Roubos caem na região da Cracolândia, mas aumentam na cidade de São Paulo

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo | - Atualizada às

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Criminalidade caiu após a implantação do programa De Braços Abertos; furtos de veículos tiveram redução de 47,3%

Após a implantação do programa De Braços Abertos – que oferece moradias, tratamento e emprego para dependentes químicos da região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo –, os números de crime contra patrimônio na região caíram nos seis primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Na capital, no entanto, os índices de criminalidade aumentaram no mesmo período. O programa foi implantado em janeiro deste ano.

Veja imagens feitas por fotógrafo italiano na Cracolândia:

Usuárias Danielle e Sabrina, ambas com 19 anos. Algumas meninas usam a prostituição para conseguir o crack. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJúnior, de 24 anos, autorizou ser fotografado fumando crack no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiMãos do usuário Daniel, de 24 anos, em posição "espiritual", segundo Ortu. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJá as mãos Pedro Enrique, de 18 anos, revelariam agressividade do jovem. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiThiago Rodriguez, de 26 anos, foi flagrado por Ortu na Cracolândia, no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiValéria, de 32 anos, deixou ser fotografada pelo profissional italiano. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiRegistro do jovem Gabriel, de 17 anos. O fotógrafo se espantou com a presença de menores na Cracolândia. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Jay e Kelly. Ortu passou ao menos um ano registrando os moradores da região. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiGiuliano, de 16 anos, cobre o rosto durante registro de Alessio Ortu. "Sempre após um pedido de autorização humano", diz. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJerson, de 34 anos, limpa o rosto de Jonatas, de 25. Fotógrafo presenciou cenas de amizade entre os usuários. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Júnior, de 24, e Rangel, de 27. Fotos foram expostas no Palácio da Justiça. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiCena do documentário Simulacrum Praecipitii com o trabalho de Alessio Ortu (na foto). Foto: Reprodução

De acordo com o secretário municipal de Segurança Urbana, Roberto Porto, o número de roubos de veículos na região foi a zero nos seis primeiros meses deste ano. No mesmo período do ano passado, foram 11 ocorrências do tipo. O furto de veículos também caiu 47,3%, de 19 no primeiro semestre de 2013 para dez, em 2014. Em contrapartida, o único homícidio registrado na região de janeiro a junho deste ano tirou a estatística do zero que manteve no ano passado. Os números, segundo ele, são do Infocrim, base de dados da Secretaria de Segurança de São Paulo (SSP-SP).

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“O resultado não é fruto só trabalho da Guarda. É fruto da ocupação do espaço como um todo. Quando o Estado está presente de forma positiva, os índices tendem a melhorar”, diz ele citando operação conjunta das áreas da prefeitura, como a Guarda Civil Metropolitana, Assistência Social e Saúde, além de apoio das polícias Militar e Civil, de responsabilidade do governo do Estado.

O secretário também se anima com a redução dos números de roubos em geral. A modalidade apresentou queda de 4%, passando de 196 para 188. As ocorrências de furtos também apresentaram redução de 8%, de 347 para 319.

O número de flagrantes de tráfico de drogas aumentaram, o que para Porto é um bom sinal. Segundo ele, foram realizadas 127 prisões neste ano contra 52 no ano passado, aumento de 144%.

“Eu faço a leitura de que se está prendendo mais e tirando os traficantes da rua. O trabalho é em conjunto. Só a guarda faz em média duas prisões de traficantes por dia. Mas foi o trabalho da Polícia Civil que prendeu uma grande quadrilha que atuava na região”, afirma. Porto se refere a prisão de Salete Madalena de Souza Araújo, de 52 anos, conhecida como "Rainha da Cracolândia e outras quatro pessoas no último dia 12.

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Segundo ele, 170 agentes da Guarda Civil Municipal trabalham 24 horas por dia na região. “Mas o trabalho não se sobrepõe ao da Polícia Militar, eles se complementam”.

Guaracy Minguard, analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que ainda falta muito para que a região seja de fato considerada segura.

“A questão da cracolândia sempre foi complexa e não depende só da ação policial. A PM só prende microtraficantes e quando sai um outros ocupam aquele lugar. É necessário uma ação mais intensificada e articulada na região, com trabalho urbanístico, de ação social, de saúde e investigação”, diz.

Roubos aumentam na capital e homicídios caem

Enquanto a prefeitura comemora os resultados criminais na região, a capital de São Paulo, vê o número de crimes contra roubos e furtos de veículos aumentar. Segundo dados da Secretária de Segurança Pública, entre janeiro e junho do ano deste ano, os furtos de veículos na capital subiram 28%, de 19.815 para 25.370. O roubo de veículos também subiram 9,4% na mesma base de comparação, de 24.131 para 26.420 ocorrências.

Já os roubos em geral tiveram aumento de 37% de um período para outro. No primeiro semestre de 2013 foram registrados 59.783 roubos e nos seis primeiros meses de 2014, foram 82.490. Os furtos se mantiveram praticamente estável, passando de3 97.289 para 98.897 (alta de 1,65%).

O dado negativo da região da Cracolândia é o de homicídio. Neste primeiro semestre, uma pessoa foi morta na região e no ano passado, nenhum assassinato foi registrado. A capital de São Paulo, em contrapartida, vem registrando queda neste tipo de ocorrência. Entre janeiro e junho deste ano, foram registrados 560 assassinatos e no mesmo período do ano passado, foram 614 (queda de 8,7%).

Para o padre Julio Lancellotti, da Pastoral da Rua, o aumento da criminalidade em outras regiões da cidade indica uma “readequação do crime organizado”.

“O crime organizado não deve estar tendo prejuízo. Há uma readequação ou renegociação, migração do crime. Seria interessante se os índices tivessem diminuído por toda a cidade." Ele diz que a presença massiva de policiais e câmeras na região inibem a criminalidade, mas que os números ainda não são motivo para comemorar porque os crimes cometidos por usuários são furtos e roubos de celulares e objetos que possam ser trocados facilmente por drogas. “O furto de carro na região caiu mais de 47%, mas ususário de crack não rouba carro”, diz.

Bairro vizinho

O sintoma de readequação a qual o Lancellotti se refere é sentido já em Higienópolis, bairro de classe média alta vizinho a Cracolândia. No bairro, os furtos em geral aumentaram 34% nos seis primeiros meses do ano (de 347 para 465) e os roubos cresceram 36% (de 139 para 190), na mesma base de comparação. Roubos e furtos de veículos tiveram uma queda, de 28% (7 para 5) e 5% (20 para 19), respectivamente.

O secretário Porto diz que apesar do aumento de roubos e furtos registrados em Higienópolis, o programa não espalhou os dependentes. “Nós temos cuidado para não espalhar os usuários. Se tivessemos a inteçção de espalhar, o fluxo [vários dependentes usando drogas juntos, cena muito comum na região] teria sumido. A preocupação da PM também é não espalhar”, diz.

Programa De Braços Abertos

De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o programa realizou, até 22 de julho (último dado disponível) 28 mil atendimentos de saúde aos dependentes quimícos. Ao todo, são 422 usuários cadastrados.

Segundo a prefeitura, o programa também atuou na retomada do espaço público, com investimetno em iluminação e reativação do largo Sagrado Coração de Jesus, que já foi ponto intenso do “fluxo”, local de uso uso de crack.

A reportagem entrou em contato com a SSP a respeito do aumento dos roubos na cidade, mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta. 

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