Neste ano, três ônibus são incendiados por semana em SP; 63% mais que em 2013

Por David Shalom , iG São Paulo |

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De janeiro a setembro, 106 veículos foram destruídos na cidade, maior índice desde a onda de ataques do PCC, em 2006

Em apenas nove meses, a cidade de São Paulo teve 106 ônibus incendiados. Os dados são de um levantamento da São Paulo Transporte (SPTrans) feito a pedido do iG e mostram um aumento de 63% em relação a todo o ano passado, quando a violência contra coletivos teve sua terceira alta consecutiva após relativa calmaria em 2010.

Veja fotos de alguns casos ocorridos em 2014:

Bombeiros tentam controlar chamas em ônibus incendiado no Jardim Rodolfo Pirani, zona leste de São Paulo, na madrugada de 28 de setembro; veja outros casos na capital. Foto: Edison Temoteo/Futura PressUm dos dois ônibus incendiados na Rodovia Raposo Tavares, na capital paulista, na noite de 10 de setembro. Foto: Nivaldo Lima/Futura PressÔnibus vira sucata após ter sido incendiado por grupo na Rodovia Raposo Tavares. Foto: Nivaldo Lima/Futura PressÔnibus em chamas na zona leste de São Paulo na madrugada do dia 6 de agosto. Foto: Edison Temoteo/Futura PressÔnibus incendiado na rua Tiburcio de Sousa, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, SP, na noite do dia 9 de julho. Foto: Edison Temoteo/Futura PressÔnibus é incendiado na Avenida Yervant Kissajikian, em Americanópolis. Foto: Marcelo Camargo/Futura PressÔnibus incendiado na rua Olho D´água do Borges, na zona leste de São Paulo, no dia 15 de junho. Foto: Rogerio Cavalheiro/Futura Press

Os dados mostram uma média de um ônibus incendiado a cada 2,5 dias entre 1º de janeiro e  30 de setembro, um aumento de 63% em relação ao total do ano passado e de quase dez vezes se comparado a 2010, ano em que houve 13 veículos destruídos. Depois disso, os números só cresceram: em 2011 foram 25; em, 2012, 52; e em 2013, 65.

O período entre janeiro e setembro também registrou a maior alta desde 2006, ano marcado pela onda de violência praticada pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Na ocasião, 161 ônibus foram incendiados na capital paulista – a vasta maioria deles, 153, nos meses de maio (60), julho (64) e agosto (29), auges da violência.

São seis os tipos de coletivos atualmente em circulação na capital, com preços que vão de R$ 300 mil (convencional) a R$ 1 milhão (biarticulado), de acordo com tabela fornecida pelo Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss). Assim, levando em conta o preço médio de R$ 500 mil para cada veículo, conforme calcula a SPTrans, o prejuízo chega a quase R$ 53 milhões somente neste ano. Quem deve arcar com os custos são as concessionárias e permissionárias.

Transporte prejudicado
Por mais que representem uma proporção ínfima em relação ao total de cerca de 15 mil veículos do tipo circulando atualmente na cidade de São Paulo, os incêndios prejudicam diretamente a população dependente deles. Mas, sim, pelo fato de que cada ataque significa um menor número de veículos em circulação na capital.  

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De acordo com a SPUrbanuss, a reposição de ônibus é demorada. Primeiramente porque as empresas já têm a necessidade de repor veículos fabricados há mais de dez anos, exigência da SPTrans, e os incêndios não são exatamente algo previsto por empresários e fabricantes. Segundo, porque, devido ao alto preço dos veículos, que exigem financiamento, e a uma série de exigências da SPTrans a serem aplicadas em cada ônibus, eles só conseguem ser substituídos 4 ou 5 meses depois de destruídos. Ou seja, só agora estão entrando em circulação aqueles incendiados no primeiro semestre, e apenas em fevereiro ou março isso ocorrerá, por exemplo, com o mais recente veículo destruído na cidade – na madrugada do último domingo (28), no Jardim Santo André, extremo leste paulistano.

Nivaldo Lima/Futura Press
Um dos dois ônibus incendiados na Rodovia Raposo Tavares na noite de 10 de setembro

"O empresário não tem o que fazer, ele já sabe que é um risco do seu negócio. O passageiro, que já se queixa da pontualidade dos ônibus e da insegurança que sente ao ter de esperá-los no ponto, acaba tendo um grande prejuízo a cada vez que um desses veículos é destruído", afirma o sindicato. "As empresas têm reservas de veículos, mas elas estão disponíveis para o caso de o ônibus bater, entrar em manutenção. Não há tanto carro para a substituição em casos extremos como esses incêndios."

Periférico
Há uma série de pontos em comum entre os casos na capital. Com exceção de dois ataques – um deles no último dia 16 de setembro durante uma reintegração de posse responsável por criar um cenário de guerra na região central; e o outro em um protesto em Santana, zona norte, em 20 de maio – todos os incêndios ocorreram em áreas periféricas da cidade, especialmente nos extremos leste e sul da capital paulista, localizações com os mais altos índices de violência da cidade. Além disso, parte dos ataques foi feita em massa, com incêndios praticados a dois ou mais ônibus ao mesmo tempo.

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O primeiro caso de 2014 ilustra bem essa característica: no dia 4 de janeiro, três veículos foram incendiados praticamente de forma simultânea no Jabaquara, zona sul de São Paulo, quando moradores protestavam contra a polícia militar após uma criança ter sido vítima de uma bala perdida. 

Ao menos outras 13 ocorrências tiveram características semelhantes, com ao menos dois veículos incendiados em intervalo de alguns minutos, em bairros como Capão Redondo e Cidade Ademar, zona sul; Lajeado, Jardim Camargo e Cidade Ademar, zona leste; e Jardim Kemel, zona oeste. 

Durante uma greve de motoristas e cobradores, em 20 de maio, ocorreu o mais emblemático dos casos: em um período de menos de quatro horas, seis ônibus, alguns deles enfileirados, foram incendiados na Avenida Dona Belmira Marin, no Grajaú, extremo sul da capital. Mais recentemente, em Cidade Tiradentes, zona leste, um protesto contra a morte de duas pessoas em um baile funk levou a três destruições concomitantes de coletivos, todas na Avenida dos Metalúrgicos.

Para o coordenador do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), José dos Reis Filho, são três os fatores a serem observados nesses casos: insatisfação popular com os serviços públicos – como transporte, segurança e saúde –; o possível envolvimento de organizações criminosas nas ações; e, claro, a visibilidade que um incêndio a coletivos atrai para as duas causas anteriores, seja por protesto, seja para amedrontar autoridades e população.

Marcelo Camargo/Futura Press
Ônibus incendiado em Americanópolis, no mês de junho: casos vêm crescendo desde 2011

"Os ônibus se tornaram nos últimos anos uma espécie de alvo preferencial, porque se percebeu que, seja qual for o objetivo, incendiá-los os torna um símbolo imediato de crise", analisa ele. "Confrontamo-nos, assim, com um problema que acaba afetando toda a população em que um objeto se transforma em alvo para chamar a atenção da mídia e das autoridades para os mais diversos problemas."

Procurada pelo iG, a SPTrans afirma que "atos de vandalismo contra ônibus urbanos são questão de Segurança Pública, de competência da Polícia Militar". "Sempre quando há indícios de incêndio ou depredação de ônibus do sistema municipal de transportes a empresa solicita formalmente apoio de policiamento preventivo ao chefe de operações do Copom [Central de Operações Policiais Militares]", diz em nota.

Já a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo enfatiza que a "Polícia Civil não tem medido esforços para esclarecer e prender os responsáveis por esse tipo de crime" e que a "Polícia Militar tem intensificado o policiamento em pontos críticos e nas garagens de ônibus quando verificada a necessidade de reforço de ações". 

"As investigações são conduzidas pelas unidades policiais territoriais, de acordo com o local onde ocorreu o crime. De janeiro a junho, 140 autores já foram identificados e 78 deles foram presos no Estado de São Paulo", conclui em nota.

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