Uma aula de português para refugiados sírios

Por Beatriz Atihe e Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

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Encontros acontecem às segundas, quartas e sextas, das 18h às 21h, na mesquita da Liga da Juventude Islâmica do Brasil

“Eu vim para o Brasil para tra-ba-lhar. Eu sou estrangeiro”. Os alunos repetiam a frase enquanto a professora escrevia o nome de várias profissões na lousa. Na sala de aula, no terceiro andar de uma mesquita, dez refugiados sírios aprendiam como falar seus ofícios em português. Muitos chegaram ao Brasil há poucos dias e veem nas aulas uma oportunidade para retomar a vida.

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A professora Vera Lúcia Mendes questiona, sílaba por sílaba, diante de olhos atentos ao movimento labial: “Por que vocês estão no Brasil?” A resposta é unânime: “Para trabalhar”. As aulas acontecem às segundas, quartas e sextas, das 18h às 21h, na Liga da Juventude Islâmica do Brasil. Assim com Vera, os outros dois docentes também são voluntários.

Reuters
Segundo a ONU, mais de 3 milhões de sírios já deixaram o país por causa da guerra civil (Arquivo)

“Gosto muito de dar essas aulas, pois aprendo muito com eles”. Além das histórias de vida dos alunos que passaram por guerra e deixaram tudo o que tinham na Síria, Vera Lúcia está aprendendo o árabe.

Durante a série de frases repetidas do tipo “eu sou arquiteto”, ou “eu sou advogado”, se iniciou um debate: o que significava arquiteto? A professora explica: “Engenheiro é quem constrói, arquiteto é quem desenha”.

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Um deles acha que arquiteto quer dizer designer e então, com uma profusão de palavras em árabe vinda de todos os cantos da sala, começa a conversa entre os alunos. Enquanto isso, a professora observa o diálogo, curiosa. “Professora, estamos explicando para ele a diferença entre as profissões”, conta outro refugiado, em inglês.

Agora é a hora de Vera pedir que a fala seja "slowly, please", porque o inglês dela não é fluente. 

Resolvida a questão da arquitetura, volta-se ao tema da aula: profissões. Vera pede que cada aluno escolha, dentre as dezenas de ofícios escritos na lousa, qual é a sua ocupação. Havia engenheiros, médicos, profissionais de tecnologia, comerciantes, advogados e o já conhecido arquiteto.

Todos eles chegaram ao Brasil refugiados da guerra civil que assola a Síria desde 2011. O conflito começou em decorrência da Primavera Árabe, movimento revolucionário contra repressão dos governos de alguns países do Oriente Médio e norte da África. Segundo levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no final de agosto deste ano, número de refugiados já passou de três milhões.

Quando Vera arrisca algumas palavras em árabe, conta com elogios e correções dos alunos. “Algumas aulas são acompanhadas por representantes da comunidade síria, que fazem interpretações quando necessário, mas quando eles não vêm, a gente dá um jeito. Já me comuniquei com eles até por mímica”.

Todo mundo quer se entender. Durante a aula, os refugiados riem, perguntam, fazem sinal positivo e negativo com a cabeça. Tentam de toda forma entender o mínimo para poder colocar "português básico" no currículo.

Uma hora antes de a aula terminar, um som toma a sala. É o almuadem, homem que anuncia as cinco chamadas diárias à oração. É um som bonito e que de alguma forma os remete para um passado sem tantas dificuldades. Em um segundo a magia se quebra, o homem continua a convocação, mas os alunos em sala de aula já voltaram a se sentir no Brasil, na condição de refugiado, sem emprego e sem um lar. “Eu sou estrangeiro e vim aqui para trabalhar”. Segue a lição.

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