Em meio à crise, Santa Casa tem dia tranquilo com atendimento ágil e sem filas

Por Maíra Teixeira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Instituição vive crise originada por má gestão, mas atendimento segue normal apoiado na baixa demanda; com receio de não serem atendidos, pacientes evitam hospital

Área de atendimento inicial do Pronto-Socorro Geral na manhã de sábado (20). Foto: Maíra Teixeira/iGSanta Casa de Misericórdia, com crise, mas tranquila. Foto: Maíra Teixeira/iGO baixo movimento na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo se deve à época do ano e ao receito de o paciente não encontrar atendimento. Foto: Maíra Teixeira/iGSala de espera da Santa Casa de Misericórdia no sábado (20). Foto: Maíra Teixeira/iGÁrea de chegada de ambulâncias e emergência; dia de calmaria. Foto: Maíra Teixeira/iGFachada traseira do Pronto-Socorro Geral da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo . Foto: Maíra Teixeira/iG

Quem chegasse à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo na manhã deste sábado (20) não diria que a instituição enfrenta grave crise, cujo maior indicativo é uma dívida de cerca de R$ 800 milhões, segundo auditoria recente realizada pela Prefeitura de São Paulo. Nada de filas, prédios em bom estado de conservação e limpeza e atendimento ágil. Esse foi o cenário encontrado pela reportagem do iG.

Na quinta-feira (18), a direção da instituição anunciou que suspenderia exames, consultas e cirurgias agendadas, mantendo atendimento apenas de casos graves, quando identificado risco para o paciente. A medida afetaria as 31 mil consultas, 150 mil exames e 4.000 cirurgias realizados por mês no local. 

Segundo funcionários, parte deste cenário tranquilo é decorrente do período do ano que, normalmente, tem baixa procura. Outro ponto que poderia explicar a normalidade, que contrasta com a situação financeira calamitosa, é o comunicado da instituição de que só atenderia emergências e agendamentos de casos graves. 

Nas duas horas em que esteve no local, a reportagem constatou um clima de tranquilidade e viu apenas dois casos de emergência, um de violência doméstica e outro de acidente de moto. As duas ocorrências foram atendidas imediatamente na recepção do Pronto-Socorro Geral, que não tinha filas. Apenas uma funcionária fazia a ficha de atendimento, enquanto três seguranças tinham um dia sossegado de trabalho, impedindo que não acompanhantes de pacientes entrassem na área de atendimento.

Estava com medo de vir aqui e não ter atendimento, mas foi muito rápido. Vejo a crise da Santa Casa na TV, mas nunca tive qualquer problema, nem atraso para fazer exames ou atendimento. Tive um problema sério no coração recentemente e fui atendido perfeitamente (Jacinto Mamani, aposentado)

O aposentado Jacinto Coronel Mamani, de 82 anos, foi atendido em meia hora. Mamani fez uma cirurgia para colocação de marca-passo há dois meses e foi hoje ao local para tratar de um resfriado que o incomodava há dois dias. "Estava com medo de vir aqui e não ter atendimento, mas foi muito rápido. Vejo a crise da Santa Casa na TV, mas nunca tive qualquer problema, nem atraso para fazer exames ou atendimento. Tive um problema sério no coração recentemente e fui atendido perfeitamente", relata o boliviano que mora no Brasil há 60 anos, 40 dos quais trabalhados na construção civil, como mestre de obras.

Já Maria de Almeida Leite, de 72 anos, realiza um tratameto semanal contra um câncer na vesícula. "Venho aqui há seis meses e o tratamento [com quimioterapia] nunca falhou. Faço quimioterapia a cada 15 dias", conta a dona de casa.

Maíra Teixeira/iG
Santa Casa de Misericórdia, com crise, mas tranquila

EMPRESA RESPONSÁVEL PELA LIMPEZA: CONTRATO ATÉ DIA 5

De acordo com funcionárias da limpeza da empresa tercerizada Vivante, a rotina de trabalho está um pouco mais pesada porque o número de funcionários diminuiu. A empresa rescindiu o contrato por falta de pagamento e encerra as atividades na Santa Casa no próximo dia 5. "Os donos da empresa dizem que não estão recebendo, mas, graças a Deus, não atrasam nossos pagamentos", conta uma funcionária da limpeza.

As instalações estavam limpas, com banheiros do Pronto-Socorros Geral e de Ortopedia em ordem. A dívida, segundo a Vivante, que além da limpeza é responsável pela manutenção da Santa Casa, chega a R$ 22 milhões. Mais de 1.000 funcionários foram demitidos em decorrência da suspensão das atividades. Eles cumprem aviso prévio, por esse motivo os serviços não foram suspensos ainda.

A reportagem conversou com funcionários de departamentos administrativos, para saber como anda o clima no local – que vive dias de denúncias de desvios de recursos, má administração, com recomendação do Ministério Público para que o provedor Kalil Rocha Abdalla deixe o cargo. Os relatos apontam para uma sensação de injustiça com o corpo clínico e adminstrativo, que, segundo relatos, fazem seu trabalho normalmente, mas convivem com a insegurança do fechar de portas por falta de suprimentos em setembro e outros recursos. 

300 REAIS DE DÉCIMO TERCEIRO PARA TODOS

"Recebemos apenas R$ 300 de 13º, independente do cargo e do salário [a segunda parcela do benefício, por lei, devia ser depositada até este sábado (19)]. Dizem que há um acordo para recebermos tudo até o dia 29, mas parece difícil que isso aconteça", diz uma funcionária.

Quem tem de votar para tirar o provedor está com ele porque se beneficia. Se ele cair, quem vota cai também. Ele tem dito que se sente confortável no cargo. Acho isso um desrespeito que envergonha quem trabalha direito (funcionário)

Outro relato afirma que há uma espécie de máfia na instituição. "Quem tem de votar para tirar o provedor, está com ele porque se beneficia. Se ele cair, quem vota cai também. Ele tem dito que se sente confortável no cargo. Acho isso um desrespeito que envergonha quem trabalha direito. Precisaremos de um intervenção de fora para acabar com essa situação triste, de desmandos, desvios e irresponsável", afirma um outro funcionário.

Na quinta-feira (18), a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE-SP) divulgou comunicado informando que "médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e limpeza decidiram adiar a greve e aguardar o novo prazo pedido pelos representantes da Santa Casa para apresentar a solução para o pagamento dos salários de novembro e do décimo terceiro atrasados". O prazo pedido pela instituição foi dia 29 de dezembro.

O superintendente da SRTE-SP, Luiz Antonio Medeiros, que coordenou a reunião de conciliação entre as partes, disse no dia que o "Ministério do Trabalho vai acompanhar de perto os prazos e os pagamentos e teremos outra reunião em janeiro para avaliar a situação”.

A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo agoniza por problemas pontuais de má gestão, que estão sendo investigadas pela Prefeitura de São Paulo e pelo Governo do Estado de São Paulo. Mas as Santas Casas, hospitais e entidades beneficentes, vivem um momento difícil, com diversas manifestações pelo País, sob o mote de que o financiamento do Sistema Único de Saúde é insuficiente para o custeio atual e o crescente endividamento das instituições.

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