Seis crianças desaparecem por dia em SP

Por Beatriz Atihe - iG São Paulo | - Atualizada às

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Das 1.528 crianças registradas como desaparecidas desde janeiro, 1.208 foram localizadas, segundo dados oficiais

A cada quatro horas, uma criança desapareceu no Estado de São Paulo entre janeiro e agosto deste ano. Segundo dados da Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa  (DHPP), 1.528 crianças com até 12 anos de idade foram declaradas como desaparecidas nos primeiros oito meses do ano. Dessas, 1.208 foram localizadas e 320 ainda continuam sumidas. Os números mostram que os casos neste período já são maiores do que os registrados em todo o ano de 2013, que teve 1.478 desaparecimentos, uma média de 2,88 crianças por dia. 

A promotora pública e coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid), Eliana Vendramini, conta que apesar de as crianças não serem os que mais desaparecem, são as menos encontradas. “O problema das crianças é que, além do tráfico ilegal, as feições delas mudam muito rapidamente”.

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Divulgação
Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABDC), conhecida também como a organização das Mães da Sé


Segundo Eliana, entre as principais causas estão as fugas de crianças que vivem em situação de abandono, violência ou que sofrem desentendimentos familiares, menores que acabam se perdendo e fugas de pessoas portadoras de deficiência mental. “O que mais assusta nos desaparecimentos de crianças e de pessoas com deficiência mental é que elas não conseguem se defender. Com isso, podem sofrer violências tanto físicas quanto psicológicas”, diz a promotora.

Além disso, muitos casos de desaparecimentos de crianças acontecem quando os pais são separados e um deles acaba fugindo com o filho, submetendo essa criança ao que é chamado de alienação parental. “Muitas vezes, para afastar o filho emocionalmente [do pai ou da mãe], acaba se falando que ele não era amado, por isso é melhor ele não voltar mais, o que gera fortes transtornos para a criança”, explica a coordenadora do Plid.

Os traumas em um caso de desaparecimento não se manifestam apenas em quem desaparece, mas também em quem procura. “As famílias vivem buscando respostas na Justiça e por vezes acabam com medo de expor a história por se sentirem culpadas, achando que poderiam ter feito mais pelo caso. É indiscutível a necessidade de apoio psicológico para essas famílias”.

Para a promotora, a melhor parte do seu trabalho é quando um desaparecido é encontrado. “Cada pessoa encontrada vale ouro. Nós sentimos que colocamos um ponto final naquela história e que podemos seguir para a próxima”.

O Plid, criado em novembro de 2013, auxilia no processo de localização e, quando necessário, na identificação de óbitos e na busca por pessoas desaparecidas. “A procura é bastante desgastante para as famílias que, na maioria das vezes, se queixam muito da falta de informação sobre as investigações dos casos. Por isso, o Ministério Público decidiu centralizar essas investigações e assim conseguir dar um suporte maior para elas”, explica Eliana.

Como novidade, o programa dará maior ênfase nas investigações dos desaparecidos, cruzando os dados periodicamente. “Hoje em dia, o maior problema é a falta de articulação e comunicação entre as instituições que cuidam de casos como esses. O Plid cruza os dados dos desaparecidos de tempos e tempos. Além disso, todos os meses os casos em que as pessoas ainda não foram encontradas terão um novo registro de boletim de ocorrência”, conta a promotora.

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Mães protestam na escadaria da Catedral da Sé

Além da ajuda da polícia, os pais que perdem seus filhos procuram o apoio de ONGs. A mais atuante é a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABDC), conhecida também como a organização das Mães da Sé. Fundada por duas mães que buscavam por suas filhas, a entidade surgiu em março de 1996 com a intenção de divulgar casos de desaparecimentos.

Uma das fundadoras, Ivanise Esperidião busca sua filha Fabiana há 18 anos. Na época com 13 anos, a jovem havia ido com uma amiga visitar uma outra colega, mas na volta as duas se separaram e Fabiana nunca mais chegou em casa. “A incerteza na busca por uma pessoa que você ama é a pior sensação que um ser humano pode sentir”, conta Ivanise.

Quando uma mãe chega até a ONG pedindo por ajuda, as informações do seu filho são cadastradas no sistema com a apresentação do boletim de ocorrência, uma foto e uma cópia de um documento do desaparecido. A partir daí, a mãe pode frequentar o lugar para receber acompanhamento social, jurídico, psicológico e psiquiátrico.

“A cada 15 dias, nós realizamos um protesto silencioso na escadaria da Catedral da Sé, onde ficamos das 10h às 12h com cartazes com fotos dos nossos filhos”. Ivanise conta que quatro casos já foram solucionados a partir desses encontros e que o objetivo é chamar a atenção das pessoas que passam pela região para tentar encontrar repostas sobre os desaparecidos.

A Secretaria de Segurança Pública recomenda que as famílias registrem o boletim de ocorrência assim que uma criança desaparecer. Ele pode ser feito na delegacia mais próxima ou por meio da delegacia eletrônica, fazendo com que a polícia inicie as investigações o mais rápido possível.

A reportagem procurou a Secretaria para pedir esclarecimento sobre o aumento dos casos de desaparecimento de crianças em 2014, mas não recebeu nenhum retorno até o fechamento desta reportagem.

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