Visita do príncipe Harry à cracolândia de São Paulo divide usuários de drogas

Por BBC - Camilla Costa |

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Quarto na linha de sucessão ao trono britânico conheceu programa De Braços Abertos, que busca recuperar viciados

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A visita do príncipe Harry ao projeto De Braços Abertos, na "cracolândia", região central de São Paulo, nesta quinta-feira (26), causou comoção nas ruas, mas dividiu as opiniões dos beneficiários do programa - em sua maioria, usuários de crack e moradores de rua.

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Quarto na linha de sucessão ao trono britânico conversa com o prefeito Fernando Haddad

Desde o início da manhã, quando a operação de segurança era montada na região da Luz, moradores da região e pessoas inscritas no programa da prefeitura que busca desenvolver uma abordagem de "redução de danos" ao problema das drogas, circulavam curiosas ou indignadas com a presença de jornalistas e autoridades no local.

"O príncipe vai dar o quê? Vai dar mais dinheiro pra nós? Só funciona tudo quando os repórteres estão aqui", dizia Silvana, uma das beneficiárias do De Braços Abertos, enquanto acompanhava agitada o percurso da organização da visita.

Dois moradores da região fizeram um protesto com cartazes contra o prefeito Fernando Haddad, que acompanhou Harry na visita ao programa. "Tem que gastar dinheiro com hospital e educação, e não com programa social", dizia um deles, que não quis se identificar.

O príncipe, quarto na linha de sucessão do trono britânico, esteve em Brasília, em Belo Horizonte e visitou projetos sociais em São Paulo. Nesta quinta-feira, ele segue para outros compromissos no Chile.

'Princípe de onde?'
A última parada de Harry durante a visita à cracolândia foi um galpão onde funciona um centro de atendimento do programa De Braços Abertos e onde os beneficiários recolhem o material para o trabalho diário, como varredores de ruas.

Os participantes do projeto se aglomeraram na entrada do local para esperar o príncipe britânico, mas a maioria deles mal conseguiu vê-lo. Eram impedidos pelo forte policiamento e pela presença da imprensa. Houve confusão entre alguns dos varredores e jornalistas. Irritada, Silvana seguiu a imprensa até a porta do galpão, reclamando das más condições dos hoteis em que os cadastrados no programa são instalados. Outros reclamavam de uma "faxina" que teria sido promovida pela prefeitura no trecho pelo qual Harry circularia.

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No início da manhã, a reportagem da BBC Brasil acompanhou pessoas sendo encaminhadas para fora do "fluxo" (local onde os usuários se reúnem para consumir a droga), próximo à Estação Júlio Prestes, e caminhões pipa sendo usados para lavar o chão no local. Por outro lado, moradores de rua ainda dormiam na Sala São Paulo, diante do local da chegada do príncipe.

Tatiane Laila Vicente, de 29 anos, aguardava ansiosa próxima à entrada do galpão de atendimento, mas não foi autorizada a entrar. Mesmo assim, ela - que está no programa há dois meses e, garante, sem usar crack - disse estar satisfeita com o momento em que viu brevemente a passagem do britânico.

"Que sensação gostosa! É que nem ganhar neném, porque é rápido. Ele vem e vai logo", disse à BBC Brasil. Tatiane, no entanto, confessou não saber exatamente quem era Harry. "Ele é príncipe de onde?", perguntou. "Veio aqui só para ver a gente? Caraca!"

O ex-morador de rua Reinaldo Mantovani, de 48 anos, teve mais sorte. Chamado para ajudar na organização do local, conseguiu cumprimentar Harry e tirar uma foto. "Fiquei ouvindo a conversa. Não entendi muito, mas ele falou que ia ajudar o prefeito com o programa", afirmou. "Ele pareceu gente boa, humilde, dá atenção à gente. Só isso já faz diferença, né. Porque tem gente que vê a gente com essa farda e nem olha na nossa cara."

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