Paulistano ignora falta d'água e lava-rápidos registram aumento de procura

Por David Shalom | - Atualizada às

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Segundo sindicato e proprietários de estabelecimentos, estiagem levou a uma maior procura pelos serviços na capital

Apesar da crise da água em território paulistano, o movimento em lava-rápidos na cidade não tem caído. Pelo contrário. De acordo com o Sindicato das Empresas de Serviço de Conservação de Veículos, Lava-Rápido e Similares do Estado de São Paulo (Sescov) e proprietários de estabelecimentos que prestam o serviço, a demanda chegou até a crescer em certos locais devido à falta de chuvas – quem apelava para a “lavagem pluvial” teve de recorrer ao serviço. 

Veja fotos do cenário desolador dos reservatórios que abastecem São Paulo:

Represa do Jaguari, na cidade de Vargem, em setembro; veja mais imagens da situação dos reservatórios do Sistema Cantareira. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura PressSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

"A queda do movimento dos lava-rápidos está mais associada às chuvas do que propriamente à falta de água", explica em nota José Donizete Pereira Casalinho, presidente do sindicato, segundo o qual os lava-rápidos associados seguem abertos, mantendo suas atividades normalmente. "O aumento ou diminuição do movimento de um lava-rápido tem mais a ver com a situação econômica do usuário do que com o problema de água." 

Gerente comercial do Lave Park, rede de lava-rápidos com 12 lojas na capital paulista, Sérgio Benedito Basílio afirma que não só não houve queda de movimento em seus estabelecimentos como até se notou relativa alta de clientes. Para ele, além da estiagem, que prejudica aqueles que deixaria o carro em "banho de chuva",  boa parte dos clientes ainda não tem consciência em relação à situação hídrica em São Paulo.

"Fazemos em nove de nossas lojas um uso responsável, com minas e estações de tratamento de água próprias. Mas não é algo que alardeamos, que colocamos em frente aos estabelecimentos para o cliente ver. Ainda assim, as pessoas têm nos proporcionado um movimento incrível, o que mostra que ainda não há uma preocupação com a seca", opina ele.

Proprietário do Lava-Rápido M.S., localizado em Moema, Pedro Finoto também percebeu um aumento de movimento do meio de setembro para cá, apesar de o nível dos sistemas de tratamento de água que abastecem São Paulo terem registrado seus menores índices da história. O Cantareira, por exemplo, chegou a 3,5% de sua capacidade de armazenamento na segunda-feira (20), enquanto o Alto Tietê, a 8,8% na mesma data.

"Está quente, não chove de jeito nenhum, então as pessoas vêm mesmo", conta ele, que conta com um poço artesiano para fornecer o recurso para a média de 60 carros lavados por dia, característica enfatizada na fachada de sua loja com uma faixa desde agosto. "Normalmente, esta época é ruim, porque começa a chover e o movimento cai. Mas neste ano está tudo diferente e a demanda só cresceu."

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No bairro Jardim Saúde, Zona Sul, o Lava-Rápido Mineirinho não notou aumento de procura, mas vê o movimento de clientes permanecendo o mesmo ao longo de todo o ano. "Tudo normal", indica o gerente Nilvan Rodrigues Cordeiro.

Enquanto a situação é até positiva para muitos desses estabelecimentos, José Augusto Ferreira, proprietário do Centro Automotivo Pedroso, na região central da capital, se viu na iminência de perder a loja que comanda há quase 26 anos no mesmo local.

"Às vezes você ficava até meio constrangido quando uma pessoa passava aqui em frente e falava que não tinha nem água para cozinhar enquanto você lavava o carro", conta ele.

No entanto, depois de colocar uma faixa em frente ao estabelecimento deixando claro que a água usada é própria, não da Sabesp, e que não pode ser consumida, viu os clientes voltarem a aparecer. A média de 2 mil lavagens mensais, que chegou a cair para 800, começa aos poucos a se restabelecer. "Em setembro já subiu para 1.212; neste mês de outubro deve passar dos 1.300."

Por outro lado...
Se graças à estrutura de poços próprios e água de reuso os lava-rápidos não têm tido problemas em atrair clientes na atual crise hídrica paulistana, o mesmo não pode ser dito em relação aos estacionamentos que fornecem o serviço, como classifica o sindicato, de forma clandestina, ou seja, sem certificado ambiental. 

O iG visitou três estabelecimentos de uma única rua na região da Avenida Luís Carlos Berrini, centro empresarial da capital paulista, que passaram a vetar totalmente a lavagem de veículos por fatores como custos, ameaças de vizinhos e falta de alternativas para a utilização do recurso – como ocorre nos lava-rápidos de fato, a maioria deles contando com reuso de água e/ou poços artesianos próprios. 

Paulo César ilustra bem essa realidade: diariamente, ele recebia em seu estacionamento cerca de oito pedidos de clientes dispostos a pagar R$ 30 para lavar seus carros, um complemento de cerca de R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês ao faturamento total do estabelecimento. No entanto, apesar de usar somente máquinas lavadoras de alta pressão, responsáveis por reduzir em até 75% o consumo de água, o empresário decidiu suspender o serviço há pouco mais de um mês, quando percebeu a gravidade da crise hídrica na capital paulista. "Não tem água, as pessoas reclamam, então decidi proibir de vez", diz ele.

David Shalom/iG São Paulo
Márcio Santos após colocar fita preta sobre anúncio de lavagem no estacionamento onde trabalha







Assim como Paulo, outros dois estacionamentos da mesma via optaram por vetar totalmente a lavagem de carros para seus fregueses. Vizinho da propriedade do empresário, um deles chegava a lavar de seis a nove veículos diariamente, tanto para mensalistas quanto para clientes avulsos. O lucro mensal ultrapassava os R$ 2 mil.

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"É só olhar aqui em volta: os carros estacionados aqui estão todos sujos, imundos", aponta o funcionário Eduardo Rodrigo da Silva. Quem chega ali pedindo por lavagem do carro é informado que atualmente há apenas a opção para aspirar a parte interna dos veículos. E poucos se interessam pelo serviço.

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David Shalom/iG São Paulo
Equipamento para lavagem em alta pressão encostado em escritório de estacionamento

A situação levou os estacionamentos que não haviam adotado a medida a também iniciá-la. "Na última sexta-feira (10) lavamos nossos últimos três carros. Mas, de segunda para cá, isso parou. O patrão veio aqui e proibiu qualquer serviço do tipo", diz Renato Zacarias, funcionário de outro estacionamento na mesma rua, cujo faturamento somente com as lavagens de carros girava em torno de R$ 1.200. 


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