Cemitérios públicos de SP têm média de mais de uma ocorrência de furto por dia

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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Desde 2013, 600 ocorrências foram registradas em 5 dos 22 sepulcrários da cidade; Prefeitura diz ter reforçado segurança

Adelino do Nascimento Filho caminha calmamente por entre os túmulos como se fosse um guia. Comenta o histórico dos enterrados, a importância das famílias, ressalta o fato de trabalhar entre algumas das mais tradicionais personalidades da história recente do Brasil, que descansam nas ruas arborizadas do Cemitério da Consolação, cuja popularidade dos "moradores" o levou a se tornar um dos mais conhecidos pontos turísticos da capital paulista. Ele aponta para uma tumba, aponta para uma outra e lamenta: "Por aqui é quase impossível encontrar um túmulo ou jazigo que não tenha tido algum objeto furtado".

Liderando a lista do número de furtos em cemitérios paulistanos, o Consolação teve centenas de peças de bronze levadas nos últimos meses; veja fotos. Foto: David Shalom/iG São PauloPorta de bronze furtada de túmulo foi substituída por uma de granito. Foto: David Shalom/iG São PauloCapela que teve as janelas e os portões furtados no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São PauloOrnamentos de bronze foram substituídos por vidro temperado neste jazigo. Foto: David Shalom/iG São Paulo Funcionário caminha por entre os túmulos da área mais afetada por furtos no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São Paulo Marcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloAlguns jazigos foram tapados por funcionários de forma improvisada, com tijolos. Foto: David Shalom/iG São PauloMarcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloProvidenciado pelas famílias dos enterrados, vasos de granito têm substuído os originais de bronze, furtados nos últimos meses. Foto: David Shalom/iG São PauloBuraco sobre túmulo revela que antes havia ornamentos de bronze sobre ele. Foto: David Shalom/iG São PauloMarcas sobre os túmulos deixam claras as ocorrências de furtos de todo o tipo de objeto na área do cemitério. Foto: David Shalom/iG São PauloAssim como tantos outros, jazigo que teve a porta furtada ficou aberto, com caixões à mostra. Foto: David Shalom/iG São PauloCimento tampa túmulo que teve portão de bronze furtado no Cemitério da Consolação. Foto: David Shalom/iG São PauloUm dos portões do cemitério, sob o qual ladrões passavam alguns dos objetos de furto. Foto: David Shalom/iG São PauloReforma improvisada de capela feita após furto de portão de centenas de quilos. Foto: David Shalom/iG São PauloComo nem todas as famílias pagaram a substituição, alguns jazigos e capelas permanecem do jeito que ficaram quando furtados. Foto: David Shalom/iG São PauloCapela que teve as janelas e os portões furtados . Foto: David Shalom/iG São PauloAssim como tantos outros, jazigo que teve a porta furtada ficou aberto, com gavetas à mostra. Foto: David Shalom/iG São PauloUma medida que se tornou comum no cemitério foi, após os furtos de portas bronze, as famílias as substituírem por outras mais simples, de granito. Foto: David Shalom/iG São Paulo Ornamentos de bronze foram substituídos por vidro temperado neste jazigo. Foto: David Shalom/iG São Paulo

Localizado na região central de São Paulo, o Consolação lidera uma triste estatística segundo a qual 600 ocorrências de furto foram registradas nos cemitérios públicos paulistanos de 2013 para cá  – uma média de mais de uma por dia. Somente ali, onde se encontram enterradas personalidades como o escritor Monteiro Lobato e o ex-presidente da República Washington Luiz, foram furtadas 220 peças nos últimos 18 meses, de acordo com dados oficiais do Serviço Funerário do Município.

A lista de objetos é longa e inclui principalmente peças de bronze, vendidas por quilo para ferros velhos da cidade: portões, vasos, jardineiras, placas de identificação, adornos de esculturas. E não é necessário muito esforço para constatar a quantidade de objetos furtados na área de 76.340 metros quadrados do mais antigo cemitério da cidade, fundado em 1884 e localizado entre os bairros de Higienópolis e Bela Vista.

Nas proximidades da entrada principal do local, buracos revelam a ação de ladrões: portões adornados recém-levados, deixando à vista gavetas de caixões que não deveriam estar expostas. De forma improvisada, algumas delas são tampadas toscamente com tijolos e cimento por funcionários. Outras, substituídas pelas famílias dos falecidos com portas de granito ou de vidro temperado.

"No começo levavam só os vasos e as floreiras, às vezes algumas placas, fáceis de carregar. Mas esses objetos foram acabando e ultimamente eles têm roubado portões e portas mesmo. Chega a ser impressionante o tamanho de alguns desses objetos", afirma Adelino, 53 anos.

Jardineiro do cemitério há duas décadas, Adelino apressa o passo para mostrar alguns dos furtos que mais chamaram sua atenção nos últimos meses, como os de portões de capelas com aproximadamente 200 quilos, arrancados e arrastados pelo cemitério durante a madrugada. "Imagina o barulho que fazem para levar um portão desses daqui até a saída", diz ele. "Antigamente, levavam de vez em quando uma coisa ou outra. Agora, a intensidade é outra. Tem noite que roubam 15, 20 objetos de uma vez. E é preciso um pequeno grupo para conseguir fazer isso."

Falta de vigilância

Segundo funcionários, o motivo para os furtos é a falta de vigilância noturna no local. Antes feita por guardas particulares, a proteção acabou ficando a cargo da Guarda Civil Metropolitana na atual gestão municipal – no entanto, somente recentemente ela passou a ser realizada durante a madrugada, quando a maioria dos casos ocorre. A Secretaria de Segurança Urbana de São Paulo afirma ter realizado, somente no primeiro semestre deste ano, 10.637 rondas nos 22 cemitérios paulistanos, nos períodos da 0h às 06h; 11h às 15h; 16h às 19h; 20h às 23h e 07h às 10h. Funcionários rebatem a informação.

"Você acha que se tivesse segurança aqui iam levar alguma coisa? Vai lá no cemitério do lado [Cemitério Protestante], que é particular, para ver se levam um fio de cabelo", diz um sepultador, funcionário da Prefeitura, que pediu para não ser identificado. "Devem ter levado portão de uns mil túmulos nesses últimos dois anos. Eu nunca tinha visto uma onda assim nos 24 anos em que trabalho aqui. É triste, falta de respeito. Se colocassem uns quatro pit bulls treinados soltos por aqui ou uns três vigilantes já resolvia o problema."

Por meio da Secretaria de Serviços Funerários, a Prefeitura afirma que a segurança particular foi dispensada devido a problemas com ex-funcionários. Chegou-se a tentar retomá-la, mas o pedido foi vetado pelo Tribunal de Contas do Município sob a alegação de que a vigilância preventiva deveria ficar a cargo da GCM, a quem cabe a proteção do patrimônio. Entretanto, a aplicação das rondas por parte da Guarda só foi iniciada recentemente, após os casos de furto virarem notícia nos meios de comunicação. "Apesar de terem ocorrido outros booms de furto, principalmente em 2011, o boom atual é um fenômeno que vem de alguns meses para cá. Não havia motivo para reforçar a segurança até então", explica a Secretaria.

Cautela com os adornos

Apesar de os números contarem casos desde o início de 2013, o aumento de furtos que levou o número de ocorrências a 600 no atual semestre começou em outubro do ano passado, no Cemitério do Araçá. Após uma série de casos e prisões em flagrante, chegou-se à conclusão da necessidade de se recolocar vigilância noturna no local – e, segundo a Prefeitura, depois da imposição, os furtos zeraram no local. No entanto, os ladrões migraram de área e logo começaram a surgir os casos no Cemitério da Consolação.

Desde julho, a Guarda Civil Metropolitana afirma realizar vigilância 24 horas nos dois cemitérios. A Secretaria até já prevê um possível futuro foco de novos casos: o Cemitério São Paulo, também marcado por adornos de bronze. Atualmente, a Prefeitura desaconselha as famílias a colocarem enfeites do tipo nos túmulos de seus parentes.

Promessa antiga devido a ondas anteriores semelhantes de furto no Consolação, até hoje não foi realizada a instalação de câmeras para filmar o terreno, uma espécie de museu a céu aberto com área equivalente à do Anhembi Parque – o maior centro de exposições da cidade.

Os únicos equipamentos que poderiam colaborar com sua segurança estão instalados na parte externa, dois deles, da GCM, em locais por onde os furtadores nem sequer conseguiriam fugir devido à altura dos muros – o outro, em frente à fachada, é do Corpo de Bombeiros, sem nenhuma ligação com cemitério. A alegação para a falta de equipamentos na parte interna é que o excesso de árvores impediria o alcance de foco das câmeras.

A iluminação também é precária, limitada às áreas próximas aos muros, e só voltou a funcionar recentemente, após anos de escuridão total devido ao furto de cabos de cobre de energia elétrica. Atualmente, para intimidar futuros casos, é estudada a possibilidade de se instalar holofotes com sensores de movimento, como os utilizados em condomínios.

"As famílias vêm nos perguntar o que estamos fazendo aqui, o motivo pelo qual os bandidos conseguem levar os objetos, e não temos nem o que responder. Quando estamos aqui, de dia, não tem bandido", desabafa Adelino, por ora aliviado com a paralisação dos furtos de um mês para cá. Ele aponta para a fresta do portão principal do cemitério, pela qual ladrões passaram dezenas de objetos para o lado de fora depois de os terem arrastado de forma barulhenta pelo chão de cimento do local. "Só nos resta torcer para que as coisas não voltem a piorar."

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