Bruce Wayne da vida real mora no Capão Redondo, é viciado em café e diz que usa fantasia para protestar contra políticos

"Antes de tudo, não quero que você divulgue meu nome." A ordem parte de um empresário do ramo de construção e pintura, de 39 anos, morador do Capão Redondo, bairro da zona sul de São Paulo, vestido de uma forma um tanto incomum: uniforme e máscara do Batman.

No final de semana anterior ao encontro com o iG , o Bruce Wayne da periferia ganhou notoriedade na imprensa ao perseguir e prender um rapaz suspeito de furtar seu celular.

Trinta minutos após o horário combinado com a reportagem, o Homem Morcego brasileiro aparece em uma padaria do bairro onde nasceu e foi criado. "Acredita que eu esqueci da entrevista?", justifica-se, levantando a máscara e deixando à mostra um rosto pintado de preto. "É para dar um efeito", diz.

Após cumprimentar o balconista energicamente, o primeiro pedido: "Café." "Sou viciado em café. Bebo 50 por dia", diz o herói entre um gole e outro. Ao longo da conversa de duas horas, foram seis xícaras. “Isso aqui está fraco. Não tem café forte, não?."

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'Batman' e 'Homem-Aranha' protestam e fazem rapel na ponte Estaiada em SP

Logo no início, a entrevista é interrompida por Kadu Cabalini, um garoto de 10 anos que insiste em tirar uma foto com o Batman para colocar no Facebook. “É legal conhecer o Batman. Acho que é seguro porque ele prendeu o ladrão”, diz o menino.

Diferentemente do herói dos quadrinhos, que combate o crime em Gotham City, o empresário/super-herói brasileiro não quer mudar o mundo prendendo malfeitores. “Não sou polícia. Só prendi o cara e chamei a polícia. Fiz o meu papel. Não bati nele, não deixei ninguém machucar. Um rapaz veio até com galão de gasolina para queimar. Não deixei. Já estava dominado”, diz. A fantasia, para nosso Bruce Wayne, tem um motivo mais nobre: cobrar - e constranger - políticos em relação a assuntos de interesse público, como segurança e saúde.

Veja vídeo da prisão de ladrão de celular no Capão Redondo:

O empresário é bastante conhecido no bairro, e a atuação do Batman é conversa em mesa de bar e esquinas da região, mas nem todo mundo sabe que os dois são a mesma pessoa. Em uma volta no “Batmóvel”, um Nissan Pathfinder que ele adesivou com o símbolo do herói dos quadrinhos, é possível ver a reação dos moradores, um misto de surpresa e admiração, com acenos, sorrisos e agradecimentos. “Não sei quem é, mas tenho uma desconfiança”, diz a manicure Glória Maria, de 35 anos.

Batman X Homem-Aranha

Em tom de brincadeira, o empresário diz ter sido escolhido pelo Batman. “Na verdade eu ia fazer o Homem-Aranha, mas não tinha fantasia do meu tamanho”, assume. O empresário paulistano é alto - tem cerca de 1,90m de altura -, mas não está exatamente em forma.

Se a escolha pelo morcego foi quase por acaso, o empresário não se fez de rogado e assumiu de vez o personagem. Ele diz ter seis uniformes completos do herói, um deles retrô, inspirado nas primeiras aparições nos quadrinhos, em 1939. E afirma já ter gasto cerca de R$ 2 mil em fantasias. Em todos os conjuntos, ele bordou as bandeiras do Brasil, do Estado de São Paulo e uma suástica cortada por um sinal de proibição. A fantasia inclui também um rádio comunicador e cordas (que ele usou para imobilizar o ladrão) e mosquetões para rapel.

Escalar paredes e ficar pendurado nas alturas faz parte da vida do empresário desde quando ele tinha 19 anos e fazia grafites e pinturas em muros da cidade. Com o tempo, o grafite se tornou uma profissão e o ramo de atuação mudou para pintura e construção, que o obriga a ficar pendurado em cadeirinhas para pintar fachadas de prédios altos.

Foi o rapel o instrumento utilizado para protestar pela primeira vez, em novembro de 2012, ao colocar uma faixa na ponte João Dias, sobre o rio Pinheiros, com a frase “Chega de sangue”. Era uma referência aos assassinatos que aconteciam na região.

O Batman só entrou em cena quatro meses depois, e desde então é visto pendurado por cordas colocando faixas de protestos em pontes, viadutos e fachadas de prédios públicos, como a Câmara Municipal de São Paulo. As ações renderam-lhe mais de 20 prisões em diversos distritos da capital e até mesmo de Brasília, onde trocou a armadura de morcego por uma fantasia do bonachão Shrek.

Liga da Justiça

O empresário que dá vida ao Batman tupiniquim tem mais diferenças do que semelhanças com o ricaço e solitário Bruce Wayne dos quadrinhos. Filho de um bancário e de uma dona de casa, tem dois filhos, um menino de 3 anos, e uma adolescente de 12 anos. A atuação mascarada do pai tem a admiração dos pequenos e da mulher, que o acompanha em muitas das ações. “Ela é a Mulher Onça, porque é muito brava”, brinca.

Caseiro e diurno, o morcego diz acordar todos os dias às 6h e trabalhar ao menos 12 horas por dia fiscalizando as obras que a sua empresa está tocando e fazendo orçamento para futuros projetos. “Só me visto de Batman para fazer protesto e dar entrevistas.”

A atuação do Homem Morcego já ganhou adeptos e ele finalmente conseguiu que o Homem-Aranha fizesse parte do grupo batizado de Loucos pela Paz. “Para fazer o que a gente faz tem que ser bastante corajoso.” Além do Batman, do Homem-Aranha e da Mulher-Onça, o grupo tem a participação de Vampiro, Jack Sparrow e Zorro, todos com habilidades para “escalar paredes e cobrar políticos”.

Dos protestos políticos e da exposição provocada pelo Batman surgiu até mesmo um convite para ser candidato nas próximas eleições. “Estou sendo pressionado pelo partido para sair deputado federal e tenho até segunda-feira para responder”, diz o filiado ao Partido Humanista da Solidariedade. “Sei que a melhor forma de protesto seria tomar a cadeira de um político, mas tenho medo que as pessoas falem que tudo que eu fiz foi político. Se eu não ganhar, queimo meu movimento.”

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