Funcionários da Sabesp são ameaçados por moradores em bairros onde falta água

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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De acordo com o sindicato da categoria, relatos de casos têm aumentado nos últimos meses; empresa rechaça as denúncias

Ameaças, intimidação e até cárcere privado. É com esses temores que funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estão indo ao trabalho em bairros onde tem faltado água nos últimos meses, período no qual a crise hídrica se agravou e os reservatórios atingiram níveis sem precedentes. Na sexta-feira (17), o nível do Sistema Cantareira – o maior do País, responsável pelo abastecimento de 6,5 milhões de pessoas –, chegou a alarmantes 3,9%, o menor índice de sua história.

Veja fotos do cenário desolador do Sistema Cantareira:

Vaca caminha pela Represa Jacareí, no dia 29 de janeiro: normalmente ali teria água. Foto: Futura PressSituação calamitosa da Represa Jacareí, parte do Sistema Cantareira, no dia 29 de janeiro. Foto: Futura PressCarro no meio na Atibainha devido ao baixo nível da represa: cenário desolador. Foto: Futura PressPedalinhos inutilizados na Represa Atibainha, parte do Cantareira, em janeiro. Foto: Futura PressRepresa Atibainha, em janeiro de 2015. Foto: Futura PressLixo surge na Represa de Atibainha, em janeiro. Foto: Futura PressEm protesto contra a falta de água, governador Geraldo Alckmin é ironizado por manifestantes (26/01/2015). Foto: AP PhotoEm São Paulo, moradores organizaram uma passeata contra a falta de água. Foto: AP PhotoMoradores protestam contra a falta de água em São Paulo (26/01/2015). Foto: AP PhotoProtesto 'Banho Coletivo na casa do Alckmin', na manhã desta segunda-feira (23), em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Foto: Futura PressFalta de água em São Paulo se agrava e motiva protestos . Foto: AP PhotoRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em setembro; veja mais imagens da situação dos reservatórios do Sistema Cantareira. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura PressSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

"A população está inflamando, ameaça colocar fogo na viatura, prende a gente na rua. Tem vários pontos de São Paulo que sabemos que se formos teremos dificuldade para ir embora", diz Rodolfo*, responsável por manobras de registro, nas quais abre e fecha a saída de água em áreas da região Oeste da Grande São Paulo. "O governo fica falando que não tem racionamento, que tem água. Então as pessoas acreditam. E quando a gente vai no lugar e precisa fechar a água, automaticamente eles acham que a culpa é nossa."

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O trabalhador conta uma das situações mais complicadas com que já se deparou, quando um jovem tentou entrar em sua viatura para arrancar a chave da ignição do veículo. Subitamente, vizinhos também surgiram para dar ao morador apoio para impedir que Rodolfo fosse embora, fazendo barricadas com fogo em entulho na rua. "Na hora, não consegui pensar em outra coisa que não fosse 'agora estou ferrado'", desabafa ele. "Só consegui sair de lá porque o cara deu bobeira e pude puxar o carro a milhão."

Também funcionário da área de manobra, Flávio* afirma que trabalhar na rua tem se tornado cada vez mais difícil, especialmente com a intensificação da divulgação sobre a crise hídrica paulista. "É aquela pressão dos moradores, que falam besteira para os trabalhadores, xingam. É bem desconfortável", desabafa, corroborado por outros três colegas de trabalho. "Você vai fazer manobra e já começam a reclamar, falando que estamos fechando a água. Mas a crise da Sabesp não é culpa do funcionário."

Apesar da frequência dos casos, as ameaças dificilmente são registradas pelos funcionários em Boletins de Ocorrência por medo de retaliação da empresa. Segundo os funcionários ouvidos pelo iG, existe uma orientação por parte da Sabesp para que os problemas relacionados à falta d´água não sejam divulgados, apesar de ser cada vez mais difícil de escondê-los. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) afirma incentivar os trabalhadores a registrarem as denúncias ao menos à diretoria, mas raramente existe disposição de fazê-lo também por temor de represálias no emprego.

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"Há um medo generalizado de ir a certas áreas e ao mesmo tempo um receio em se denunciar em relatórios que houve os ataques. Assim, o funcionário acaba não oficializando a ameaça à Sabesp e a empresa fecha os olhos, falando que está tudo uma maravilha", ressalta o presidente do Sintaema, Rene Vicente dos Santos. Ele diz que leva pessoalmente os relatos às chefias de cada zona onde os casos acontecem. "O cara fica com medo de ser tachado de fazer corpo mole. E, infelizmente, acredita nisso e acaba não relatando as ameaças como deveria."

Santos diz que o sindicato recebe relatos de todas as regiões da cidade – Norte, Sul, Leste e Oeste. "Já chegaram algumas vezes a pegar os trabalhadores da manobra e obrigá-los a ficar na rua até a água voltar. Não se chega a agredir, mas as ameaças são constantes."

Para os funcionários, só há uma solução para se evitar a indignação da população nas ruas: a transparência do governo em relação à gravidade da crise. "Não tem essa de partido, de culpa de um, de outro. O fato é que não tem água, é só abrir a torneira para ver", diz Rodolfo. "Se houvesse racionamento com horários e dias definidos, a população entenderia. Não nos veria como mentirosos, mas como parceiros."

Procurada pelo iG, a Sabesp nega ter recebido denúncias sobre ameaças a seus funcionários. "A Sabesp informa que não há nenhum registro de violência a empregados que tenha sido notificada pelo Sintaema", resume em nota.

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