a Polícia Militar (09/01/2014). Foto: iG/Bárbara LibórioProtesto de São Paulo contra o aumento do preço das passagens do transporte público começou sem incidentes (09/01/2015). Foto: iG/Bárbara LibórioPor conta da manifestação, trânsito da Avenida São João, no centro da cidade, fica parado. Foto: Barbara Liborio/iGSegundo o major Larry de Almeida Saraiva, do 11º  batalhão, a negociação sobre o trajeto da manifestação pelo fim da cobrança de tarifa no transporte público foi tranquil. Foto: iG/Bárbara LibórioPolícia Militar de SP acompanha os protestos com a cavalaria nesta sexta-feira (9). Foto: Vitor Sorano/iGCavalaria da Polícia Militar de São Paulo se prepara para acompanhar manifestantes em protesto contra tarifa de ônibus (09/01/2015). Foto: Vitor Sorano/iG



Outro lado

Em e-mail enviado ao iG, a prefeitura de São Paulo informa que "a análise parte do valor da tarifa na catraca e distorce a realidade da política tarifária e tributária da cidade de São Paulo. Desconsidera, flagrantemente, o congelamento dos bilhetes únicos temporais, como o mensal de R$140, que beneficia justamente o trabalhador que usa intensivamente o transporte público. No exemplo da reportagem, com 22 idas e voltas ao trabalho, o custo mensal que seria de R$ 154 na catraca fica em R$ 140, sem limite para o uso adicional e ilimitado do transporte público, para lazer e outras atividades (fator que também alivia o orçamento familiar e amplia a cidadania). Além disso, a reportagem cita genericamente a variação de IPTU em São Paulo e induz o leitor a acreditar que haverá um aumento linear. Na realidade, está implantada uma política de progressividade, que implica na redução média do imposto em cerca de 10,89% na periferia da cidade, o que demonstra, mais uma vez, benefício ao trabalhador usado como exemplo".

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