Centro das comemorações da Copa do Mundo em São Paulo é palco de exageros

Por Bruna Talarico e Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Vila Madalena reúne multidão na noite mais disputada de SP. Traficantes circulam livremente e moradores se queixam

O relógio marcava pouco mais de 23h de segunda-feira (23). Quatro horas após o fim de Brasil e Camarões, as ruas já abarrotadas da Vila Madalena não paravam de receber gente. No meio da festa de gringos e brasileiros - ao som de funk, sertanejo e barulho de garrafas de vidro se quebrando no asfalto -, traficantes de lança-perfume e cocaína passavam incólumes pela multidão. O bairro com a "noite mais disputada de São Paulo" tem vivido assim durante a Copa do Mundo: um misto de liberdade e libertinagem.

Jovem na “FanFest” da Vila Madalena: “Sou homem, mijo em muro sim"


Veja imagens da Vila Madalena durante a Copa do Mundo

Torcedores holandeses se divertem com paulistanas na noite da última segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGTorcedores colombianos se dizem encantados pela fartura de público feminino na noite da última segunda-feira (23) na Vila Madalena. Foto: Bruna Talarico/ iGMultidão toma conta da esquina das ruas Aspicuelta e Mourato Coelho, na Vila Madalena: moradores reclamam da falta de educação dos torcedores nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGMultidão toma conta da esquina das ruas Aspicuelta e Mourato Coelho, na Vila Madalena: moradores reclamam da falta de educação dos torcedores nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGTorcedores se aliviam na cerca-viva de um instituto de psicoterapia corporal: uma porta chegou a ser derrubada para servir de banheiro nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGOsvaldo Santos, morador da Vila Madalena, sofre com os festejos desmedidos no bairro: com sua bengala, ele luta contra mijões nesta segunda-feira (23). Foto: Bruna Talarico/ iGLixo acumulado é visto pelas ruas da região após jogo entre Bósnia e Argentina (15.06). Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP). Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Taba Benedicto/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bares na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Lin Ko/Futura PressTorcedores assistem ao jogo Brasil e México na tarde desta terça-feira (17), em bar na Vila Madalena, cidade de São Paulo (SP).. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press

Na rua Aspicuelta, a imagem do contador Osvaldo Santos, de 70 anos, se impunha no combate à baderna. Parado com os olhos vermelhos de cansaço em frente ao portal da casa onde mora há quase 40 anos, ele se apoiava na bengala para espantar quem quisesse urinar em seu portão. Contou que não dorme desde o início da Copa, e enviou sua mulher para o interior do Estado. “Se ficasse aqui, ela enlouqueceria”, constata, resignado. “Já tentaram invadir meu portão, e eu fui pra cima com a muleta. Tive que bater porque não há mais respeito nenhum.”

Bruna Talarico/ iG
Osvaldo Santos, morador da Vila Madalena, sofre com os festejos desmedidos no bairro: com sua bengala, ele luta contra mijões

Menos de 20 metros separavam o portão da casa de Osvaldo do posto de gasolina que servia como ponto para venda de drogas. Moradores relataram que, diante de ligações para a polícia, eram instados a fornecer a identificação de eventuais traficantes. "Isso é um absurdo, como eu vou saber o nome e os documentos de quem está vendendo drogas", reclamou um senhor que não quis se identificar. A oferta, grande, era negociada na área menos iluminada do estabelecimento comercial arraigado na esquina das ruas Aspicuelta e Fidalga. Seguindo por esta última em direção à rua Wisard, a equipe de reportagem do iG presenciou a revista feita por cinco agentes da PM em um rapaz que portava um papelote de pó branco. Sem camisa, ele teve os braços imobilizados e ficou sob custódia. 

No perímetro entre as ruas Aspicuelta, Mourato Coelho, Wisard e Fidalga não era incomum descobrir banheiros extra-oficiais instituídos em paredes comerciais e residenciais. Um exemplo crítico era o testemunhado por quem tentasse avançar pela calçada vizinha ao boteco José Menino, no epicentro da confusão: pertencente a um instituto de psicoterapia corporal, a cerca-viva que adornava sua parede foi transformada em um mijódromo, com direito a derrubada de uma das portas de madeira que protegiam a parte interna da propriedade; o jardim de inverno da instituição, fruto de uma obra recente, está até agora com o cheiro de urina.

“Os banheiros públicos ficam longe, e é difícil pro homem aguentar até lá”, justificou Marcelo Henrique, 22 anos, depois de se aliviar no local. “Está um fedor insuportável, e ainda estamos vendo como fazer a limpeza do jardim”, lamentou, em conversa com o iG na manhã desta terça-feira (24), a gerente-administrativa do lugar, Mila de Freitas. “Não podemos jogar detergente nas pedras e na grama porque isso mataria todas as plantas.”

Em alguns momentos, clareiras se abriam no meio da multidão: era a senha para brigas com direito a ostentação de haste de metal retirada do carrinho de um ambulante, conforme presenciado pela reportagem do iG em frente ao Boteco São Bento.

A experiência de tentar avançar um metro que fosse no ponto mais crítico do bairro pode se assemelhar à baldeação na estação Sé do Metrô nas horas que antecedem um jogo do Brasil na Copa do Mundo. A diferença, aqui, é que não há aquele típico clima patriótico/amigável pré-jogo. E o abuso de álcool dá uma forcinha para a confusão se acentuar.

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