Sindicato denuncia ocorrência de 4 incêndios em 15 dias no Metrô de SP

Por David Shalom | - Atualizada às

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Princípios de incêndio ocorreram em carros da Frota K, que atuam na linha mais movimentada da cidade; Metrô nega casos

No início de agosto de 2013, a frota K do Metrô de São Paulo ganhou projeção nacional ao ter o jogo de rodas de um de seus trens descarrilando em pleno horário de pico, entre as Estações Marechal Deodoro e Barra Funda, na zona oeste paulistana.

Logo, denúncias sobre a qualidade dos veículos pipocaram, uma ou outra medida foi tomada, mas, pouco mais de um ano depois, os problemas continuam. Somente nas primeiras duas semanas de setembro, quatro princípios de incêndio ocorreram em veículos da frota, de acordo com funcionários. Dois deles no mesmo trem, em um intervalo de apenas três dias.

Funcionários do Metrô combatem incêndio em trens da frota da K. Foto: Arquivo pessoalFuncionários do Metrô combatem incêndio em trens da frota da K. Foto: Arquivo pessoalFuncionários do Metrô combatem incêndio em trens da frota da K. Foto: Arquivo pessoalFuncionários do Metrô combatem incêndio em trens da frota da K. Foto: Arquivo pessoal

Corroborada pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo, a denúncia foi levada ao iG por funcionários da empresa, que garantem ter problemas com as máquinas desde que começaram a ser entregues os trens reformados da frota, ainda em 2011, e relatam que as falhas continuam a ocorrer com uma frequência assustadora.

Os trens rodam na Linha-3 Vermelha, a mais movimentada da cidade, responsável pelo trecho que liga as zonas leste e oeste na capital paulista.

"Esses incêndios têm ocorrido com essa frequência, não são algo que se possa chamar de normal e são um perigo para qualquer um que utiliza o sistema, tanto para funcionários quanto para passageiros", afirma o presidente do sindicato, Altino dos Prazeres. "Além dos perigos do próprio fogo e do pânico que ele pode acarretar, as ocorrências também acabam afetando todo o sistema, que já está sobrecarregado. Temos poucos cruzamentos, poucas interligações, então qualquer problema leva ao travamento das outras linhas, ao acúmulo de passageiros nas plataformas e torna ainda mais deficiente todo o sistema, que já tem muitos problemas."

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De acordo com relatórios enviados à Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) da empresa, foram no total cinco os casos de princípio de incêndio ocorridos somente neste ano. O primeiro, já denunciado no jornal do sindicato no primeiro semestre, foi em 21 de maio, próximo à Estação Vila Matilde, no trem K19. Os outros quatro, todos em setembro, nos dias 3, 11, 14 e 17, respectivamente, nas proximidades das estações Carrão (K15), República (K03), Sé e Brás (ambos no K01).

Registrados, os incidentes serão apresentados na próxima reunião da comissão, em 3 de outubro, com o intuito de serem solucionados pela Companhia do Metrô, responsável pelo transporte em São Paulo.

Fogo sob o vagão
Dentre todos os casos de princípio de incêndio, apenas um deles, no dia 11, ocorreu em horário de pico, quando passageiros chegaram a perceber a fumaça sob o vagão com problema e precisaram abandoná-lo.

O caso mais emblemático, no entanto, aconteceu em 14 de setembro, um domingo, por volta das 9h. Na ocasião, o K01 seguia no sentido-Barra Funda quando o operador percebeu sinal de fogo no trem nas proximidades da Sé, estação central do Metrô e a mais movimentada da capital.

De acordo com operadores de trem e responsáveis pela manutenção, funcionários usaram extintores de incêndio e conseguiram normalizar a situação momentaneamente até a chegada à República, quando a fumaça voltou. Os passageiros precisaram deixar os vagões, mas mais uma vez tudo parecia normalizado até o veículo se aproximar do Estacionamento da Barra Funda, onde o operador desceu e percebeu que o fogo persistia. A partir daí, foi necessária a atuação de vários funcionários ao longo de mais de uma hora para apagar as chamas.

Marcio Ribeiro/Futura Press
Passageiros circulam pelos corredores da Estação Barra Funda, parte da Linha-3 Vermelha

"Não dá para mensurar o perigo desses incêndios, porque, por exemplo, se ele ocorrer dentro de um túnel, pode ser fatal", conta ao iG um operador que pediu para não ser identificado. "Pelo fato de as janelas não terem abertura, a fumaça pode acabar passando pelo ar-condicionado e asfixiando todo mundo. Até hoje, o fogo conseguiu ser controlado no motor, que fica sob o trem, mas quem sabe se ele não poderá acabar se espalhando. Além disso, há o pânico, o maior dos perigos em situações como essa, porque as pessoas podem querer descer desesperadas, saindo pisoteando umas as outras e até podendo entrar em contato com os chamados terceiros trilhos, que são energizados e podem matar."

De acordo com os operadores consultados, todos os incêndios foram semelhantes e fizeram lembrar o caso que resultou no descarrilamento do jogo de rodas de um vagão em 5 de agosto de 2013: o rolamento do motor trava mas o motor continua em funcionamento, o que o leva a sobreaquecer e, consequentemente, a reagir com fumaça e fogo. Casos semelhantes ao do ano passado só não ocorreram, segundo um operador, devido à instalação de um sensor que sinaliza a ele quando a temperatura fica elevada, proporcionando o tempo necessário para tomar a iniciativa de evitar o pior. 

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O sindicato culpa as reformas feitas nos trens da frota pelos problemas, classificada pela associação de "maquiagem". "Parece que houve uma queda acentuada nos padrões de segurança do Metrô, uma pressa exagerada em fazer mudanças", diz Altino dos Prazeres, há 20 anos funcionário da empresa.

O sindicalista cita a bateria de testes pelas quais os trens sempre passaram – no pátio; na linha, sem passageiro; depois, tomadas as alterações cabíveis para os possíveis problemas; e só após todo o processo, os carros seriam colocados à disposição dos cidadãos. "Agora se coloca o trem na linha e se vai ajustando as falhas aos poucos, o que para nós é um grande erro. Não se deveria fazer testes com passageiros a bordo. Já denunciamos a frota K ao Metrô, ao governo e até ao Ministério Público", diz Altino, pedindo mudanças urgentes.

"Os operadores acabam tendo receio de trabalhar e tudo isso acaba sendo um perigo para todos os passageiros", conta outro operador da Linha-3 Vermelha. "Esse caso que descarrilou no ano passado, por exemplo, foi um grande golpe de sorte, assim como todos os outros que ocorreram mais recentemente em nosso Metrô. Imagina se ele acontecesse na Sé, uma estação que tem uma curva forte para a direita. Poderia ter morrido muita gente."

Em nota, a Companhia do Metrô, responsável pelo transporte na cidade, afirma que as informações dos funcionários não procedem, "pois nenhum trem sofreu princípio de incêndio". Também ressalta que, assim como nas outras linhas da capital, todos os trens da Frota K "têm uma programação de manutenção preventiva e, quando necessário, recebem ações de manutenção para sanar eventuais falhas".

*Colaborou Ana Flávia Oliveira

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