Aviõezinhos de papel ironizam previsão de queda de aeronave na avenida Paulista

Por Vitor Sorano - iG São Paulo | - Atualizada às

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Vidente faz pessoas atrasarem chegada ao trabalho e põe imprensa em alerta; reconhecer firma não garante documento

Foi com aviõezinhos de papel que alguns trabalhadores do edifico Barão do Serro Azul comemoraram, pouco depois das 9h desta quarta-feira (26), não terem sido vítimas de uma catástrofe aérea em plena avenida Paulista, em São Paulo.


O acidente estava escrito em uma carta de Juscelino Nóbrega da Luz, que usa documentos com reconhecimento de firma, o que não garante a autenticidade do conteúdo, mas só da assinatura, e se diz "alguém que tem sonhos premonitórios". Na véspera, entretanto, ele disse que a tragédia não mais aconteceria.

O alerta foi insuficiente para desfazer o impacto que sua alegada previsão - reproduzida com ironia no maior jornal do País e em diversas redes de televisão - causou no centro financeiro e simbólico da maior cidade brasileira.

Em prédios da esquina da Alameda Santos com a avenida Paulista, alguns trabalhadores chegaram após as 9h - horário anunciado da tragédia - ou fizeram um intervalo.

"Vou ficar aqui embaixo até umas 9h10. Eu não estava com medo, mas o pessoal começou a fazer muito alarde e fiquei com medo", disse Nikita Ingrid da Silva, publicitária de 28 anos que trabalha no Serro Azul, onde um adesivo com a palavra "premonição" foi colado.

Segundo Antônio Carlos da Cunha, 66 anos, a imobiliária em que ele trabalha, no mesmo edifício, estava vazia por volta das 8h30.

"Não tem ninguém lá", disse. "Eu não acredito, mas é mais fácil acontecer coisas ruins do que coisas boas”, comentou.

O síndico do Barão do Serro Azul, Severino Alves de Lima, que chegou a distribuir um aviso aos condôminos a partir da premonição de Juscelino, disse que já sabia que nada iria acontecer.

"Eu desde o único não acreditava. No próprio comunicado coloco minha posição de que não acredito. As autoridades já haviam tomado uma série de medidas de providência", disse. "E o próprio Juscelino, em entrevista ontem, informou que ele próprio não tinha mais certeza daquilo que havia registrado em cartório."

Perguntado, o síndico não deixou claro se sabia a diferença entre o registro em cartório e um reconhecimento de firma - que é o método usado por Juscelino.

Do outro lado da rua, por volta das 8h, os vendedores Débora Honda, de 32 anos, e Diego da Silva, de 27 anos, deixavam o trabalho para só voltar por volta das 10h.

"Fomos liberados para entrar mais tarde. A gente volta para cá às 10h, para ter uma margem de segurança", disse ele.

Vitor Sorano
Por volta das 8h, os vendedores Débora Honda e Diego da Silva deixaram o trabalho para só voltar por volta das 10h

Débora conta que ficou sabendo da previsão pela imprensa e chegou a ser informada pela TAM, dona do avião que cairia. "Disseram que o voo foi alterado e que não ia mais ocorrer o acidente", disse a vendedora, ao deixar o prédio.

Até as 9h, as câmeras de televisão continuavam apontadas para o prédio Barão do Serro Azul. Os principais canais do País mandaram equipes - um deles enviou cinco.

Estudante de jornalismo, Daniela da Silva Costa, de 24 anos, analisava a movimentação da imprensa. O caso virará o seu trabalho de fim de ano para uma das oficinas. "Vim ver como uma coisa que não é uma matéria, que não aconteceu, vira uma matéria."

Edifício Barão do Serro Azul. Foto: Vitor SoranoCâmeras em frente ao edifício Barão do Serro Azul. Foto: Vitor SoranoSindico do edifício Barão do Serro Azul. Foto: Vitor SoranoAntônio Carlos da Cunha diz que imobiliária em que ele trabalha estava vazia por volta das 8h30. Foto: Vitor SoranoAdesivo em frente ao edifício Barão do Serro Azul
. Foto: Vitor SoranoPrédio em frente ao edifício Barão do Serro Azul. Foto: Vitor SoranoVendedores Débora Honda e Diego da Silva deixaram o trabalho para só voltar por volta das 10h
. Foto: Vitor Sorano

Juscelino foi até o local onde o acidente não ocorreu e concedeu diversas entrevistas. A previsão só não deu certo, disse ele, porque a TAM tomou providências - a companhia alterou o nome do voo, mas não confirmou que tenha trocado a aeronave como Juscelino disse ter sido informado.

"Para (essa tragédia) não acontecer que a companhia adotou as medidas cabíveis. A empresa trocou o nome e para mim foi dito que iriam trocar a aeronave."

Juscelino diz que já enviou 90 mil cartas. Suas premonições, diz, se confirmaram em 70% dos casos.

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