Xerife da Vila Madalena luta contra torcedores baderneiros da Copa do Mundo

Por Wanderley Preite Sobrinho e Bruna Talarico - iG São Paulo | - Atualizada às

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Morador do bairro paulistano desde 1998, britânico Tom Green integra pelo menos três entidades que trabalham pelo resgate da ordem no palco de comemorações de torcedores

Em um sobrado de três andares na rua Inácio Pereira da Rocha, na Vila Madalena, o designer britânico Tom Green desenha e constrói luminárias de pegada sustentável: feitas de material reutilizável, elas ganharam fama entre moradores do bairro boêmio. Nada que se compare, no entanto, ao próprio prestígio de Green.

Reprodução
Tom Green integra três entidades que lutam pela ordem na Vila Madalena

Além da atividade comercial, ele se dedica com afinco a um trabalho que não lhe rende lucros. Integrante de pelo menos três entidades que batalham pelo resgate da ordem na Vila Madalena, ele tem boa parte de sua rotina tomada pela tarefa ingrata de síndico da bagunça. Desde as primeiras horas do dia, como uma espécie de xerife, ele sai às ruas do bairro para documentar os problemas trazidos pela grande concentração de gente em um quadrilátero limitado pelas ruas Wisard, Mourato Coelho, Aspicuelta e Fidalga. Uma vez registrados com câmeras e com o auxílio de um decibelímetro (aparelho que, em linhas gerais, afere o nível de barulho), ele direciona seus informes aos orgãos municipais competentes.

Vídeo mostra festa argentina na Vila e o dilema do bairro: farra ou psiu?

O sotaque forte, ainda não dissipado pelos quase 20 anos em que mora em São Paulo, não é barreira para que se faça entender: em uma caminhada pelo bairro na tarde de terça-feira (1), durante o intervalo entre os dois jogos da Copa, ele foi saudado por pelo menos cinco moradores da Vila. Ao mencionar que estava dando entrevista ao iG sobre o caos instaurado pela falta de estrutura e de fiscalização das ruas para tamanho contingente, a reação era sempre a mesma: todos encolhiam os ombros com ar resignado, e balançavam a cabeça em uma negação que já dura 20 dias.

Tom é, simultaneamente, diretor do Conselho de Segurança de Pinheiros (Conseg), conselheiro do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Cades) e coordenador do SOSsego Vila Madalena. São movimentos que, muitas vezes, não encontram muito braço para reclamar as ações de fiscalização que moradores da Vila julgam necessárias, mas que conseguem causar algum 'barulho' com suas insistentes interpelações ao poder público. "Não somos contra a alegria, mas falta respeito e fiscalização", explica.

Aglomerações na Vila Madalena não são novidade nem estão exclusivamente atreladas aos festejos de torcedores pelos resultados da Copa do Mundo. Mas no Carnaval, evento combatido pelos moradores, a multidão não se concentra em apenas um local; enquanto uns blocos de rua são itinerantes, outros acontecem em pontos menos concorridos.

Em Londres, Tom foi morador de Brixton, bairro de vocação igualmente boêmia, e lembra que a qualidade de vida na região não era tão prejudicada porque havia uma saudável combinação entre respeito e tolerância. Na Vila Madalena, durante os festejos, excessos cometidos tem transformado a vida de seus habitantes em um declarado 'inferno': a venda e o consumo de drogas acontece de forma irrestrita; carros de som fazem de cada esquina uma balada diferente; a carência de banheiros públicos, aliada à rápida inutilização deles pelo grande contingente de público, leva os meios-fios a se transformarem em rios de urina; e atos sexuais acontecem à luz dos postes, sem maiores pudores.

Como resultado dessa equação, não é raro avistar placas de vende-se ou aluga-se pelo bairro; uma delas está afixada no próprio sobrado de Tom. Na opinião do britânico, a Vila Madalena ultrapassou todos limites da boemia e precisa dar um psiu nos exageros das festas. “A vocação do bairro acabou. A opção agora é mudar daqui.”

Veja fotos da festa da Copa do Mundo na Vila Madalena:

Torcedores holandeses se divertem com paulistanas na noite da última segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGTorcedores colombianos se dizem encantados pela fartura de público feminino na noite da última segunda-feira (23) na Vila Madalena. Foto: Bruna Talarico/ iGMultidão toma conta da esquina das ruas Aspicuelta e Mourato Coelho, na Vila Madalena: moradores reclamam da falta de educação dos torcedores nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGMultidão toma conta da esquina das ruas Aspicuelta e Mourato Coelho, na Vila Madalena: moradores reclamam da falta de educação dos torcedores nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGTorcedores se aliviam na cerca-viva de um instituto de psicoterapia corporal: uma porta chegou a ser derrubada para servir de banheiro nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGOsvaldo Santos, morador da Vila Madalena, sofre com os festejos desmedidos no bairro: com sua bengala, ele luta contra mijões nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGLixo acumulado é visto pelas ruas da região após jogo entre Bósnia e Argentina (15.06). Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP). Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bares na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Lin Ko/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press

A assistente social Guida Amaral, moradora há 32 anos, se recorda do “terror” de uma noite em que precisou saltar poças de urina e atravessar um casal fazendo sexo na calçada para conseguir alcançar o carro. “Alguns se refugiaram em um restaurante, que se transformou em uma latrina", conta.

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