Receio de volume morto faz paulistas  evitarem água da Sabesp: 'nem com filtro'

Por David Shalom , iG São Paulo | - Atualizada às

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Mesmo em áreas não abastecidas pelo Cantareira, moradores têm comprado água engarrafada por desconfiar do tratamento

Há pelo menos cinco meses, Thaís Vieira de Melo vê as torneiras de sua casa ficarem totalmente secas ao longo da madrugada, sempre a partir das 23h30. Universitária que, assim como o pai, costuma se deitar cedo devido aos afazeres matutinos, ela não sente o impacto da medida - jantar, banho e limpeza dental normalmente já foram feitos no horário de início da "seca". Entretanto, outro problema acabou por surgir na vida da jovem e a levou a impor a si uma regra que aplica diariamente: trocou a água do filtro pela mineral engarrafada.

Patricia Stavis
Sabesp afirma que não há risco algum no uso da água do volume morto

"Notei que, quando a água volta, ela sai branca, com um aspecto de leite saindo da torneira. Imagino que tenha relação com o volume morto, até porque nunca tinha visto a água desse jeito antes de terem começado a distribuir o recurso dele", afirma a estudante de 21 anos, moradora do bairro de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista. "Mesmo que deixe a torneira aberta por um tempo, a aparência de sujeira continua. Simplesmente não dá para confiar para beber. Então passei a gastar em média R$ 40 por mês nas garrafinhas para consumo rápido."

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Thaís pode estar duplamente equivocada. Primeiro porque a água que recebe em sua residência tem origem no Sistema Alto Tietê - a partir de janeiro, a região começou a receber água dessa reserva para diminuir o impacto sobre o Cantareira, por ora o único com reservatórios distribuindo o recurso da reserva técnica conhecida como volume morto. Segundo porque o aspecto leitoso, afirma a Sabesp, não tem qualquer relação com sujeira ou aplicação de cloro e outras substâncias químicas, mas sim com um "fenômeno natural que ocorre ao se proceder manobras operacionais na rede de abastecimento, causando turbilhonamento hidráulico e o aparecimento de microbolhas no instante da abertura da torneira". "A aplicação de cloro é feita de forma controlada, visando a garantir a sua potabilidade e não sendo a responsável pelo fenômeno 'água branca'", diz nota enviada pela empresa ao iG. Ainda assim, a universitária não é a única preocupada com o consumo.

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Tem se tornado cada vez mais comum os cidadãos paulistanos evitarem a ingestão de água da torneira, mesmo quando existe equipamento para filtrá-la. Distribuidoras de água de regiões com o problema afirmam que houve aumento na comercialização de garrafas e galões de água nos últimos meses, especialmente devido ao temor de bebê-la.

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Moradora de Diadema, Queila Vicente Fonseca Santos, 29 anos, também adotou a medida para evitar o que imagina ser uma contaminação. No seu caso, a casa, dividida com o marido e a filha de três anos, é abastecida pelo sistema Rio Grande, braço da Represa Billings responsável pela distribuição em toda a região do ABCD Paulista. "A água vem meio amarelada, dá a impressão de estar suja. Deve ter a ver com o volume morto. E tenho medo disso", afirma ela. "Mesmo com filtro não tomo. Compro aqueles galões de cinco litros para resolver o problema."

Dono de um comércio no bairro da Vila Formosa, zona leste da capital paulistana, Welton Peccia é um dos que celebram o atual momento. Com a expectativa de vender uma quantidade diminuta no inverno devido ao menor consumo próprio da estação, o empresário afirma que sua distribuidora tem lucrado na proporção em que aumentam as reclamações sobre a qualidade do recurso.

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"Minha loja teve um boom tão grande nos últimos meses que estou fazendo atendimento agora, neste momento, enquanto dirijo, falo com você e converso com um funcionário", afirma Peccia. "A qualidade da água aqui no bairro está péssima, tem muito cliente que nem com filtro toma. Ironicamente, esse lado negativo tem me ajudado muito na comercialização de galões de 20 litros, 30 litros. Eles estão saindo daqui literalmente que nem água."

Facebook/Reprodução
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Proprietária de uma distribuidora de água na Vila Guilherme, na zona norte da cidade, Edna Aparecida também notou aumento nas vendas de sua loja e nas reclamações dos clientes. "A qualidade está péssima. Tem freguês que aparece dizendo que a água não só não dá para beber, como não vale nem para fazer comida ou dar ao cachorro", diz ela. Edna também nota os problemas em sua casa, localizada no mesmo bairro, abastecido pelo Sistema Cantareira: "Tenho muito medo desse volume morto ser sujo. Vejo uma água amarela, barrenta, podre. E, naturalmente, temo que tudo piore. Já já nem água para banho vai ter."

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A Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam) vê o aumento como possivelmente pontual, em apenas algumas distribuidoras, já que "não foi constatado crescimento expressivo no setor nos últimos meses. "A indústria cresce dois dígitos anualmente, o que também ocorre em 2014. Mas os dados não mostram relação entre o crescimento atual e a procura por produtos devido ao temor relacionado ao consumo do volume morto", afirma a assessoria de comunicação da entidade. "O aumento expressivo ocorreu mesmo no auge do verão, no início do ano, quando São Paulo registrou crescimento de 30% a 35% nas vendas de água."

Contra os dados gerais, Peccia comemora o fato de ser um dos lojistas "premiados" com a alta procura. "Como comerciante, está bom demais para mim, ótimo. Já tive cliente falando até em comprar galão para tomar banho. Aí eu lucraria ainda mais", diz.

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