"O lixo do mercado é o nosso luxo", diz morador de ocupação nos Jardins

Por David Shalom , iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Justiça definiu que reintegração de posse de prédio em bairro nobre de São Paulo será realizada no próximo dia 17 de agosto

Diego Miranda se sente bastante confortável no apartamento onde vive provisoriamente há quase dois meses na capital paulista. Possui quarto próprio, acesso fácil a todas as regiões da cidade, além de ter, assim que deixa o prédio, uma rua íngrime o suficiente para deslizar com o skate, um de seus hobbies. Mas, assim como os outros atuais moradores do edifício de número 935 da Rua Pamplona – ocupado desde o dia 12 de junho pelo Movimento de Moradia da Região Central (MMRC) –, o sul-matogrossense de 31 anos ficou embasbacado com os preços dos produtos nos comércios dos Jardins, uma dos bairros mais abastadas da capital paulista. E precisou criar uma solução inventiva para evitar passar fome sem gastar dinheiro.

Veja fotos da ocupação no bairro nobre paulistano:

Edifício onde movimento sem-teto se instalou há quase dois meses, localizado no nobre bairro dos Jardins, em São Paulo. Foto: David Shalom/iG São PauloUm dos ocupantes do prédio aguarda responsável por portaria para entrar. Foto: David Shalom/iG São PauloLoja localizada no andar térreo do edifício, onde proprietário afirma estar sofrendo com prejuízos desde a ocupação. Foto: David Shalom/iG São PauloBandeira do MMRC na entrada do edifício: grupo deixará espaço no próximo dia 17 de agosto, quando ocorre a reintegração de posse. Foto: David Shalom/iG São PauloSalgados de bar/lanchonete vizinha à ocupação: o que sobra é levado para os sem-teto ao fim do expediente. Foto: David Shalom/iG São PauloFachada do edifício na Rua Pamplona, cercado por cafés, restaurantes, lanchonetes e salões de beleza. Foto: David Shalom/iG São PauloFaixa colocada pelo MMRC é um dos poucos detalhes que chamam a atenção para o fato de haver sem-teto no edifício . Foto: David Shalom/iG São PauloEdifício localizado logo à frente da ocupação: movimento normal nos cafés e salões de beleza. Foto: David Shalom/iG São Paulo

"A gente recicla tudo", diz ao iG o jovem de cabelos longos e cavanhaque fino, natural de Bonito (MS) e que se mudou há dois anos para São Paulo para tentar ganhar a vida como ilustrador. "O lixo do mercado de lá de cima é nosso luxo", sorri. "Vamos lá todo santo dia quando estão jogando as coisas fora, às 21h20 em ponto, e pegamos de tudo: frutas, legumes, verduras, o que estiver bom."

Apesar de amplamente divulgada pela mídia, a Ocupação Pamplona passa quase despercebida no trecho da rua marcado por cafés, lanchonetes e salões de beleza em meio a nobres edifícios residenciais. Os vizinhos, em sua maioria, a ignoram – apenas aguardando a reintegração de posse, marcada para o próximo dia 17 de agosto. Boa parte do comércio, também. No entanto, assim como o mercado, funcionários de um ou outro estabelecimento da região acabaram se sensibilizando com a situação das cerca de 87 famílias que ocupam o local e passaram a ajudá-las da forma como podem.

É o caso de um bar/lanchonete localizado a três casas da ocupação. Diariamente, de 15 a 30 salgados de todos os tipos – esfiha, coxinha, risólis – que sobravam do expediente eram jogados fora como se não servissem mais para a alimentação, prática comum em estabelecimentos do gênero. De um mês para cá, essa realidade mudou. "A gente tem levado tudo o que sobra para lá", conta Antônio Marco da Silva, 30 anos, há três trabalhando no balcão do local. "É um pessoal gente boa. Tem criança, um monte de morador necessitado, então não custa nada. Até porque, se não dessemos a eles, ninguém iria comer."

David Shalom/iG São Paulo
Salgados em lanchonete vizinha: à noite, funcionários dão o que sobra aos sem-teto

Tais ajudas vêm a calhar para a assistente de cozinha Maria Ilza dos Santos, desempregada que divide um cômodo do prédio com o marido doente e três crianças pequenas. Incumbida da tarefa de travar e destravar o cadeado improvisado do portão do prédio na tarde da visita do iG, ela conta que parte da sua dificuldade financeira é amenizada pelas sopas preparadas na cozinha geral do edifício com as "doações" adquiridas nas redondezas. "É tudo muito caro por aqui. Só compro pão e leite para as crianças e ainda assim vai uns R$ 300, R$ 400 por mês", diz ela, com uma risada nervosa. "Infelizmente, os moradores daqui não nos ajudam. É uma vizinhança rica que não quer incentivar pobres sem-teto a ficar do seu lado."É o caso de um bar/lanchonete localizado a três casas da ocupação. 

Diego e Maria fazem parte da ampla variedade de tipos vivendo na ocupação. A todo momento, vendedores ambulantes, flanelinhas, garçons, cartunistas, artesãos, tatuadores, cozinheiros e até lapidários sobem e descem o lance de escada que dá acesso ao edifício. Cada um dos moradores - incluindo 15 crianças pequenas - possui carteirinha de identificação confeccionada especialmente para eles, com foto e nome completo. Drogas, dizem, não são toleradas. Tampouco comportamentos violentos que coloquem em risco outros moradores. "De vez em quando expulsamos alguém, porque, infelizmente, tem gente desonesta que se infiltra nas famílias", diz o sushiman Wilson Santos, 38 anos. "Ontem (segunda-feira, 4) mesmo tivemos um caso esquisito: um cara tentou estuprar uma menina aqui e o enxotamos para a rua. Ele só não foi linchado porque temos um objetivo, o da moradia, e um ato de violência poderia nos prejudicar nessa questão."

Leia também:
Câmara aprova projeto que regulariza terreno de ocupação do MTST
MTST veta exibição de abertura da Copa e moradores esvaziam ocupação em Itaquera

Eles não são daqui
Enquanto os sem-teto sobem e descem as escadas de acesso ao prédio, Nivaldo Bertoncello observa tudo com semblante insatisfeito, inconformado com a atual situação de seu negócio. Proprietário de uma fotocopiadora e de uma loja de shakes naturais localizada no andar térreo do prédio ocupado, ele afirma que a presença dos sem-teto diminuiu seu faturamento em 70%. "A maioria dos meus clientes simplesmente não vem mais aqui. Esse comportamento deles, de fazer barulho, sujeira, sentar aqui na frente para comer marmitex, afasta a clientela tradicional da região, acostumada à segurança", reclama, entre um cigarro e outro. "Na cabeça dos sem-teto, o prédio estava abandonado. Pergunto de onde tiraram essa conclusão se a zeladora estava morando lá em cima, minha loja continuava aqui, assim como o funcionamento das vagas que alugamos na garagem?"

David Shalom/iG São Paulo
Morador aguarda para entrar no prédio, localizado no nobre bairro dos Jardins

A zeladora é Maria José Almeida Silva. Após a chegada do movimento, ela precisou abandonar o prédio em que vivia há 30 anos. A ocupação ocorreu quando ela descansava com o marido, Lindor Cabral, em Piracaia, no interior de São Paulo. Maria reclama que a ação do movimento foi duplamente injusta com ela, pois subitamente se viu sem emprego e sem-teto. "Estou há dois meses na rua, uma hora na casa da filha, outra na do irmão. No dia em que cheguei aqui e soube da Ocupação, o coordenador disse que, caso eu me demitisse e me juntasse ao movimento, poderia morar aqui com eles", desabafa.

Coordenador-geral e fundador do MMRC, Nelson da Cruz Souza se defende. Afirma que, se o prédio estivesse mesmo sendo usado, jamais seria ocupado. "Só ocupamos lugares ociosos que não cumprem sua função social", diz ele, de aparência simples, calvo, barba farta e grisalha. Ele acabara de voltar de uma conversa com o assessor da presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, que concordou em receber, até esta sexta-feira (8), um relatório com todos os despejos previstos para a capital paulista a fim de tentar uma reconciliação com seus moradores. Ainda assim, o líder do grupo não se mostra satisfeito. "Ocupação é algo muito cansativo. Estou na luta há dez anos e a questão da moradia em nada mudou", desabafa ele, rechaçando qualquer possibilidade de nova ocupação após a reintegração de posse na Pamplona, marcada para daqui a menos de dez dias, em 19 de agosto.

"É sempre a mesma coisa: você vai lá, fica um mês, dois meses, e é despejado. Vai de novo e é a mesma história. Não adianta ficar fazendo um monte de ocupação e não resolver o problema. E é o que tem acontecido."

Apesar disso, Nelson não se vê abandonando a luta por moradia que abraçou com a fundação do movimento, em 2000. Mesmo que, entre todas as ocupações do grupo, apenas duas tenham restado, e que as reuniões do MMRC, com 2.300 famílias cadastradas, ultimamente apresentem dificuldades para reunir no máximo 100 ou 200 pessoas. "Quando chegamos aqui, era um criadouro de insetos. Limpamos tudo, está tudo funcionando, dividimos contas de água, luz. Todos são honestos", diz ele. "Afinal, você acha que se esse pessoal tivesse moradia iria passar por tudo isso só para ocupar?"

Leia tudo sobre: ocupação pamplonaigsp

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas