Liberar faixas de ônibus a táxis é 'erro estratégico', avalia especialista

Por David Shalom , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Para Horácio Figueira, medida deveria ser testada aos poucos, em todos os horários e em todas as vias de SP para ser aplicada

A liberação total das faixas de ônibus para uso de táxis na capital paulista é um "erro estratégico". A opinião é de Horácio Augusto Figueira, mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em engenharia de transportes, para quem as vias deveriam ser testadas individualmente e hora a hora a fim de garantir que a decisão realmente não venha a prejudicar os passageiros de veículos coletivos na capital paulista.

Luiz Claudio Barbosa/Futura Press
Agentes da CET orientam motoristas na faixa exclusiva na Marginal Pinheiros, agora liberada a táxis

"É uma decisão de forte impacto, que deveria ter sido feita lentamente, de forma gradual, com parcimônia. Até para evitar que a prefeitura acabe dando um tiro no próprio pé e precise voltar atrás, o que demandará coragem", avalia Figueira em entrevista ao iG. "Parece-me incoerente. Antes de liberar tudo de uma vez, deveriam ter testado por uma ou duas semanas em uma área, pelo mesmo período em outra... Aí, sim, teríamos uma análise que espelha de fato a realidade."

A medida foi anunciada pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, na sexta-feira (12) e publicada no Diário Oficial do Município no dia seguinte. A partir da data, todos os 440 km das chamadas "faixas exclusivas para ônibus" passaram a ter seu acesso liberado em qualquer horário para acesso de táxis com passageiros. Uma das bandeiras da atual gestão do PT, as faixas de ônibus foram criadas com o objetivo de priorizar o transporte coletivo na cidade.

Leia mais:
Prefeitura de São Paulo libera faixas exclusivas de ônibus para táxis

Tendo como base o banco de dados do Sistema SIM da SPTrans, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mediu as médias de trânsito nas faixas de ônibus com e sem a circulação de taxistas. A primeira, entre fevereiro e março, mediu as médias de trânsito nas faixas com vetos a taxistas; a segunda, entre abril e agosto, fez a mesma medição com os profissionais de táxi já circulando pelas vias.

A constatação foi que a presença dos taxistas não só não diminuiu a velocidade dos ônibus como até conseguiu aumentá-la, nos períodos da manhã, entrepico e tarde, em 6%, 4% e 5%, respectivamente.

O estudo, no entanto, usou como base apenas 1/6 da extensão das faixas (71 km) - localizadas nas Marginais Pinheiros e Tietê, corredor Norte-Sul (Avenidas Santos Dumont, Tiradentes, Prestes Maia, 23 de Maio, Rubem Berta, Moreira Guimarães, Washington Luís e Interlagos) e Avenidas Indianópolis, Sumaré e Corifeu de Azevedo Marquês. O volume é classificado pela SPTrans como "significativo" para se fazer a liberação, mas visto como insuficiente por especialistas.

Leia também:
Multas em faixas de ônibus quintuplicam na cidade de São Paulo
Com faixa exclusiva, ônibus ganha de carro por 30 minutos em SP

"Cada via tem sua característica, então precisa ser analisada uma a uma mesmo, não tirando uma média total, mas, sim, fazendo a análise de hora em hora. E, se houver problemas, dispensar sem medo os táxis, porque a prioridade tem de ser o coletivo. É uma falácia dizer que táxi é transporte coletivo", diz Horácio. 

Especialista em mobilidade urbana e professor da Escola de Engenharia do Mackenzie, Luiz Vicente Figueira de Melo concorda que seria de grande importância a abrangência de mais quilômetros no estudo para se ter uma maior confiabilidade da amostragem e poder aplicar a medida de forma segura. "O ponto principal é onde é feito o estudo e qual é o fluxo de automóveis no local. Uma zona periférica, por exemplo, será diferente de uma zona central. Só com uma amostragem assim e com uma extensão maior de quilômetros analisada é que podemos ter confiança total na decisão."

Segundo a Prefeitura, a medida, anunciada em evento com a presença de 250 taxistas, irá beneficiar 500 mil usuários de táxi por dia, além dos mais de 33 mil profissionais da categoria na cidade. "A nossa avaliação técnica é que [a presença dos táxis] não impactou na velocidade dos ônibus, ou seja, conseguimos o compartilhamento sem afetar a velocidade do transporte de massa. Em algumas cidades do mundo é assim, em outras não, mas em nosso caso específico foi possível tecnicamente conciliar sem prejudicar o ônibus", disse Haddad na ocasião. 

Responsável por fazer a prefeitura assinar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) segundo o qual táxis passaram a ser proibidos de circular em corredores de ônibus em horários de pico, o Ministério Público Estadual discorda. Por meio de sua assessoria de imprensa, a promotoria afirmou ter pedido explicações à Prefeitura sobre a liberação dos veículos, além do acesso aos novos estudos que bateriam de frente com aqueles levantados anteriormente. Também confirmou que o promotor de Habitação e Urbanismo Maurício Ribeiro Lopes pode entrar na Justiça para trazer de volta o veto aos taxistas nas faixas.

Leia tudo sobre: igspfaixa de ônibustáxitrânsito em são paulo

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas