“Sou vista como vagabunda”, diz vítima de estupro em festa da Medicina da USP

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Relatos apontam “cultura machista” dentro da instituição e a pressão para que vítimas não denunciem os casos de violações

“Me senti humilhada, estigmatizada, sofro isolamento social e demonização. Sou vista como vagabunda”, diz uma estudante de 22 anos, do 4º ano da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que resolveu denunciar o abuso sexual que sofreu em uma festa promovida pelo Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc).

Esse e outros relatos, que incluem também casos de preconceito racial, foram feitos em audiência pública na tarde desta terça-feira (11) convocada pelos deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os relatos apontam uma “cultura machista” dentro da instituição e a pressão para que as vítimas não denunciem os casos de violações de direitos para não “prejudicarem a carreira dos agressores”.

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A estudante, que pediu para não ter a identidade revelada, relatou ter sido abusada por dois alunos do 4º e 5º anos, durante a festa “Cervejada”, em novembro do ano passado. “Eles me chamaram para ir ao carro. Eles diziam que iam me dar mais bebida. Eu não queria, mas acabei indo pela insistência. O carro estava em um local deserto. Eles começaram a me beijar a força, passar a mão na minha parte íntima, nos meus seios. Fiquei desesperada e pedi para pararem. Até que uma moça com o namorado viu o que estava acontecendo e me chamou e só então eles pararam”.

Quando resolveu procurar explicações da Atlética, membros da diretoria tentaram silenciá-la. “As pessoas duvidavam, diziam que era um relato inventado e exagerado. Os diretores do Centro Acadêmico me disseram que eu poderia prejudicar a carreira dos caras”.

Apesar dos “conselhos”, ela registrou um boletim de ocorrência e o caso foi levado à Congregação (órgão deliberativo formado por professores) da faculdade, onde foi apontada uma relação consensual (com anuência de todos), apesar dos relatos da estudante. A testemunha não depôs e apenas um dos agressores foi ouvido. “Eles [os agressores] não sofreram nenhum tipo de punição. Eu os encontro semanalmente na faculdade”, disse.

divulgação/Usp
Na imagem, praça do Relógio na Cidade Universitária da USP


Lei do silêncio

Outro caso que chamou bastante atenção dos presentes na audiência foi o de outra estudante, de 24 anos. Ela narrou que entre fevereiro e abril de 2011 foi vítima de dois abusos sexuais em festas promovidas pelo Caoc. O primeiro caso aconteceu durante a recepção aos estudantes, onde ela diz ter sido abusada por um diretor da Atlética.

“Estávamos bebendo e um diretor da Atlética se ofereceu para me acompanhar a outra festa. Ele disse que eu estava muito bêbada e eu aceitei a ajuda. No caminho, ele me levou para um quarto e começou a me agarrar. Chegou a colocar a mão nas minhas partes íntimas, mas parou”, contou.

Dois meses depois, ela foi vítima de estupro na festa Carecas do Bosque, também promovida pelo Caoc. Ela contou que após beber algumas doses do que “supostamente era tequila, mas na verdade é uma mistura de destilado feito pelos estudantes”´, desmaiou e foi levada para barracas de atletas do judô, onde foi violentada. Lembranças do que aconteceu, ela diz não ter. Acordou algumas horas depois no hospital, onde uma amiga disse que ela “poderia ter sofrido abuso”. No local, diz ela, não fizeram exame para saber se houve a penetração, mas a médica particular da estudante confirmou o abuso.

A partir daí começou a sua busca por respostas sobre o que tinha realmente acontecido. A estudante diz ter sido orientada, principalmente por membros da diretoria da Atlética, para não levar adiante o desejo de denunciar o que tinha acontecido para não “manchar a imagem da instituição”. “Não sabia o que tinha acontecido. Fiquei três anos sem saber. Diziam que a culpa podia ser minha, que o sexo tinha sido consensual”, conta.

Com o registro de um boletim de ocorrência e a instauração de um inquérito, ela começou a juntar as peças que faltavam para entender o que realmente aconteceu. Os relatos que recebeu dão conta de que ela estava com um atleta que a deixou em um dos “cafofos” (espaço com almofadas e colchões atrás das barracas montadas para a venda de bebidas durante a festa). Quando ele retornou ao local, um homem estava deitado sobre ela com a calça abaixada. O agressor, concluiu a polícia, era um funcionário terceirizado da faculdade.

“O réu só foi ouvido no ano passado. Ele disse à polícia que deu dinheiro aos seguranças para entrar e pagou também a dois estudantes”, disse ela à comissão. Assim como a colega, ela foi aconselhada a não prestar queixas e não levar o caso adiante.

“O silêncio foi traumático. Diziam que eu não podia falar nada porque não tinha provas e vi comentários dizendo que ‘menina direita não bebia até ficar desacordada”, disse.

Violência estrutural

A violência em comum uniu as duas à estudante Ana Luiza Cunha. Juntas, elas fundaram no ano passado o Coletivo Feminista Geni, que recebe e orienta as vítimas dentro da faculdade.

“Casos como esses não são isolados e a freqüência é assustadora. Depois da criação do coletivo, começamos a receber casos de 5, 10 anos atrás. Não é só na Atlética, passa por toda a instituição. É estrutural e não pontual”, denuncia Ana Luiza.

Segundo ela, o sexo é visto como instrumento de dominação e os eventos organizados para integração entre calouros e veteranos têm sempre conotação sexual para explicitar as estruturas hierárquicas dos próprios estudantes.

“Na semana de recepção, os veteranos separam os meninos e as meninas. Elas ficam sentadas no chão em circulo, com os veteranos em volta. São obrigadas a repetirem ‘bu, bu, bu’ e eles completam ‘b** eu como a seco, c** eu passo cuspe, medicina é só na USP’".

Ana Luiza disse que a partir da criação do coletivo, os membros começaram a sofrer retaliações dentro da faculdade e nas redes sociais. Apesar dos oito casos de graves de abusos denunciados pelo Geni, os agressores continuam impunes.

“Somos retratadas como loucas e histéricas, mas nós só estamos dando voz às pessoas que foram silenciadas durante muito tempo”, diz Ana Luiza.

Investigações

A promotora de Direitos Humanos Paula Figueiredo instaurou inquérito para investigar os casos de abusos relatados pelos estudantes. O órgão solicitou documentos para a faculdade, que apesar do fim do prazo, ainda não foram entregues. Caso não haja cooperação, a promotora promete entrar com uma ação para punição dos responsáveis.

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Presente à comissão, ela disse que recebeu as primeiras denúncias de violações de direitos humanos a cerca de dois meses – ao todo foram 12, e percebeu que não eram casos isolados.

“A intenção é fortalecer a cultura de direitos humanos, os mecanismos de apuração, repressão [aos crimes] e apoio às vítimas que continuam sofrendo discriminações após denunciar”.

Outro lado

Em nota, a Faculdade de Medicina da USP se diz contra qualquer forma de violência e discriminação e afirma que “tem se empenhado em aprimorar seus mecanismos de prevenção destes tipos de casos, apuração de denúncias e acolhimento das vítimas”. A comissão foi formada em maio deste ano e tem cerca de 80 membros entre professores, funcionários e estudantes.

Membro da comissão e presente à Assembleia, o professor Paulo Saldivia, diz que os relatos constituem uma “horroteca” e que essa divulgação vai ajudar no combate a novas violações dos direitos humanos. “Acredito que a doença, uma vez conhecida, tem o potencial transformador”.

O professor disse ainda que o Caoc e o Show Medicina se pronunciaram por meio de nota à comissão. “Eles entregaram um manifesto, no qual reconhecem os excessos e querem apoiar a apuração dos fatos”.


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