Vítima da seca em SP, nordestina estoca água para não reviver trauma da infância

Por Aretha Martins - iG São Paulo |

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Mara e a irmã Luiza fazem parte de uma família que cresceu com a seca do Nordeste e, agora, encara a crise em São Paulo

A infância foi no interior do Ceará, onde as estações do ano se resumiam a duas – a estação chuvosa e o verão. E era na segunda que a coisa apertava para valer. Para se ter água no auge do calor era preciso perfurar o chão e construir poços, as chamadas cacimbas. Já adulta, veio a mudança para São Paulo. “Sempre escutei que aqui era a terra da garoa e que tinha água o ano inteiro”, descreve, com um tom de decepção, Maria da Paz Pinheiro. Mara, como é chamada a auxiliar de cabeleireiro, é moradora da Vila Císper, na zona leste, uma das áreas afetadas pela falta d’água na cidade.

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A algumas ruas de Mara mora Luiza Pinheiro, sua irmã mais velha. O drama das torneiras secas se repete. “Se vier aqui às 18h, já não tem água. E só volta no dia seguinte, lá pelas 9h ou 10h”, relata Luiza.

O iG foi até as casas das irmãs. Depois do sofrimento da infância sem água no nordeste, elas contam como encaram a nova seca, agora em São Paulo, e o que fazem para montar o seu próprio estoque de água. Assista no vídeo abaixo: 


Canequinha é a solução

Também na zona leste, no bairro da Penha, fica o salão de beleza de um dos filhos de Mara. Lá trabalha Maria das Dores Pinheiro da Silva e ela conta que o local também tem falta de água. No salão, as torneiras ficam secas na parte da tarde. “Falta água pelo menos umas duas vezes por semana. Fecham por volta de meio-dia e volta lá pelas seis da tarde”, afirma Das Dores. 

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O local tem uma caixa d’água que abastece os banheiros. Nos lavatórios, a solução foi apelar para canequinha. “A gente tem que adaptar. Se está calor, os cabelos das clientes são lavados com água fria. Se está frio, como já aconteceu, a gente enche o balde no banheiro e coloca de dois em dois litros no micro-ondas. Depois mistura com o restante da água para ficar na temperatura ideal”, explica Das Dores. “Para lavar o cabelo assim demora uns 20 minutos e a cliente tem que ficar lá, com a cabeça pendurada. A gente explica, pede desculpas, mas é constrangedor”, completa.

Arquivo pessoal
No salão de Cícero, filho de Mara, é preciso usar uma canequinha para lavar os cabelos

Segundo a funcionária, o movimento não caiu porque o salão conta com clientes antigos, que entendem o transtorno. Mas às vezes o clima ruim é inevitável. “Na semana passada teve uma cliente que reclamou. É a terceira vez que ela vai ao salão e, de novo, teve que lavar o cabelo de canequinha. Ela finalizou o processo porque estava com tinta, mas ficou bastante chateada”, diz Das Dores. O jeito foi dar um desconto para tentar compensar no final.

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Em outra ponta da cidade, no Jaçanã, na zona norte, a dificuldade de Elaine Ferraz dos Santos é na hora do banho. Ela trabalha como recepcionista em uma academia na Vila Mariana e chega em casa por volta de 23 horas, quando não tem mais água. “Meu filho diz que começa a faltar água todo dia umas 20h. No final de semana estava de folga e vi que foi até mais cedo. Às 18h30 já não tinha mais”, afirma. Na casa dela, as torneiras são ligadas à caixa, mas o chuveiro vem da rua. “Quando chego, pego água, esquento e tenho que tomar banho de canequinha”, conta.

A zona sul também teve suas vítimas da seca paulista. Flora Mendes, moradora do Jabaquara, fala que a situação já esteve pior em seu bairro e que isso também ensinou a lidar com a crise hídrica. “No começo do mês ficamos 48 horas sem água”, diz a cuidadora de idosos de 18 anos. Na casa dela, a roupa era lavada duas vezes por semana e, agora, é preciso acumular para colocar a máquina para funcionar. O mesmo vale para as louças.

Sem água, sem merenda e sem aula

Diadema, município do Grande ABC, é mais um lugar com registro de falta d’água. Queila Santos, professora de biologia de uma escola estadual no Jardim Kaema, conta que no começo do mês foi preciso cancelar um dia de aulas porque não havia água para fazer a merenda dos alunos.

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E o problema vai além. “Quando acaba a água, a gente dispensa duas ou três aulas mais cedo”, relata. Se a falta de água é à noite, a preocupação é maior porque não há certeza de que o abastecimento estará reestabelecido na manhã seguinte. “Uma vez ficou sem merenda, mas e todos os outros que os alunos são dispensados? Eles são prejudicados”, diz a professora.

Como afirma Mara, a moradora da Vila Císper do começo da reportagem, a saída é tentar economizar. “Para quem já teve crise, sabe muito bem como é viver sem água. Eu faço a minha parte e aqui em casa é tudo controlado. Ficar completamente sem água só se for castigo”.

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