Conheça a Rainha da Madrugada, a mais extensa linha de ônibus de São Paulo

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo | - Atualizada às

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Criada em 1988, linha circular 3310-10 (Terminal Amaral Gurgel/Cidade Tiradentes) que roda de madrugada percorre 102 km e liga o centro de São Paulo ao extremo leste da capital

Passados quase oito meses desde o início de 2014, uma das promessas da Prefeitura de São Paulo para este ano, a implantação de 140 linhas de ônibus noturnas, ainda está engatinhando. A chamada Rede da Madrugada – que deve atender pontos de interesse como hospitais, prontos socorros, delegacias, bares e casas noturnas no horário em que os trens, o Metrô e a maioria dos ônibus param de funcionar – tem atualmente apenas 12 linhas implantadas, nas zonas sul, leste e norte da cidade. É menos de 10% do previsto. A SPTrans, empresa responsável pelo transporte público municipal, diz que o sistema está sendo implantado de forma gradativa. 

Enquanto a rede não fica pronta, a população tem cerca de outras 100 linhas noturnas (que funcionam de meia-noite às 4h) implantadas em administrações anteriores. Uma dessa linhas é a circular 3310-10 liga o Terminal Amaral Gurgel, na região central, ao bairro de Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital. 

Percorrendo 102 km, distância praticamente igual a uma viagem entre a capital e a cidade de Votorantim, no interior do Estado, a linha é mais longa de São Paulo e, talvez por isso, tenha sido apelidada de Rainha da Madrugada. Criada em 1988, atualmente ela transporta, em média, 526 passageiros nos dias úteis, 420 aos sábados e 312 aos domingos.

Veja o vídeo da viagem na linha mais extensa de SP



Pontualmente, às 00h50, o motorista Marcos Neves de Oliveira, de 47 anos, dá partida no coletivo que cortará São Paulo, rumo a Cidade Tiradentes. No ponto, cinco pessoas esperam a saída. Oliveira tem de estar de volta ao terminal às 4h30 para fazer a segunda viagem. Entre as duas viagens, outros dois ônibus partem do terminal, às 2h15 e às 3h15, com o mesmo destino. 

Leia mais: Prefeitura extingue e altera linhas de ônibus em São Paulo

Promessa: São Paulo terá 140 linhas de ônibus ativas durante a madrugada

 Na primeira viagem da noite, o fluxo de passageiros não é tão intenso. Outras 25 pessoas em média embarcaram no ônibus, em pelo menos cinco paradas ainda na região central da cidade. Quando o coletivo alcança a Radial Leste, as paradas em pontos e semáforos ficam cada vez mais escassas e o motorista aproveita para dar uma testada no motor:vai quase o trajeto inteiro no limite da velocidade máxima permitida, 60 km por hora. Por conta das condições do veículo e da alta rotação mecânica, perto do final do percurso o ambiente é envolvido com cheiro de borracha queimada.

O balanço constante do coletivo e a meia luz interna é um convite para que o cansaço vença e a maior parte dos passageiros durma. Assim, o cobrador fica, muitas vezes, com a incumbência de acordar os passageiros quando chegam ao destino.

“Uns passam do ponto e vão acordar lá em Tiradentes. Tem gente que pede para dar um toque [quando chega no ponto]. Eu dou esse auxilio e viro um despertador”, diz Adailton Rodrigues, 37 anos, que está na linha há um ano.

A garçonete Joice Lima dos Santos, 28 anos, já precisou desse "despertador". "Eu fico no celular jogando ou escutando música para passar o tempo, porque se eu dormir eu vou passar do ponto. Já aconteceu e fui parar em Tiradentes. Voltei dormindo e o cobrador me chamou. Estava muito cansada", conta. Funcionária de um restaurante em Pinheiros, na zona oeste, ela fica todos os dias cerca de 1h20 dentro do ônibus que a deixa no bairro de Itaquera, onde mora. Com o Metrô, diz, venceria o percurso em 30 minutos. 

Linha foi criada em fevereiro de 1988 e transporta, em média, 526 passageiros nos dias úteis, 420 aos sábados e 312 aos domingos. Foto: Reprodução/TV iGMarcos Neves de Oliveira, 47 anos, é um dos condutores da linha mais longa de São Paulo. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCobrador Adailton Rodrigues, 37 anos, vira despertador para acordar passageiros. Foto: Reprodução/TV iGO maître Nilton César da Silva, 29 anos, utiliza a linha há seis anos. Foto: Reprodução TViGA garçonete Joice Lima Santos, 28 anos, diz que já perdeu as contas de quantos ônibus perdeu. Foto: Reprodução TViGO garçom Sérgio de Sousa, 26 anos, diz se preocupar com assaltos enquanto espera ônibus. Foto: Reprodução/TV iGAmbulante e metalúrgico Francisco Elbert da Costa, 44 anos, usa a linha para chegar a região da 25 de março, onde vende café. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCorredor do ônibus é tomado por mercadorias de ambulantes da rua 25 de março. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCorredor do ônibus é tomado por sacolas com mercadorias que os ambulantes vendem na região da rua 25 de Março (centro). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo

Assim como ela, a maior parte dos passageiros que utiliza o ônibus durante a semana trabalha em restaurantes. Mas, nos finais de semana, a linha ganha outros usuários, nem sempre agradáveis, conta o motorista.

“Principalmente de sexta para sábado, ela é mais movimentada. O que mais dá são os bêbados. O pessoal vem da balada com aquele cheiro. Esta semana mesmo, teve um que deu aquela golfada aqui atrás de mim. Tive de parar em um posto, pegar um regador e jogar água, senão não aguentava seguir viagem”, diz o motorista Oliveira.

Se a reclamação do motorista é em relação aos passageiros que exageram na bebida antes de embarcar no ônibus, os usuários reclamam da distância entre as partidas dos ônibus e a falta de outras opções para chegar em casa.

“Para mim, só tem essa linha. É ruim porque você fica sem possibilidades. Se perdeu, já era. Às vezes, tenho de esperar uma hora, uma hora e meia para pegar o ônibus seguinte", diz o garçom Sérgio de Sousa, 26 anos, que trabalha na Vila Mariana (zona sul) e mora na Vila Matilde (zona leste). Ele reclama, principalmente, da falta de segurança nos pontos e diz já ter sido assaltado enquanto esperava o coletivo. 

Volta

Após uma viagem de quase duas horas, o último passageiro desembarca e poucos metros adiante o ônibus chega vazio ao terminal velho da Cidade Tiradentes, na avenida dos Metalúrgicos. Após uma parada de menos de cinco minutos para tomar um café e ir ao banheiro, o motorista retoma a viagem. "Todo dia são sempre os mesmos passageiros. Daqui a pouco entram os nigerianos", diz o cobrador.

Os estrangeiros citados entram logo adiante. Para facilitar o embarque, o motorista abre a porta de trás e sete homens carregados de sacolas com brinquedos entram no coletivo, que logo se transforma em um verdadeiro estoque ambulante.

Um dos nigerianos, que não se identificou, diz não saber falar português. "Eu coloco o preço no produto e mostro para o cliente", explica, em inglês, quando questionado se a falta de fluência não atrapalha as vendas.

Defeito corriqueiro, segundo operadores e passageiros, o validador do Bilhete Único não funcionou quando os estrangeiros foram pagar a condução. Para tentar resolver o problema, o motorista para o ônibus e reinicia o sistema - o que causa certo descontentamento nos passageiros, que já estão preocupados com eventuais atrasos. O procedimento é repetido em mais uma ocasião e não dá certo. Dessa vez, nenhum dos passageiros conseguiu pagar a condução. A SPTrans informou que vai verificar o problema com a empresa responsável pela linha. 

Assim como na ida, o ônibus na volta também serve de dormitório para os trabalhadores que quase não têm tempo de dormir em casa. Vendedor de café na rua 25 de Março até as 9h e metalúrgico em uma fábrica de panela na Mooca (zona leste) a partir das 10h, o morador de Guaianases Francisco Elbert da Costa, de 40 anos, só vai chegar em casa novamente às 21h30. Após dormir pouco mais de duas horas, acorda à 1h para preparar o café e o chá que serão vendidos no dia seguinte. "O ônibus passa às 3h. Se eu perder, pego o de 4h e quando chego na 25 de Março, já não dá tempo de vender nada", diz.

Rotina de pouco sono e muito trabalho também tem o porteiro Domingos Torres Filho, 57 anos, que trabalha 12 horas por dia no bairro do Jaguaré, onde chega pouco antes das 6h.  "Tenho seis anos nessa rotina. Se não tivesse essa linha, não sei o que faria. Ela é nosso socorro da madrugada", diz. 

Às 4h25, o ônibus chega ao terminal Amaral Gurgel. Diferente das outras noites, o defeito no validador não vai permitir que o veículo parta para a segunda viagem.

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